A OUTRA SILVIA

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Havia uma garota de uns vinte e poucos anos chamada Silvia, que era uma ilustradora iniciante e tinha me procurado para mostrar seus trabalhos e pedir orientação sobre seu estilo.

Ela era muito empolgada com a profissão de ilustradora, aquela era sua paixão. Eu logo me acho diferente dela porque gosto de ser ilustradora, mas essa não é minha paixão, e às vezes até me sinto culpada de investir mais nisso e menos nas coisas que realmente são minha paixão.

Mas essa moça não tinha conflitos, ela era unicamente devotada a ilustração.

Ela era legal, mas não era muito atraente. Apesar de não ser feia, não era sensual nem charmosa. Era o protótipo da artista, com um visual meio maluquinho e grandes olhos azuis sonhadores, olhos de pessoa criativa.

Acho suas ilustrações muito boas. Ela me mostra um trabalho em andamento e fico impressionada com a qualidade do seu trabalho e também com o seu profissionalismo, já está tudo rafeado, planejado, organizado. Me vem a cabeça que é assim que eu gostaria de ser.

Ver que o trabalho dela é bom me dá uma grande satisfação e tranquilidade interna. Me vem uma estranha sensação de que “algo” que eu não poderia ou não quereria realizar está em boas mãos, mãos competentes e talentosas, as mãos dessa outra Silvia.

Ela conversa comigo animadamente, mas não consigo escutar direito uma palavra do que ela diz. Estou meio surda. Ela convida para ir numa festa com ela. Fico contente dela querer ser minha amiga. Quero ir, mas tenho medo de encontrar pessoas que eu evito nessa festa, então demoro para responder. A Maria e outras pessoas estão lá. Converso um pouco com elas, ainda pensando se vou ou não vou nessa festa, quando a ilustradora se despede.

Vejo que ela interpretou minha demora em responder como uma recusa. Mas não parece chateada. Eu digo: depois eu te ligo para combinar sobre a festa. Mas ela não consegue escutar. Ela tem uma certa dificuldade de ouvir, é meio surda. Lembro que eu também não consegui escutar umas coisas que ela disse e penso que somos ambas legais, mas ambas meio surdas. Vejo que a Maria está meio enciumada da atenção que eu estava dando para a ilustradora. Como gosto muito da Maria, começo a falar com ela e lhe dar atenção também.

{30 de dezembro de 2003}

IMAGE CREDITS STEVEN MEISEL | DARIA WERBOWY | VOGUE ITALIA OCTOBER 2003

A OUTRA SILVIA

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