A PERUCA LOIRA

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8min de leitura

{25 de junho de 2026}

Na verdade até que retive bem os sonhos. Foram quatro momentos que não acho que compõem um todo mas se completam.

Nessa triste casa meio sombria, eu triste, triste, triste, essa tristeza recorrente e rolam coisas e a Lú está saindo pela porta da frente e eu pergunto:

– Posso ir junto?

– Não, ela responde.

E com isso se vai toda a possibilidade de alguma alegria na minha existência e eu me sinto, e essa sensação também está se tornando em si um elemento recorrente, prostrada, sem energia ou ânimo para nada, como no sonho onde eu pensava que podia ir no Parque mas não achava energia para isso, não fisicamente, mas psiquicamente.

E então num outro lugar e outro momento, estou na lida quando me passam, começa daí a simbologia, me passam uma ligação.

Uma pessoa do sexo feminino me passa a ligação, dizendo que a pessoa do outro lado da linha quer falar comigo.

Eu atendo. Do outro lado da linha, uma voz incerta, jovem, doce, quase suplicante. Logo fica claro ser de uma funcionária de algum serviço. Muito confusamente, ela começa a me explicar algo que não toma forma.

Eu estou tomada por obrigações, tenho prazo, estou sobrecarregada, mas percebo que aquela garota foi incubida de vir me falar algo que ela não chegou bem a entender o que seria, é uma funcionária, precisa do emprego, e está receosa da minha reação. Então me tiro da linha de produção e começo a tentar ajudá-la a me explicar qual seria a questão. Por algo que ela consegue formular, e essa dificuldade não seria de dicção, seria de que ela claramente não entendeu porquê está me ligando, devem ter passado a ordem de qualquer jeito, explicado por cima, e ela fazia o que podia ali, mas algo que ela diz me faz começar a ter alguma idéia do que seria:

– Ah, é do depósito então?

Eu havia tido algum trato com um depósito, estava encerrado, mas se aquela funcionária havia sido designada para resolver pendências, talvez houvesse alguma, e aqui fica mais simbólico ainda, pois o que me passa pela cabeça, em paralelo com todas as minhas organizações mentais de modo a conseguir encaixar aquela demanda na minha já sobrecarregada pessoa, é que tinha quase certeza ser um engano da parte da firma de depósitos, algo que eu poderia contestar, mas me disponho a pagar ou fazer o que exigem, apenas para não causar problemas para a doce e meiga e inocente funcionária, pega no meio de tudo isso, que com certeza iria arcar com broncas caso eu começasse a divergir da coisa toda.

E então, numa sequência sim, tinha dito que eram quatro momentos independentes, mas esse é sequência, ainda falando no telefone com essa funcionária e ainda, ainda sem conseguir que ela transmitisse a coisa toda de modo a fazer sentido, eu desci para o salão da Gregório, na parte de fora, onde tinha a mesa de pingue pongue, e está a seguinte situação:

A mesa de pongue pongue está posta, com toalha e pratos, como se fosse mesa de jantar. Mas apenas as louças, não há comida.

Ao redor da mesa, uns 10 convidados que seriam os mesmos convidados do meu pai, que haviam passado a noite ali na Gregório por ocasião de um evento do meu pai, e que, antes de sair, desciam ali para o salão e se juntavam ao redor da mesa, claramente na expectativa de que houvesse um café da manhã.

– Agem como se aqui fosse um hotel, penso desgostosa, enquanto sustento a conversa no telefone.

Parece que numa ocasião anterior, meu pai havia sim fornecido um café da manhã.

Os convidados são professores da USP, que tem aquele tom meio arrogante.

Dizem coisas como:

– Ué, não tem café da manhã, então. Rá, rá.

Expressam uma leve desaprovação. Ninguém expressa gratidão por tudo que já tinham consumido até então. Só mostram decepção, mesmo que de uma forma super leve, meio tom de brincadeira, com a falta desse café da manhã. 

De pé, conversam entre si e já se colocam no movimento de ir embora.

Eu estou de pé, meio debruçada sobre a mesa, de branco, uma malha e um legging branco, e me esforço para parecer sensual para um dos convidados que havia atraido minha atenção.

Me acho meio tola e até um pouco patética por essa atitude, mas é o que estou fazendo.

E então a conversa no telefone se encerrou, eu estou afastada da mesa, diante de uma mesinha suporte que havia sido colocada ali junto da parede de vidro na parte perto da escada que vem do hall, mas na parte aberta do salão. Nessa mesa haviam sido colocadas as garrafas de uísque. São todas iguais. A maior parte está fechada, nem chegaram a ser abertas. 

– Se bobear, esse convidados fominhas ainda vão levar essas garrafas, achando que não tem nada de mais e elas estão aí para isso.

De certa forma fico perto protegendo as garrafas.

Aquele belo líquido dourado.

E no que os convidados vão passando atrás de mim, indo embora pela rampa da lateral da casa, eu me preparo para ajudar meu pai a colocar todas as garrafas de volta, e me chama a atenção uma delas que está aberta, ainda 80% cheia, e as garrafas não tem aquela parte fina, são como canos, e uma vez abertas, não tem mais como serem fechadas, então aquele uísque, penso comigo, será jogado fora e desperdiçado.

E meio chateada com tudo isso, minha atenção vai para a caprichada decoração que meu pai havia feito sobre a mesa de pingue pongue.

Assim como num outro sonho no qual o restaurante era decorado com isso, meu pai havia preso um cordão no teto, no sentido de comprimento da mesa, com lindas bandeirinhas de tecido, cada uma delas com uma estampa referente a cada um dos países dos convidados do evento. 

Guias, essa parte do sonho não é mistério nenhum para mim.

Estou produzindo o seriado com amor e capricho. Da vez anterior paguei almoço e até sangrei por isso, de tanto que me senti sugada. Dessa vez não haverá almoço. Mas mesmo assim me sinto muito mais dando, dando, dando, do que recebendo.

E como em um filme dos anos 60, Tecnicolor, com aqueles lindos enquadramentos que se fazia, muito mais que agora, acompanho o personagem principal. O personagem principal mora num desses predinhos europeus de 5 andares que não tem elevador. Nessa cena, pois é um filme vivo mesmo, ali na minha frente, entrou ele nesse predinho, cumprimentou as pessoas e se pôs a subir os lances de escada. São mais ou menos 5 andares e ele mora no último. Sei disso por causa das partes anteriores do filme, que eu estava assistindo.

Então, quando ele passa do quarto andar e sabe que dali para frente não cruzará com mais ninguém, pois só ele mora no último andar, ele, que está de mini saia, roupa sexy, tira a peruca loira que estava usando. Seria uma peruca loga, lisa, mas mais loira do que a que comprei para a Bia usar. Nesse momento, a câmera o enquadra de cima do lance de escadas, e ele, pois se trata de um homem com uma cara meio emborrachada, como o Terrence Stamp, tira a peruca e abre um compartimento secreto num dos degraus e esconde a peruca nele. Torna a fechar rapidamente o compartimento secreto e continua a subir a escada. Aquela peruca era seu grande segredo e mesmo sem sentido racional, pois se ele se disfarçava de mulher, deveria querer ter a peruca sempre a mão para sustentar o disfarce, e não o contrário, aquilo fazia sentido no sonho, pois ali era um lugar onde ninguém, ninguém encontraria sua preciosa peruca, e ela estaria a salvo. Assim como nos reels IA do insta sobre as pessoas se escondendo em bunkers, de fato, no que ele guarda a peruca, uma sombra começa a ser vista subindo o lance anterior de escada, uma sombra de alguém que queria descobrir essa peruca mas jamais conseguiria.

Entra então esse homem com cara de homem mesmo, travestido, no seu apartamento, no último andar do prédio.

E, depois de uma semana na qual sonhei várias vezes, teria que fazer um levantamento, mas sonhei recorrentemente com isso de “não ter casa”, chega o homem ali a sua casa, que é uma kit um pouco maior, com divisões, e a câmera a mostra meio de cima, vejo a pequena sala, parece ser de madeira, esse tipo de apartamento europeu, não importa o tamanho, são sempre charmosos, e o homem deixa alguma coisa sobre uma cômoda e segue para a cozinha.

E a cozinha dele é encantadora. Não é uma cozinha americana, mas tem meia parede, de madeira até meia altura, e da metade até o teto, são vidraças, vidraças que mostram o interior da cozinha para o interior da casa. Vejo a pia e os equipamentos num branco brilhante.

E naquele contexto não muito alegre do homem travestido, aquela cozinha irradia algo muito, muito bom, muito vida, muito feliz. 

Lembrei outros dois detalhes.

Depois que o homem oculta a peruca e sobe o último lance de escada até seu apartamento, penso…

–Nossa, mas como ele faz para levar as comprar até lá em cima sem elevador?

Mas tem pessoas para quem isso não é problema, eu mesma me respondo. Para mim seria impossível, estou sempre recebendo coisas e mais coisas, todas volumosas e pesadas.

E quando o homem entra no seu apartamento, tem alguém ali com ele.

Ele mora com alguém. Não está sozinho.

Vim escrever aqui porquê agora fazendo as coisas, eu “li” esse sonho, como se os símbolos fosse caracteres de uma língua estrangeira e fez uma sutil diferença para melhor.

Sei daonde veio esse símbolo do homem travestido.

Não é, como eu estava achando meio tristemente, um símbolo da minha falta de feminilidade e sim, tirados desses memes do insta de AI, com o Bolsonaro e o Trump e o Lula sempre travestidos, com mini saia e bolsinha. Líderes. É o que tenho praticado ser. Uma líder. Aí tinha aquele insta da moça que sempre está voltando da rua com uma roupitcha meio suspeita, Acho que isso inspirou também. Mas de qualquer forma, se sou líder, é a energia masculina que estou ativando. Que procuro feminilizar ao máximo, mas ainda assim, energia masculina. Guardo minha preciosa peruca loira, meu tesouro.

E volto para casa depois de mais um dia sendo líder.

Mas tenho amor na minha kit, e vida na minha cozinha. 

IMAGE CREDITS LUÍSA SONZA | ELLE BRASIL SETEMBRO 2021

 

 

 

 

A PERUCA LOIRA

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