{13 de junho de 2026}
No que inicia, eu e minha família toda estamos almoçando num restaurante dentro de uma espécie de galeria comercial que haveria na avenida Paulista, na altura do Masp, mas não seria o Masp.
Era um restaurante chique, estávamos todos já sentados aguardando os pratos, quando eu decido que tenho que resolver a seguinte coisa.
Ali pensando, me dou conta de que havia esquecido no consulado americano minha pasta que teria meu passaporte e meus documentos de RG. Fica esse dado sutil que de não seriam todos os meus documentos, apenas o passaporte e meus RGs, meus documentos de identidade básica. Identidade. Passaporte vale como RG. Estava, acho que nessa pasta lilás. Eu havia estado no consulado com esse documentos para resolver algo e num descuido havia deixado a pasta lá e isso fazia uns dias. Eu já havia percebido, mas havia deixado passar por estar envolvida com outras coisas que me pareciam prioridade.
– Nossa, mas como pude achar isso? É meu RG, meu passaporte, se eu perder vai dar um trabalhão tirar tudo de novo.
O RG não seria essa porcaria CIN que tirei agora e sim os originais.
– Depois de tanto, tempo, dias, será que tem chance de ainda estar lá? É o consulado americano, devem ter uma seção de achados e perdidos, mas será que uma pessoa achando uma pasta com documentos originais de outra, não iria roubar?
Tudo isso é o que penso, quando decido me levantar da mesa e ir cuidar desse assunto.
Me afasto do restaurante e chego na rua, meio sem um plano definido, apenas atordoada com a bobagem de ter deixado esse tempo todo passar, e mais ou menos pretendendo ligar para o consulado, perguntar se eles tinha seção de achados e perdido, pedir o número, ligar lá e perguntar se encontraram minha pasta.
Isso é o que mais ou menos pretendo, enquanto ando um pouco pela rua, acho que para clarear minha idéias.
Aqui não super lembro, mas tem um momento em que dou uma voltada para o restaurante, acho que por pensar que posso muito bem ligar de lá.
Vejo ali a mesa com minha família e mais uma vez volto para a rua.
Aqui realmente gostaria de lembrar melhor.
O que me parece é que num primeiro momento, meu plano era ligar para o consulado. Então não haveria motivo para me afastar do restaurante, mas eu me afasto, depois volto para perto da mesa sem chegar a me sentar de fato, volto a me afastar, volto a me aproximar da mesa, como se estivesse testando minha capacidade de achar o caminho de volta até ela, me afasto de novo e aí, quando vou tentar voltar para a mesa, não encontro o restaurante na rua.
No começo me parece alguma bobagem, que eu encontraria o restaurante se olhasse com calma, e eu estava bem pouco calma, andando para lá e para cá pensando em achar o telefone do consulado no google. Mas refaço o caminho devagar e com calma e vou parar numa rua que parece aquela que desce da Paulista para a Abílio Soares, depois vejo o nome, uma rua de casinhas, e nisso me refreio pensando:
– Péra, tem algo errado acontecendo e não estou mesmo conseguindo localizar o restaurante, não é uma bobagem fácil de consertar. Melhor não me afundar mais ainda nesse erro.
Então eu volto pelo caminho e acho que só pode ser nesse momento que eu entro numa galeria que ficava bem onde me parecia que seria a galeria com o restaurante e falo com uma menina japonesa de ar descolado, mas onde fica um restaurante assim e assado?
Apesar dela me olhar intensamente, não responde nada de útil.
E então acho que é nesse momento que eu resolvo, já que estava perdida mesmo, pelo menos tratar do assunto mais importante, o da perda da pasta com meus documentos, do jeito certo, que seria ir até o consulado, muito mais eficiente do que tentar resolver por telefone, sendo que isso era totalmente possível uma vez que o consulado americano, e isso já estava estabelecido desde o início do sonho, era exatamente, exatamente, Guias, e o que quer dizer isso? onde fica o Belas.
Então eu perco minha identidade no Belas e tenho que recuperar. O que isso quer dizer? O seriado é um equívoco, eu não sou isso?
Então vou caminhando até lá, e em segundo plano, muito discretamente, tem esse elemento bem positivo de o tempo todo dessas andanças todas na rua, eu estou com esse escarpin de salto 8, que amo, acho o sapato mais bonito do mundo, mas que na vida acordada não pára no meu pé e já é acho que o terceiro par desse tipo de sapato que eu tenho e nenhum deles parou nunca no meu pé.
Mas ali ando naturalmente.
Vou indo na direção do Belas, é uma caminhadinha, desde ali na altura do Masp, mas como disse, ando muito bem.
E nisso uma cena também muito forte a nível de simbologia. Pois um pouco mais adiante, e estou andando pela calçada do lado do Masp, vejo o A.S. andando na minha direção. Aparentemente ele não me vê, está falando no celular, e aqui, o impulso que me vêm e que agora escrevendo me envergonha um pouco, é de fingir que não o vejo.
Não fica claro o motivo. Me parece que seria um encontro não planejado, e portando não desejado, de nenhuma das partes e que iria acarretar uma troca de frases forçada. Não chego a sentir que não gosto dele. Mas não quero aquela interação, então até achando graça um pouco, afundo meu rosto um pouco mais no doce que estava comendo, um bolinho enquanto andava, e passamos desapercebidos um pelo outro e só quando já me afastei uns passos e estou até meio me congratulando por ter conseguido, me ocorre que pode muito bem ser que ele também estivesse fingindo que falava no celular para me evitar, e já disso eu não gosto. Que eu tivesse decidido evitá-lo, não me incomodava, mas que ele fizesse o mesmo, incomodava um pouco.
De qualquer forma, estou totalmente focada na questão da pasta e agora escrevendo percebo uma falha de lembrança nesse sonho, que estava me parecendo que tinha na cabeça 100%.
Pois depois dessa cena com o André, meu foco muda de ir até o consulado, coisa que deixo de lado, para tentar localizar minha família.
Até pode ser muito bem aqui que rola a cena com a japonesa.
Mas eu ando e ando, agora já angustiada por não conseguir localizar minha família. Antes era só mais um problema para eu resolver, mas nesse momento passa a ser uma angústia crescente, que eu vou percebendo que vai me dominando.
A cena seguinte que lembro clara é que eu finalmente, depois de umas andanças, estou num lugar que tem uns mezaninos abertos rodeando um páteo interno a céu aberto, e aquilo é algo público, não um conjunto de apartamentos, algo ligado a estacionamentos, e eu estou nessa parte alta de mezanino e escuto a voz da minha mãe.
Começo a gritar: mãe, mãe, onde você está? Onde você está?
E agora acho que nessa parte é que vejo a Lú, a uns 10 metros a minha direita, na parte onde estou, os mezaninos.
Realmente não lembro com certeza, mas lembro sim que a Lú aparece antes da minha mãe.
Aqui mais uma vez confuso, pois parece que a Lú fala comigo, e ao mesmo tempo parece que nesse momento é que se configura a situação central do sonho: pois eu falo e a Lú não me escuta e eu percebo que ela não está me vendo. Ela não está me vendo.
Assim como no primeiro momento em que perdi a capacidade de encontrar o caminho de volta para o restaurante, não dou muita importância a isso, encaro com uma bobagem qualquer passageira, e ao que dou importância é ao fato de que se a Lú estava ali, minha mãe devia estar perto, e de fato, ali de onde estou no elevado, vejo minha mãe atravessando o páteo ali embaixo, ou a vejo no mezanino do outro lado do páteo, acho que isso primeiro, mas de qualquer forma, a localizo e isso me dá um grande alívio. Desço até o páteo e corro na direção dela gritando:
– Mãe, mãe.
E nesse instante, não saberia dizer como a mêcanica dos sonhos é organizada, mas uma sombra de suspeita negra vem na minha cabeça. Não sei se seria uma intuição ou uma auto uruca.
Penso que ela não vai me ver.
E de fato, quando estou na frente dela, grito e grito e percebo que ela não me vê.
A partir daí, até mesmo tenho consciência no sonho de que não necessariamente precisaria ser assim, mas a angústia toma conta de mim, e é uma angústia muito, muito intensa e foi muito experiênciada.
Grito com crescente desespero:
– Mãe, você não está me vendo? Você não está me vendo?
Tem alguma outra pessoa ali para a qual grito a mesma coisa, alguém da minha família. Acho que a Lú.
O que me chama a atenção nesse momento, até mesmo durante a própria cena, é que o fato da minha mãe não estar me vendo e de eu, como é o que penso ai durante o sonho, ter sido levada para uma realidade paralela, uma dimensão paralela a aquela, na qual eu podia vê-la mas ela não, sem que isso nem chegasse perto de ser definido como eu ter virado fantasma, o que seria a primeira explicação óbvia, eu pensava na dimensão paralela mesmo, pensava que isso havia começado a partir do momento em que não conseguia mais localizar o restaurante, aliás, a causa de eu não conseguir localizar o restaurante era justamente essa, eu havia mudado de dimensão, mas o que pega mais fundo que tudo e qualquer coisa é que estar numa situação na qual não teria mais contato com minha mãe é desesperador para mim de uma forma que, como disse, estou super consciente, não necessariamente precisaria ser assim,
Lembrei outro trecho importante.
Entre a parte do André e a parte em que vejo a Lú, como disse, tento bastante localizar minha família e num desses momentos, fui olhar num páteo, ali não tinha nada, e quando já me afastei uns passos, percebo que tinha esquecido minha bolsa no páteo. Havia pousado minha bolsa no chão para descansar um pouco e havia esquecido de pegar de volta.
Olho e ali está a bolsa, a uns passos de distância, graças a Deus percebi logo.
É essa bolsa preta e branca da Carina, mas tem alças longas,Vou até a bolsa e a apanho de volta, pensando assim:
– Deve ter sido assim que acabei esquecendo a pasta no consulado.
E coisas que me ocorrerem aqui.
Isso de outra dimensão, de não conseguir encontrar o restaurante, de estar numa dimensão paralela na qual algumas coisas ficam fora do meu alcance, como minha família, pois como eu mesma penso no sonho, não era todo mundo que não podia me ver, basicamente apenas minha família, isso é do roteiro do OS, o filme o qual acho que devo realizar.
E ainda tem aquele seriado Leftovers, super elogiado ali no insta, só de ver o trailer me irritou e mais uma vez confirmou isso que me parece até algo sensato, de que não dá para esperar que o público que acha isso o máximo goste das minhas coisas.
Guias, me levem para fora disso tudo. Até mesmo no sonho me dou conta de que, mesmo ali deixando o desespero tomar conta, perder a ligação com a minha mãe não seria perder a coisa mais benéfica da minha vida. E tenho minha bolsa.
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