{25 de agosto de 2020}
Havia claramente uma bruxa. A intenção dela era fazer os outros se sentirem mal. Ela gostava de pegar no ponto que fosse mais importante para a pessoa. Por exemplo, havia uma fila de varais, e eu, que estava recolhendo roupa, quis ir até o último, porque lá havia um espelho, e eu queria dar uma olhada em mim. Só que quando estou me aproximando desse varal, que ficava dentro de uma espécie de coberturinha de concreto, sinto uma coisa sinistra, e quando estou me tocando que a bruxa está lá, de fato, ela levanta uns lençóis, e meio que me imitando, coloca a perna esticada para a frente, como se estivesse fazendo balé, num ato quase sensual, mas fazendo questão de mostrar sua cara envelhecida e feia de bruxa, como se quisesse dizer que é muito tarde para eu tentar resgatar minha sensualidade, estou velha e feia, e seria ridículo.
Eu me assusto e me afasto, mas de certa forma é um alívio ver que esse pensamento é obra da bruxa, e não uma verdade em si.
Daí vem o pedaço mais marcante. Temos que ir na casa da bruxa pegar algo, e depois ir embora. Esse algo é mais ou menos importante, tanto que eu, que lidero o grupo, acho que o risco vale a pena. É um grupo de umas cinco pessoas bem variadas, tem umas garotas, um cara altão que parece o Raul do Movix. Seguimos a bruxa até o apartamento dela e entramos escondido, só que quando percebemos, ela trancou a porta. Aquilo me dá um calafrio: estamos presos ali. Uma casa de bruxa é uma armadilha, e com a porta fechada, as coisas malucas iam começar a acontecer e a gente não iria mais conseguir sair dali. A bruxa não sabe que estamos ali, nós nos escondemos. Ela vai para dentro do apartamento, e eu aproveito para tentar ver qual é a porta de saída. As portas são todas de madeira branca, meio desgastada, antigas, com almofadas de madeira, e uma fuligem preta nos bordos. São todas iguais. Ali no hall que parece ser de entrada mas talvez não seja, abro uma porta, é um armário. Abro outra, também não é a saída.
Penso: então é isso, as portas se transformam, e não vamos encontrar a saída.
Mas estou fria e controlada. Detrás de uma porta, observamos a bruxa preparar algo na cozinha, e esse pedaço parece muito com a visão da casa da minha avó, que tinha um quarto de despensa que dava para a cozinha. Ela sai da cozinha por outra porta, como se, sendo a casa da minha avó, ela saísse para a sala.
Estou relutando em descrever a bruxa porque tenho medo que seja uma visão bruxal de mim mesma. È uma mulher de quase 60, gorda (ontem no metrô me achei gorda) com um rosto ligeiramente indígena, ou boliviano (me acho assim às vezes) totalmente feia, sem um traço de beleza. E uma expressão de maldade. Está de penhoar. Ela vai para o cômodo ao lado e nós nos escondemos para que não nos veja. Então, fazendo a passagem ali pelo quarto de despesa, vamos explorar aquele canto do ap. porque quero ver se não existe uma porta dos fundos. Quando estou saindo, noto, no armário à direita, igual ao armário que havia na minha avó, uma figura talvez humana se agitar numa fresta de armário que lhe servia de quarto. Essa figura era uma serviçal da bruxa, que estava meio prisioneira ali. Fico interessada, parecia uma coisa de Alice no país das Maravilhas. A figura parece ter sido tão intimidada pela bruxa que encolheu e ficou da finura de um papel, porisso pode morar numa fresta de armário de vassouras, se não me engano. Mas não tenho tempo para perder com isso. Vou inspecionar as portas, e para minha surpresa, encontro uma destrancada, que abre para o pequeno hall onde há dois elevadores. Chamo meu grupo e começo a organizar a retirada, e então começo a perceber o poder maléfico da bruxa e sua casa. Meu grupo está sendo tragado pela casa. Não conseguem sair. Começam a trazer lá de dentro coisas absurdas, trambolhos inúteis, que estão convencidos de que precisam levar com eles. Um deles traz um porta cartões, desses de papelaria, cheia dos cartões mais sem graça, de uma cor só. O troço é pesado, inútil, deve ter dado um trabalhão para carregar e é impossível entrar com aquilo no elevador, mas vejo que o cara no meu grupo, no caso o altão, tem um olhar vidrado, meio desfocado, e está totalmente convencido de que é necessário levar aquilo com ele. No começo tento argumentar, afinal de contas, havia uma intenção inicial de entrar na casada bruxa justamente para resgatar algo de certa importância, mas o que percebo, num instante de enorme lucidez, é que aquilo se tornou um risco, e que a prioridade é arrancar as pessoas dali o mais depressa possível, e esquecer o resto, porque esse é o poder da bruxa: através da casa, ela dominava a mente das pessoas, que ficavam embotadas, incapaz de raciocinar direito, e acreditando nas coisas mais absurdas, mas acreditando como zumbis, sem pensar. Elas ficavam meio hesitantes de sair da casa, e começavam a se afundar cada vez mais nela, achando que tinha que resgatar sei lá o que, que não tinha nada a ver. Aquilo que viemos de início resgatar era mais ou menos sensato, mas as pessoas do meu grupo estavam trazendo cabideiros, aquele porta cartões absurdo, e as mais afetadas nem sequer estavam conseguindo deixar a casa e vir até o hall dos elevadores. Mesmo fisicamente, era como se houvesse uma estranha força de sucção, que ia prendendo o corpo naquela casa, como um ralo gigante, para onde toda a energia escoasse e deixasse as pessoas um nada, porque a gente ia virando um nada por dentro, um zumbi mesmo. Falo com o altão, e ele mal me olha, parece que está acompanhando o que digo, mas quando a porta do elevador abre, um elevador meio antigo, o hall parece do prédio da Pat, que acho charmoso até, ele tenta entrar com o porta cartão, que é quase do tamanho dele, ali dentro, o que faz com que as pessoas percam a paciência e desçam sem ele.
Num lampejo, percebo que tenho que tomar o controle da situação e não há um minuto a perder, porque cada instante que passa, aquele efeito zumbítico da casa se torna mais irreversível. Tenho que entrar na casa e resgatar, o mesmo termo de novo, as pessoas. Isso vai me afetar também, mas ali sou a mais forte, ainda tenho controle sobre meus atos, mas mesmo isso não garanto até quando. Entro na casa e sem conversa simplesmente agarro os braços de quem encontro e arrasto para fora da casa, e depois empurro para dentro dos elevadores, que vou mandando para o térreo. Lá, sem as influências maléficas da casa, vão voltar ao normal. Por último, eu mesma me enfio no elevador e vou. Estou tendo que me obrigar, como obriguei os outros, já sinto em mim uma tendência de ficar ali, de achar que tenho que ficar ali. Existe isso, da pessoa achar que “tem que ficar lá”.
Quando estou na rua, me meti numa van a caminho do aeroporto. Aí começo a sentir que volto ao normal. Me separei do grupo, mas até isso deixou de ser importante, manter o grupo unido. O importante é que sobrevivessem.
IMAGE CREDITS GIANPAOLO SGURA | AMANDA WELLSH | INTERVIEW MAGAZINE GERMANY OCTOBER 2014