TENHO PARA ONDE IR

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7min de leitura

(20 de agosto de 2026}

Que sonho mais lindo!

Ficou meio confusa a ordem das cenas iniciais.

Acho que primeiro estou nessa sala que já faz parte da casa onde estou, que mais para frente se revela como sendo a Gregório, e nessa sala está minha avó Neusa e algum outro parente meu que no sonho tenho ciência de era falecido.

Apesar de em parte saber que estou sonhando, sei que a presença de parentes mortos em sonho é sim, ou pode ser, um encontro de almas e sonhos com a minha avó sempre foram muito anunciáticos de algo.

Então aproveito para ficar com ela. Me sento ao lado dela e acho que a abraço, e penso que não preciso dizer nada, pois a comunicação mais intensa é o silêncio.

Mas então, quando ergo minha cabeça e olho para seu rosto, vejo que sua pele está toda polvilhada de manchinhas, e sei que aquelas manchinhas são marcas de decomposição de um corpo morto.

Minha avó está sorrindo aquele sorriso dela que eu lembro tão bem, mas ao ver essa manchinhas me dá repulsa e eu recuo um pouco.

– Estou abraçando a morte e a doença, eu penso.

E aqui vejamos.

Não tenho certeza mesmo da ordem. Apesar da casa ser a Gregório, ela se abre para um grande quintal, não seria o quintal da Gregório mesmo, seria um quintal retangular mais de terra e grama, com árvores, e estou em meio a seguinte situação.

Na casa havia se desenvolvido uma espécie de festa a partir de uma ação minha.

Não chegava a ser como se eu tivesse dado uma festa e mais sim como se algo que eu tivesse feito tivesse desmbocado numa festa. O quintal está cheio de convidados, um grupo jovem, mas…

A festa não é uma coisa do bem.

Quando acordei, pensei em dar para o sonho o título de A festa Demente.

Não chega a ser demente exatamente, mas é uma coisa meio frenética, desenfreada e meio alucinada,

As pessoas ficam pulando e rindo meio histericamente, e quando saio ali para olhar, vejo um grande grupo de rapazes, uns 20, correr desvairados até uma grande árvore que teria ali no fundo do quintal, subir nela e ficar nos galhos agitando os braços e rindo como doidos.

Fui eu que dei start nisso tudo e a coisa se desdobrou fora do meu controle. Aquilo tudo me angustia. Então na sala, pois eu ainda estou dentro de uma sala, observando o quintal de dentro dela, entra o Caco Ciocler. Não parece ele fisicamente, mas é ele. Ele está, como todo mundo ali, menos eu, quase que fora de si de frenesi. As pessoas não estão drogadas. Estão nesse estado de espírito meio over, ou muito over. Uma vez viajei com a Renatinha e aqueles amigos blasé dela da W Brasil e a gente ficou numa casa que tinha um quintal desses, não me parece que fosse o sítio dela em Itu, deveria ser casa de alguém do grupo, e de noite todos beberam, como sempre, e ficaram meio como as pessoas dessa festa, correndo e uivando na direção de uma árvore que tinha no quintal, a cena do sonho é muito parecida para não ter vindo daí, pois assim como no sonho, eu, a única que não bebia, ficava observando de fora e aquilo me dava agonia, a atitude desvairada era a mesma, e não se devia apenas à bebida e mais ao fato de que aquelas pessoas achavam que ficar nesse desvairamento era se divertir.

Então digo algo ao Caco Ciocler, ele está despenteado e suado, e me olha e sorri, mas sei que ele não absorveu nada do que eu disse.

Ele torna a sair e a sua participação na festa é algo que devo descrever em detalhe, pois é a coisa mais simbólica.

O Caco deveria ir com as muitas meninas que ficavam atraídas por ele até um certo barranquinho ali no quintal, coisa pequena, e de lá ele empurrava as meninas que gostavam dele barranco abaixo.

As meninas da festa, que faziam fila para serem empurradas por ele, estavam todas rindo exageradamente como se aquilo fosse a coisa mais divertida do mundo.

Mas tudo muito fake. E meio desesperado.

E aqui outra cena que ficava em destaque.

A menina do começo da fila era uma garota, ou uma versão de uma garota que era manicure no salão do lado da Padre Carvalho, esqueci o nome da dona do salão, ah, salão da Lia. Na vida acordada a menina era uma menina morena de cabelo escorrido, mignon, e tinha uma deformidade na face. Aqui no sonho seria ela, mas sem a deformidade, mas o mesmo ar de meio coitada. E ela olhava o Caco, já na expectativa de ser empurrada, com o ar mais deslumbrado do mundo, e eu notava a artificialidade daquela atitude de quem está se divertindo. Todo mundo ali estava numa vibe de alegria bem fake, mas ela levava a coisa um pouco adiante, ela parecia sinceramente e autenticamente fingindo para si mesma que estava se divertindo.

Fingindo para si mesmo.

Aquilo tudo me repugna e eu decido ir embora e acho que seria nesse momento que encontro um lindo, lindo banheiro comunitário, com belíssimas pias antigas e limpas e, como me indica a garota que estava ali dentro, junto com outras mais utilizando o banheiro:

– Tem até uma banheira, veja.

Ali na sala contígua, sem nada que a ocultasse, há uma linda banheira antiga de louça e uma garota ali se banhando.

Tudo isso passa uma ótima impressão, e isso de pia e banheiros limpos são elementos que tem surgido apenas recentemente.

Mas eu vou embora. Praticamente me arranco dali, pois, tendo sido eu a iniciar aquilo, tem uma espécie de ligação, algo que tenho que tomar impulso para romper, nada de muito extremo. Apenas agarro minha bolsa e saio.

No que estou na rua, uma garota da festa me segue, dizendo num tom amigável, mas meio histérico como o de todos ali…

–Silvia, você vai embora? Como assim, você vai embora?

Não tenta me deter, mas por um instante fico com receio que aquilo se transforme, como o João costuma dizer, num gravetão, alguém para quem eu teria que ficar me explicando, mas apenas sigo em frente e logo ela não está mais comigo.

Estou na rua da Gregório. Saí com uma bolsa minúscula, na verdade saí com essa bolsinha peruana que minha mãe me deu, na qual só cabe uma chave. Nem o celular cabe nela.

– Mas essa bolsa é tão pequena, e eu saí tão depressa, será que está tudo aqui?

Vasculho o interior da bolsa e sinto meu cartão de crédito. Tiro da bolsa para me certificar. Sim, é meu cartão de crédito preto, ainda que meio desbotado de tanto uso.

– Estou com meu cartão de crédito, então estou com o que preciso, eu penso.

Ando até a esquina da Gregório com a Eliza. Quero me afastar dali o mais rápido possível. Antes mesmo que complete o pensamento de aonde ir, vejo um táxi subindo a rua e de onde estou faço sinal para ele parar.

Ele pára, mas do outro lado da rua, rente ao posto de gasolina onde tinha a sorveteria Misty.

Vou atravessar a rua o mais rápido que der, pois um táxi ali a essa hora é uma raridade.

Essa parte da rua sempre foi meio difícil de atravessar, lembro disso da vida acordada, vem carro dos dois lados e ainda tem uma transversal e no que estou ali me concentrando, preocupada em não perder o táxi, penso…

– Mas para onde eu vou?

Nisso atravessei a rua, estou no posto de gasolina. Ainda estou longe do táxi, vejo o motorista me olhando de dentro do carro, meio impaciente e parecendo meio em dúvida se eu estaria ou não indo na direção do táxi dele.

– Vou para o apartamento da Padre, penso primeiro. Não, não posso. O apartamento da Padre está alugado! Meu Deus, não tenho para onde ir. Vou pedir para o táxi me levar onde? Para um hotel? Nem sei que hotel. O que fazer? Vou passar a noite na rua?

Nisso, meio atormentada por essa falta de solução, exatamente como em um sonho recente, eu me delongo um pouco ali no posto de gasolina e ali surgiu, enfiado numa depressão no meio do posto, um cortiço de pequenos quartos xexelentos.

É muito estranha essa atração que eu noto em mim, por quartos de cortiço xexelentos, e por um instante, um único instante, tendo a decidir procurar abrigo ali. Mas…

Algo em mim reage.

–Não, chega de quartos de cortiço xexelentos. Vou tomar o táxi e aí decido onde passar a noite. Nem que eu fique rodando a noite inteira.

Mas nisso o táxi, me vendo ali embatucada olhando para lá e para cá, foi embora.

E nesse monmento, antes mesmo que isso se configure como um problema, e na verdade eu nem tenho, agora escrevendo super certeza se o táxi chega a ir embora.

Lembro que isso me ocorre como possibilidade mas nisso outra coisa toma frente na minha mente.

– Mas péra! Eu tenho sim para onde ir. Minha kit na Praça Roosevelt está fechada há mêses, mas toda arrumadinha, inclusive com uma cama ótima e já toda preparada com cobertas. E eu estou com a chave.

No momento em que penso isso, já sinto com a mão dentro da minúscula bolsa, a chave que me daria acesso a esse pequeno paraíso, a minha kit.

– Eu tenho para onde ir, penso novamente. Vou para minha kitchnet na Praça Roosevelt, a qual deixei super hiper arrumadinha. Tenho a chave comigo.

E isso me dá uma sensação tão, mas tão boa, que assim que acordei limpei com muito amor e carinho essa kit na qual vivo atualmente, e que o sonho, dessa maneira tão meiga e doce, valida como sendo meu lar.




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