AS CUNHAS RETIRADAS

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{10 de junho de 2026}

A intensidade da emoção, o quanto eu me sentia viva e presente durante o sonho, muito mais isso do que o storyline, que foi meio batido e pouco interessante, pelo menos a primeira vista.

Inicia que eu habito essa casa grande mas não luxuosa, tem algo sobre essa casa…

Não algo ruim. Péra. Pois bem. Esse sonho não foi tão batido nem tão pouco interessante quanto pareceu num primeiro momento.

Eu habito essa casa, que me passa algo… nem sei que palavra seria a correta, ancestral.

E… eu durmo na mesma cama de casal enorme, na qual dorme o casal dono da casa que não seria exatamente meus pais.

Esse casal seria o dono dessa casa e por eu morar ali e dormir na mesma cama que eles, entre nós havia se formado um vínculo quase que familiar.

O homem é jovem, relativamente, entre 40 e 50 anos, aloirado, com ar de estrangeiro, aliás, lembrei bem de um ator americano muito parecido, agora não me vem. Um loiro que tem um rosto forte e interessante, sem ser galã nem ser esquisito.

A mulher parece ser um pouco mais velha, a única coisa que registrei dela é um cabelo desses afofados anos 50 com laquê, e um ar meio “senhora da mansão”, meio duro, meio antipático, mas logo no começo, é manhã, nós estamos acordando e ela sai do quarto abruptamente.

Fica o homem ali de pé e ele, como costuma ser os maridos desse tipo de mulher que tem esse ar meio arrogante, é super de boas e simpático,

Então ele me comunica os planos do casal para o dia.

Eles iriam numa pequena viagem até não sei que destino meio que ali perto, um passeio mesmo, e voltariam mais tarde da noite. Eu passaria o dia sem eles na casa, que tinha mais gente, não seria ficar totalmente sozinha ali.

Estou num estado que gostaria de ser capaz de descrever à altura.

Estou triste sem solução. Dentro de mim não tem uma única possibilidade de qualquer outra coisa que não seja pura tristeza. Fora de mim eu não teria absolutamente nada, nada que me desse um pingo de prazer, de motivo para estar viva. Eu não tenho nada, e essa sensação de “não ter nada” já é em si um sonho recorrente. Eu não tenho nada. Mesmo morando naquela casa que me passa uma sensação até que boa, de ancestralidade, de segurança, de riqueza até, mesmo sendo bem tratada, a minha relação com esse casal, mesmo eu dormindo na mesma cama que eles, nada tem de abuso, sou tratada como filha, mesmo pela mulher arrogante. 

Mas ali, sorrindo e interagindo normalmente com esse homem, de pé na minha frente com calça de sarja e camisa xadrez, o que eu sinto é que sem a presença deles ali na casa, serei mais confrontada ainda com essa sensação tão definitiva de que não tenho nada na vida.

O homem nesse momento está comentando comigo que esse passeio que irá fazer com a esposa havia sido escolhido por ela e “não tinha comida gostosa”.

– Gostaria de estar indo num lugar que tivesse comida gostosa, é só disso que sinto falta, me diz ele sorrindo e levantando os braços para cima.

Naquela posição, fica bem evidente a cintura dele, que mesmo com um pequeno avanço frontal, é bem delgada, ainda mais para um homem maduro.

– Bom, digo, também sorrindo, e exteriormente parecendo relaxada e contente, vai ver é porisso que você continua magro, por não ter essa tal comida gostosa.

Com isso nos separamos. Lembro que pergunto sobre a hora que eles irão volar e esse tempo, esse tempo sozinha ali na casa me abria possibilidade de alguma coisa que não saberia dizer o que seria,

Fico ali deitada meio afogada nessa sensação interior de desalento e falta de motivo para viver, quando entra outra personagem muito forte e viva.

Seria uma garota que parece uma versão minha, sem forçação de barra.

É jovem, com uns 30 anos no máximo, com cabelo escuro todo puxado para trás num rabo de cavalo, como eu mesma usei muito até cortar tudo com 17 anos.

É a empregada da casa e veio arrumar a cama.

Entre já numa atitude não antipática como a da mulher dona da casa, mas eficiente, do tipo: tenho tarefas a cumprir, não me atrapalhe.

Eu me levanto da cama, ela mais que depressa já começa a operação até meio complicada de arrumar aquela cama King Size e eu, não sei porquê motivo, começo a ajudá-la/

– Você não precisa me ajudar, sou a empregada e sou paga para isso, não é sua função, ela me diz sem ser hostil.

O ponto é que eu… não posso dizer que eu queira ajudar ela, mas ajudar ela é uma forma de adiar o momento em que eu ficaria à toa ali na casa, confrontada com isso de que nada tenho na minha vida. Me vejo, pois nada disso é planejado, respondendo assim:

– Ah, não sei… ainda não acordei direito, não consigo pensar direito… meio que te ajudar me ajuda.

Então vou catando coisas e colocando em ordem e de certa forma, fazer isso dá um certo sentido para a minha própria vida, estou ajudando alguém ali que tinha pesadas tarefas na casa.

E nisso a moça pegou algo que tentarei descrever direito.

Ela pega o que seria uma casa em miniatura, mas uma casa com vários andares, como se fosse um pequeno prédio, e talvez fosse um prédio, feita de papelão, do tamanho assim de uma caixa de sabão OMO de máquina de lavar.

Na parte da frente, essa casa em miniatura teria a fachada, e na parte de trás, os cômodos, fossem eles de uma mesma casa ou de um prédio, eram vazados e não era uma coisa de papelão, era algo 3D como se fosse uma animação em 3D dessas feitas agora com AI, mas materializada.

Eu vejo o interior mobiliado dos cômodos, algo bem realista, não uma casa em miniatura, algo como eu disse, como se pegassem um AI e materializassem de alguma forma, e aquilo brilha levemente com uma luz dourada, que seria a própria luz dos ambiente da casa, e segurando isso na minha frente, a garota me diz de um jeito muito bom:

– Olha, você pode usar os ambientes para tirar fotos dos produtos da sua loja.

Eu fico olhando para aquilo e num primeiro momento me parece mesmo boa idéia, mas num segundo, cai a ficha de que não tem como fazer isso. Como assim, a casa tem ambientes em miniatura, como vou poder usar aquilo como cenário para produtos em tamanho real?

Isso encerra esse segmento. Eu acordei, acho, dormi de novo e o sonho retomou.

Como eu disse, a casa tinha mais habitantes que o casal, e estou então numa sala com ar de galpão, ou de loft, bem grande, que fazia parte da casa e estou internamente numa continuação da cena anterior, eu não tenho nada, eu não tenho nada.

Existe uma outra cama nessa sala, de solteiro, e essa seria minha segunda cama, na qual eu dormia também esporadicamente e eu tinha um namorado.

Esse namorado também é um homem com cara de americano, aloirado, aliás ele parece bastante o Christopher Atkins, o ator do Lagoa Azul, mas com uns 30 e poucos anos. Talvez parecesse também o Mauro, namorado da Renatinha.

Esse meu namorado estava a uns 10 metros de distância, numa parte da sala que tinha uma divisória não alta de madeira, como se fosse uma baia de cavalo maior, e ele estava ali lidando com as coisas dele e é bizarro perceber que eu, que tinha esse namorado bonito e que gostava de mim, mesmo assim estava dominada por essa sensação avassaladora de “não ter nada”, e por causa disso é que ele tinha ido fazer as coisas dele ali na baia, estava magoado comigo, e eu estou meio que deitada na cama sem conseguir fazer absolutamente nada, de tão mal que me sinto. 

E nisso eu começo a retirar da minha boca o que poderia ser descrito como cunhas de madeira. Eram pedaços iguais de madeira de uns dois centímetros de largura por 5 de comprimento, com bordas lixadas em arredondamentos, não erma lascas de madeira, era algo que tinha formato igual em todas, com essas bordas em formato de meia lua. Tem uma coloração meio marrom médio.

Pensando na minha tristeza e no quanto ela me parece irremediável, vou até bem distraidamente, retirando as cunhas da minha boca e colocando num anteparo a minha frente.

As cunhas estavam na minha boca como espinhos de peixe que a gente percebe e tira fora da boca. Eu não havia engolido aquilo.

Mas, ao olhar a quantidade de cunhas que vou juntando na minha frente, o que penso, que não tem como ser entendido na vida acordada, é:

– Mas essas cunhas estavam no chão da quadra de tênis, antes de irem parar na boca da mulher, tem que pensar nisso, estavam no chão, o lugar mais emporcalhado que pode haver.

Pois havia uma mulher, cuja figura eu via em pensamento, que lembrava até uma das Panteras, a Jaclyn Smith, que tinha um lindo cabelo marrom, e que eu achava a mais bonita delas, e ela jogava tênis e essas cunhas tinham entrado na boca dela e por paralelo, vindo parar na minha.

Agora eu as retirava.

No que retiro as cunhas todas, isso me dá um tantinho de ânimo para pelo menos ir falar com meu namorado, que estava magoado pois eu o vinha deixando de lado por causa da minha depressão.

Vou até essa espécie de baia em que ele está de pé, fazendo sei lá o quê, e não tem cama ali, e eu coloco enfileirado sobre a espessura dessa parede de baia, que tem altura de meio corpo, as cunhas, acho que tem umas 15 ou 10, e digo até mesmo fazendo graça:

– Quanto tempo de vida você diria que eu tenho?

Querendo dizer que cada uma daquelas cunhas representava um período de tempo a menos na minha vida, pois eram altamente daninhas para o organismo.

Mas o ponto é que apesar dos meus sentimentos pesados e negros, não acho em nada que estou prestes a morrer e até me arrependo um pouco dessa brincadeira, que só teve o intuito de, mesmo que de forma desajeitada, mostrar para meu namorado como eu me sentia e que isso é que seria a causa do meu afastamento, não falta de afeição por ele.

Aqui não chega a ter uma resposta dele e eu volto a ir na direção da minha cama, pensando novamente no quanto me parecia que minha tristeza era irremediável e sem solução, e nisso começa a coisa da praia, que seria outra dinâmica impossível de entender pela lógica da mente acordada.

Estávamos indo embora. Eu iria com meu namorado. Eu queria, então, passar o último dia na praia, o lugar que mais amava na vida. Enquanto penso e planejo isso, tenho nas mãos um montinho de lixas de unha, e estou, com os dentes, arrancando a bordinha de cada lixa e engolindo. Acho bem a ver o fato de que as lixas eram uma versão atenuada das cunhas, Algo áspero, com a borda arredondada, que eu colocava na boca e aqui no caso, engolia. Num primeiro momento ou num segundo, não sei direito a ordem, as lixas são azuis.

Acho que o que ocorre primeiro, é que me cai a ficha de que não tenho obrigação nenhuma de fazer aquilo de retirar a ponta das lixas, muito menos de engoli-las.

– Não preciso fazer isso, eu penso.

E paro com aquilo. Acho que nesse momento é que as lixas passam a ser azuis.

Ou não, porquê lembro que na cena final do sonho, vejo distintamente as lixas amarelas, como costumam ser, na minha mão.

Mas enquanto ainda caminho na direção da minha cama, planejando essa última ida à praia, penso comigo que levarei as lixas e ficarei lixando as unhas na praia. 

– Ficarei conhecida como a mulher que fica lixando as unhas na praia, penso comigo.

Porquê eu nem considerava a opção de não lixar as unhas, parece ficar no mesmo nível de eu perceber que não precisava engolir as lixas. 

Então, ainda afundada em tristeza, da qual a praia seria um breve atenuante, tendo as lixas na minha mão, amareladas, com cor de lixa mesmo, eu me agacho em frente a um desses armários abertos, que são somente umas prateleiras, sempre, sempre pensando na minha tristeza, tenho, ali agachada, uma espécie de momento de.. não sei como definir. Um daqueles momentos em que a intensidade da emoção rompe uma certa casca e emerge com muita pureza e verdade e muito sentimento mesmo. Pois eu, ainda com as lixas na mão, sentindo que elas representavam algo para mim mesmo que não soubesse o quê, penso em voltar ali para meu namorado e dizer:

– Eu tenho sentimentos ruins que não entendo, e que me causam muita angústia.

Essa frase em si não continha nenhuma grande revelação, mas isso que eu senti emergir em mim, como uma supuração de emoção mesmo, era inédita e eu sentia sua força, e sentia que se dissesse isso a ele naquele momento, conseguiria transmitir o que em parte tinha tentando transmitir com o comentário sobre a quantidade de cunhas dentro de mim.

E é o que pretendo fazer quando se passa o seguinte. 

Vindo da minha direita, se aproxima uma criança, praticamente um bebê, dessa idade que anda mas ainda não fala.

Ele não estaria andando na minha direção, mas caminhando em linha reta passando por trás de mim, mas eu, ao ver aquele serzinho carregado de vida e luz, impulsivamente o abraço.

– Ele não é meu parente, eu não deveria estar abraçando crianças estranhas apenas para aliviar minha tristeza e talvez pegar um pouco da alegria delas, eé que penso.

Abracei o menino sem apertá-lo, quase como que apenas o rodeando com meus braços, mas mesmo disso me sinto culpada. Foi mais por desespero do que outra coisa.

Mas para minha surpresa, o menino, que tem um rosto meio mestiço, uma cabecinha alongada com cabelo pixaim no alto, e grandes olhos escuros e vibrantes, me olha com o mesmo sorriso de antes e não parece perturbado com meu abraço, o que me alivia muito.

Ele está de short e uma camiseta sem manga amarela mostarda. Não uma regata, esse modelo “mamãe eu sou forte”. O Vicente usava uma camiseta sem manda, mas branca. 

 

 

 

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