CORRA PARA ELE

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Eu corria, mas sozinha, e logo me vejo adentrando uma espécie de galerias que são somente rampas que se cruzam, lembra um pouco a estrutura daquele museu lá no Ibirapuera, esqueci o nome, mas só agora escrevendo é que me ocorre que nesse museu começou meu único namoro na vida, com o André Negrão, eu convidei ele para ir numa exposição nesse museu e nosso namoro começou. 

No sonho, não posso garantir que seja esse lugar, mas lembra muito mesmo, entro nele por uma portinha proporcionalmente pequena para a vastidão do espaço interior, que, de uma maneira bem sinistra, está totalmente, totalmente desabitado de tudo. Não há nada ali dentro, nem coisas, nem pessoas, apenas vastos espaços vazios meio na penumbra.

Não me dá medo, mas é bem perturbador me imaginar correndo ali dentro, em direção a o qué?

Então desço um pouco a rampa onde estou, já meio me enfiando ali dentro sem pensar e me detenho e de uma maneira pouco clara, me questiono sobre o que estou fazendo e o que me espera se continuasse correndo ali, me metendo às cegas naqueles espaços vazios desconhecidos. Não sei o que fazer, estou confusa, correr era minha única maneira de vida, é como se parasse de fazer isso, simplesmente não soubesse o que fazer, e então olho para trás e vejo, numa rampa acima da minha, e atrás de mim, porque as rampas daquele museu se sobrepõem, são como uma escada em espiral, só que oval e sem degraus. e acima de mim vejo uma solitária figura humana: uma mulher, de uns 50 anos, mas senhorial, lembrando um pouco o tipo físico da minha avó, talvez quando ela tinha essa idade, porque os cabelos são escuros e curtos. Essa mulher lembra um pouco a dona da fazenda no sonho " A fortuna da dona da papelaria". Lembra demais, é praticamente ela. Essa mulher não parece se incomodar com aqueles sinistros espaços vazios. Debruçada no parapeito da rampa, ela fuma, sem olhar exatamente para mim, ela olha para a distância na frente dela.

Eu digo para ela:

– Eu fiz muito, não fiz.?

Ela não chega a ser propriamente uma figura simpática, mas me olha , dentro dos seus limites, com certa benevolência e me responde:

– Você fez bem mais que a maioria.

Seu comentário parece antes conter um desprezo pelos mixos esforços dessa tal maioria do que ser um elogio a mim.

E lamento muito não ter escrito esse sonho logo que sonhei porque agora não lembro mais se é ela que chega a me dizer: Corra para ele, ou se sou eu que de repente tenho essa noção clara de que devo correr para Ele. Porque me viro e saio correndo do tal lugar, em direção ao exterior e vou correndo pela rampa de saída, que é fora do prédio, cercada de vegetação, onde se ajuntam pessoas e corro, corro, com tanta força e velocidade, é uma sensação boa, de força, vitalidade, as pessoas me aplaudem, como se eu estivesse vencendo a corrida, mas não estou mais numa corrida, estou correndo para ele.

{4 de agosto de 2012}

IMAGE CREDITS MARIO TESTINO | KARLIE KLOSS | AMERICAN VOGUE 2012

CORRA PARA ELE

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