ELE ME DEU A FITA ERRADA

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{1 de agosto de 2026}

Acho melhor nem perder energia achando que tenho condições de interpretar.

Num corredor do IG, que sempre me pareceu um dos lugares mais sem vida que conheci, estou agachada precariamente em frente a um rack muito bagunçado, tentando localizar uma fita K-7.

Precariamente é a palavra.

Estou no limite do equilíbrio em todos os níveis: fisicamente, ali tendo que segurar bolsa e casaco no vão do corpo e procurar a tal fita K-7, no limite do equilíbrio mental, com minha cabeça exausta e meio turva, no fundo contando com o puro acaso para conseguir encontrá-la. No limite das minhas forças e capacidades.

Uma figura masculina que parece um dos habitantes do IG, um homem magro, de ar meio aloucado, mas até que simpático, muito familiar, desses homens com mais de 50 que tem ar de garoto, com uma malha de gola roulê acho que vermelha, então se dispõe a me ajudar, acho que talvez eu diga para ele o que estava buscando, talvez sim. Ele me entrega o que a princípio seria a fita cassete que eu buscava.

Essa parte então é encerrada com essa intervenção aparentemente decisiva dessa figura masculina.

Aqui confunde um pouco, pois quando eu entro no banheiro peep show, já sei que a fita cassete que o homem havia me dado não era a certa.

De alguma forma, depois que o homem se vai e eu já me afastei do rack achando por um breve momento que tenho tudo resolvido, olho, e acho que pela capinha da fita, percebo que o homem, acho que sem nenhuma má intenção, havia me entregue uma fita que não era a fita que eu estava procurando.

De novo é acionado esse meu modo de funcionamento “tá vendo, no fim sou eu que tenho que resolver tudo mesmo e essa ajuda só me fez perder tempo”.

– Não é a fita certa, eu penso, ele me deu a fita errada.

E novamente, é importante isso de que o homem não havia feito por mal. Na minha cabeça, havia feito por incompetência.

Então procuro um lugar onde possa me reorganizar para voltar a fazer o que acredito que seja meu destino: resolver tudo sozinha.

Tomada por essa autoridade de saber que pelo menos competente eu sou, me enfio no primeiro lugar onde poderia sentar e rearranjar minhas coisas e idéias, e esse lugar é o banheiro ali do IG, cuja porta está perto, e na hora que entro, percebo que esse banheiro na verdade estava funcionando como uma mistura de puteiro com peep show.

As prostitutas atendiam os clientes ali dentro dos reservados e outros clientes tinham a opção de ficar no reservado ao lado, de pé sobre o vaso, espiando a coisa por sobre as divisórias laterais dos reservados, que não chegavam no teto.

Entro tomando consciência disso tudo super em segundo plano, pois estou tomada de uma sensação de que o meu assunto é superior a qualquer outro e é irrelevante que tipo de lugar seja que me serve naquele momento. Não que eu esteja com repulsa ao estabeleimento, não seria isso, mas sei que estou fazendo dele um uso que não é o apropriado, mas me dou esse direito.

Vou direto ao último reservado pois vejo um casal saindo de lá e isso me mostra que estará vazio. Na minha cabeça não perder tempo é uma prioridade, não fica claro o motivo. Na verdade toda essa necessidade de me sentar em algum lugar e olhar novamente a fita não tem um motivo claro, pois eu já havia verificado de sobra que não era a fita certa, mas por alguma razão, quero olhar novamente antes de decidir o que fazer.

Então entro no reservado, sento sobre o vaso fechado e coloco minhas coisas no colo.

Do meu lado direito noto a cabecinha de algum cliente da casa, que havia pagado para espiar o ato de algum casal.

Por puro instinto de auxiliar, e não deixar o cara pagando por algo que não seria o que ele comprou, digo:

– Olha, não vai rolar nada aqui, vou só arrumar minhas coisas.

O homem, cuja cabeça fica à mostra apenas até a altura dos olhos, diz qualquer coisa que deixa claro que ele não entendeu o que eu disse.

– Coitado, que fique olhando, penso comigo. Vai ter a maior decepção.

Ignorando então esse voyer, começo a revisar o que eu já sabia, que não era essa a fita certa, e repito em pensamento várias vezes essa frase que parece ter um sentido além do literal:

– Ele me deu a fita errada.

E no que esgoto essa necessidade de ficar repetindo isso para mim mesma e estou até levantando do vaso para ir em direção ao próximo passo da minha busca, eis que.

Quando estava sentada ali, com o canto da vista reparo que à minha esquerda tem um vitrô muito parecido com o da minha cozinha, e assim como o da minha cozinha, no momento atual em que escrevo isso, está meio sujo. Não porquê eu não o limpe, mas porquê tenho usado vinagre de limpeza para limpar e não resolve muito. Até comprei vidrex. Hoje é o dia em que estou fechando o edital. Já preenchi todo o orçamento. Me dá nervoso mentir tanto ou talvez… eu tenha medo de me comprometer com algo assim?

Quando acordei tive certeza de que o sonho queria dizer que eu estou errada, muito errada.

Foi uma noite de 3 xixis. Mas até que ok.

Mas vinha sentindo falta de senso de humor nos meus sonhos, que andavam muito soturnos, e esse sonho traz isso, pois no que estou me levantando e prestes a sair do reservado, adentra quem? A Cris, a primeira namorada do João, uma menina gordinha, não bonita, vestida de praça da República e, ao que eu saiba, má, pois enganou o João.

No sonho, ela entra como ela era, bem mais bem arrumada, de vestido e salto, com aquele cabelo encaracolado preto dela e com o seu cliente, pois ela era uma das profissionais do sexo da casa.

– Ela virou prostituta, eu penso.

E acho que importa o fato de que, no sonho, eu acho que isso era meio que a decoirrência natural da vida dela. Que ela era meio largada, fumava muito, meio promíscua, então era meio que inevitável acabar virando prostituta.

Não é um pensamento compassivo.

Ela entra na verdade muito à vontade, e comparativamente, está até melhor do que era na vida acordada, na qual usava umas roupas horríveis, uns pulöveres peruanos, e tinha ar pouco limpo.

E nisso penso o óbvio:

– Meu deus, ela vai me ver aqui e achar que virei prostituta também. Que droga, um minuto antes e eu há teria saído do reservado, mas agora estou encurralada.

Engatilho rapidamente a minha história na cabeça, de que estava procurando uma fita K-7 no corredor do IG, que me deram a fita errada, que havia entrado ali para me recompor e ajeitar minhas coisas, etc.

Nesse instante ela entrou e está naquela fração de segundo entre me ver e me reconhecer.

Eu até penso comigo que se eu começar a justificar ansiosamente minha presença ali, ainda mais com aquela história bizarra da fita errada, só iria deixar a coisa ainda mais comprometedora e suspeitas, mas não sou capaz de me conter. Depois de dizer oi para ela, que no sonho seria alguém que eu não encontrava há mais de 30 anos, como na vida acordada, despejo a história do homem que me deu a fita errada.

Estou preparada para que ela me olhe com descrédito e certeza de que eu havia, como ela, me tornado prostituta, mas aqui, nesse ponto, ocorre o que me parece ser o ponto todo do sonho: ela se mostra extrema e genuinamente solidária e simpática.

Para minha surpresa, parece acreditar na minha história, não parece estar apenas sendo gentil, parece sincera, sou boa em identificar falsidade. eu perceberia, e para minha maior surpresa ainda, começa a comentar sobre o homem que havia me dado a fita errada com muita animação, dizendo algo assim:

–Ah, sim, eu conheço ele, então ele te deu a fita errada? É bem dele mesmo, fazer esse tipo de confusão, porquê…

E segue comentando coisas sobre o homem que eu, no limiar do sonho, ainda absorvendo essa grata surpresa, pois estava morrendo de vergonha de ser tomada por puta, penso comigo que talvez, talvez até ela tivesse alguma informação sobre o homem que me deu a fita errada, que pudesse até mesmo me ajudar de verdade.

IMAGE CREDITS GLEN LUCHFORD | HEIDI MOUNT | VOGUE CHINA SEPTEMBER 2008











ELE ME DEU A FITA ERRADA

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