AMIGA

12
4min de leitura

{2 de março de 2026}

Esse o tema, pensando bem. E como sempre, conseguindo não ecoar nada da vida acordada, a não ser pela imagem final. Aqui na kit, e sendo a kit a kit, mesmo, desenrola-se a seguinte situação. Eu tinha um namorado e ele se foi. Quando isso se deu, por coincidência a mãe dele estava aqui de visita e no que ele se foi, ela fica mais um pouco, até mesmo por ficar momentaneamente sem saber como reagir. Ela é uma moça por volta dos 35, meio mulata, bonita, legal e simpática e extremamente amigável comigo, e do tipo que não vê motivo para ficar de mal da namorada do filho do porque o namoro acabou. Na verdade não tem tom de ter acabado mal, simplesmente acabou. Mas então ela ainda está ali e me trata muito bem e tal, e eu naquele espírito hospitaleiro, afinal ela está na minha casa, a ajudo a providenciar o almoço, pois em parte seria o que já estávamos fazendo quando o namoro é encerrado. Ela estava escolhendo um hambúrguer no delivery e tem qualquer dificuldade prática em relação a isso e eu me ponho a procurar o folder que tinha das opções desse restaurante e não encontro, então vou no computador abrir o site da lanchonete para ela escolher, tudo isso entre papo amigável e risadas e tal e e com uns 5% da minha consciência eu estou pensando a seguinte coisa.

Que tudo estava tomando rumo da mãe do meu ex namorado acabar vindo dividir a kit comigo, morar aqui. Ela iria esperar chegar seu lanche, almoçar, depois não ia sair correndo, isso é falta de educação, iria ficar tarde, seria educado da minha parte convidá-la para pernoitar e com isso estava se instalando que ela passaria a viver ali. Tem um ponto aqui que não estou conseguindo explicar certo, pois na verdade, seria como se, por algum motivo surreal de sonho, essa situação já estivesse instalada e quanto mais eu não fizesse nada no sentido contrário, mais consolidada ela ficaria. E o mais simbólico era que a companhia da mãe do meu ex, que em momento nenhum ganha nome, é o mais próximo de uma amiga que eu possa conceber. Ela é legal, gosta de mim, me trata bem e eu gosto dela. Apenas, eu penso, apenas não quero dividir minha kit, minha vida e minha energia com ela, pois já estou eu ali lidando com essa questão do hambúrguer, como sempre me pondo a resolver problemas dos outros, pois quase encaro como obrigação, já que é mais fácil para mim, há mais de uma hora e inclusive tem uma hora vou no banheiro e quando volto, resolvo trabalhar um pouco, aproveitar uma brecha ali mas quando vou ver ali na mesa improvisada que tinha feito pra eu trabalhar, que ficava onde fica minha cama, sendo que toda essa área aqui da minha mesa e armário do espelho estava substituída por essa prancha de madeira compensada que parecia ser a base de uma cama queen, meu computador, que é um PC antigo, nem um bom computador eu tenho, mas quando me aproximo ali dessa bancada provisória perto do passaprato, meu PC não está lá. A mãe do meu ex pegou para ver seu lanche. 

É nesse momento que sou capaz de pensar de forma mais definida que a cada momento que passa no qual eu aceito a permanência da mãe do meu ex ali na minha kit, estou tornando mais difícil o que eu realmente desejo, que ela vá embora.

Aí teve mais lances mas esqueci.

Então eu sou da equipe do André Sturm ali do cinema, que não seria o Bellas exatamente e na parte externa do lobby, a parte que emenda co a calçada, há pregado na parede um cartaz tamanho A3 vertical, sobre um filme sobre Marylin Monroe e esse cartaz tem a interessante estrutura de ser feito com tiras horizontais de papel kraft tonado em cores que formam um degradê.

Eu tive uma idéia sobre um lugar mais legal onde colocar esse cartaz e vou lá e desgrudo ele da parede, querendo levar ele para dentro e colar onde pensei.

No que faço isso sem hesitação, vou pensando:

– Mas eu nem pedi para ninguém. Deveria ter pedido, o cinema não é meu.

Mas o André vai perceber que agi por puro interesse no bem do cinema e não vai achar ruim.

Mas o que também rola que me perturba um pouco é que as faixas de papel eram presas apenas nas laterais, quase uma escultura de papel mesmo, e quando eu desgrudo, elas se soltam das laterais e embaralha um pouco o degradê, e enquanto eu penso isso de que o André não vai achar ruim eu tomar essa liberdade, procuro refazer a ordem do degradê ma não estou muito conseguindo.

E tem algo que permeia toda essa situação. Assim como antes eu me via em função da mãe do meu ex namorado, aqui me sinto sim, sem gostar disso, em função do André, colocando minhas capacidades a serviço da vida dele.

No páteo aberto há o carro já pronto para partir. Eu abraço a minha amiga, que parece uma reedição da mãe do meu ex, e seria minha amiga mesmo. Digo:

– Tchau, amiga.

Ela entra no carro. Eu me viro então para a outra mulher presente que não posso afirmar com certeza, talvez fosse a mãe dela. Essa mulher não tinha relação pessoal comigo, mas eu vou até ela e a abraço com o mesmo afeto e digo:

– Amiga.

E essa mulher, quando me aparto vejo, é a Márcia inquilina da encrenca da infiltração.

IMAGE CREDITS NUMERO RUSSIA 51 | EMMIE AMERICA EDITORIAL

 

AMIGA

Comentar
Facebook
WhatsApp
LinkedIn
Twitter
Copiar URL