{7 de junho de 2026}
Tem o trecho da barata nas costas, outra vez isso.
Não sei se compõe um todo. De onde estou vejo meu pai dentro do quarto, como se fosse um set, pois o quarto não tem a quarta parede, posso ver dentro dele. Meu pai está de pé em frente da cama, e a barata o ataca. É uma barata normal, mas definitivamente está atacando. Meu pai se agita e de certa forma a espanta e ela sai voando pela porta, que está na parede perpendicular a mim, à minha direita. e no corredor fora do quarto está minha mãe, mas ela está com um camisolão branco até a canela, descalça e lembra não sei que personagem meio macabro de alguma referência. E nisso a barata ataca a minha mãe, que começa a se agitar. Eu, de onde estou, começo a gritar:
- Pai, a mamãe, ajuda a mamãe!
E nisso a barata, que era meio uma supra barata, se atira na minha direção, cai sobre minhas costas, pois esqueci que estava deitada de bruços sobre uma cama, enquanto tudo isso se passava e eu grito de verdade, grito dormindo e me acordo, e isso nunca tinha ocorrido.
Bem, eu acordei e fui no banheiro. Dormi novamente e.
Estou na casa de praia da Maísa, ou parece, ali naquela terracinho na frente. Estou sentada no chão e ali do outro lado do pequeno terraço está o Diogo Almeida, o humorista, só que no sonho ele é um faz tudo e eu o chamo de Diego. Falo com ele e sinto que temos um relacionamento de algum tipo. E então eu fui num dos aposentos dessa casa, que tem várias camas desse tipo leito de campanha, bem próximas uma das outras e eu estou indo me deitar numa delas porque uma senhorinha muito parecida com a senhorinha monstra de um sonho recente, vou tentar localizar qual,
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vai me fazer uma massagem ou coisa parecida, terapêutica.
Eu estou bem tranquila e já estou deitada, olhando a senhorinha se aproximar, quando noto que ela tem na mão uma tesoura de ponta bem pontuda e empunha aquilo como se fosse uma faca. Digo meio brincando:
– Por favor vira essa ponta para lá que essa ponta pontuda é quase uma faca.
Estou meio de brincadeira, mas percebo que a senhorinha não altera a sua expressão e continua se aproximando de mim com a tesoura apontada para mim. Imediatamente tudo aquilo muda de figura e ela, que eu estava vendo como uma figura benevolente que iria me ajudar, imediatamente passa a parecer sinistra. Pulo da cama e com muita agilidade, vou passando sobre as camas na direção da porta, enquanto berro:
-Diego! Diego!
Mas o Diego não vem me salvar. Me enganei e nunca houve nada entre nós, penso.
Saio desabalada até a porta da rua, achando que a senhorita sinistra poderia mandar os garotos da casa irem atrás de mim para me pegar. Nada disso acontece. Logo estou na rua e num estranho espelhamento da situação anterior, tenho comigo a única coisa que deu para trazer comigo, que seria essa faca de fruta que tenho na vida acordada e que é minha faca de cozinha, faço tudo com ela. Na rua, com uma roupa que era a que eu estava usando e parece meio um conjunto de moletom, é um pensamento muito importante esse de que a única coisa que tenho comigo é essa faca, então a seguro bem. É engraçado pois não seria como se a faca fosse a única coisa que tenho para me proteger, e sim a faca era a única coisa minha naquele instante. Estou sem bolsa, sem dinheiro, sem nada a não ser a roupa do corpo e essa faquinha. Em um primeiro momento, minha preocupação é me pôr o mais longe possível da casa, pois tenho medo que a senhorinha sinistra me recapture. Quando me sinto fora do seu alcance, começo então a me preocupar com o que seria meu verdadeiro problema: como voltar para casa. Começo a andar pela rua e acho que essa seria a primeira vez que estaria nessa situação em sonho
– Não tenho para onde ir, penso
Eu não tinha para onde ir, não por ser moradora de rua, mas porquê, como repasso para mim mesma ali, mesmo tendo imóveis, todos estavam alugados
– Não posso ir para a Padre, penso. Está alugada para a Andréa Chapira
Até o nome e sobrenome da minha inquilina na vida acordada eu lembro no sonho. Repasso na cabeça meus outros imóveis. Mesmo sem lembrar localização e inquilinos com a mesma exatidão, estão todos alugados. A minha kit não existe no sonho ou também estaria alugada e o ap da minha mãe não comparece no sonho.
– Fora que nem dinheiro eu tenho, penso.
Mas isso seria uma questão menor. Eu poderia pegar um táxi e quando chegasse em casa pegar cheque ou dinheiro lá para pagar o motorista, mas eu não tinha justamente a casa para onde ir.
– Que vou fazer? Vou dormir na rua?
Penso e penso sempre segurando a faca apertada na minha mão e não consigo achar nenhuma solução. O tempo passa e fiquei perambulando meio sem rumo, até mesmo me divertindo com isso.
E nisso, ali na calçada, vindo na minha direção está a Márcia, a inquilina queixosa da Martiniano. Ela vinha distraída, eu também, e ambas nos assustamos quando damos uma com a outra.
No que ela me reconhece, fica sem graça, mas eu também estou sem graça. É a segunda vez que sonho de uma forma amigável com essa mulher que foi agressiva, grossa e injusta comigo. É louco pois no sonho eu lembro que tive aquele outro sonho no qual a chamava de amiga, e meu instinto é ser educada e gentil com ela
– Oi, Márcia, tudo bem? digo.
Ela, também parecendo sem jeito por ter sido rude comigo, pergunta de forma branda:
– E então, como está o banheiro?
– O Manoel encomendou os azulejos no cemitério dos azulejos, respondo.
E no sonho então me lembro que até isso já estava resolvido na vida acordada.
– Na verdade ele já achou o azulejo e ficou de me passar o orçamento.
E com isso nos separamos. Continuo andando pelas ruas sem conseguir achar nenhuma solução para o meu problema de para onde ir e tentando focar, pois estou gastando tempo e energia andando à toa ali pelas ruas e até me divertindo em parte com isso. E às vezes é assim que tenho impressão que minha vida seja. Não sei o de é minha verdadeira casa e enquanto isso e até mesmo em detrimento disso, fico me divertindo enquanto gasto tempo e energia fazendo coisas à toa por ai.
Mas andei e por puro acaso acabo passando dentro de uma espécie de galeria de espaços bem reduzidos, parece um monte de vãos mesmo, e todos, todos eles estão ocupados por pessoas, mulheres, em atividades comerciais de costura. Não especificamente roupas, mas coisas variadas que envolvem costuras, por exemplo, uma delas está costurando um longo fru-fru, bem delicado, pelo jeito ela confecciona e deve vende fru-frus prontos, como esse que usei para fazer minha cortininha de banheiro, e que coisa mais bela dedicar a vida a produzir belezas inúteis e supérfluas, é o que muito obscuramente me vêm na mente. Estou cansada, está anoitecendo, e esse assunto de costura é um dos assuntos atraentes para mim, então vou andando cada vez mais devagar e cada vez mais desligada do meu objetivo inicial que era apenas cruzar a galeria, que tinha entrada numa rua e saida na rua de trás. Vou ali olhando as mulheres costurando e sentindo vontade de fazer algo assim, e meio confusamente, tenho noção de estar sonhando, pois no próprio sonho eu analiso o sonho e penso algo parecido com o que pensei no sonho
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– Mas então seria isso um sinal de que vou costurar?
E o que sinto é ambíguo. Em parte gosto da idéia, em parte me decepciona.
E acaba nisso.
Ah, lembrei do que realmente fecha o sonho. Me ocorre perguntar para as mulheres costureiras se me deixariam dormir ali e em troca eu ajudaria com as costuras.
IMAGE CREDITS PATRICK DEMARCHELIER | CAROLINE TRENTINI | VANITY FAIR 2009