{19 de dezembro de 2006}
Estou triste e sozinha andando pela cidade, e é de noite. Descubro que no meio da rua, à céu aberto, fizeram uma enorme bancada, como uma única interminável barraca de feira, e sobre ela, estão todas as espécies de sobremesa que se possa imaginar. As pessoas vão passando e se servindo, como num bufê. Não tem que pagar, é uma espécie de serviço comunitário. Fico surpresa por que imaginava que a aquela hora tudo estaria fechado, e nada de bom mais iria acontecer, mas eis que alguém se preocupou em oferecer alimento e alegria, se preocupou com as pessoas. Me sinto confortada, de certa forma, mas é um conforto remoto, nada supera a tristeza em que eu estou mergulhada e a sensação definitiva de quem jamais serei querida.
Entro na fila, e não sei se o Paulo está nesse momento comigo. Fico tentando decidir o que pegar. Pego um doce, mas fico olhando a pilha de morangos. Quero morangos, acho que a melhor coisa naquele momento seria comer morangos, mas, mesmo assim, quando passo pela pilha de morangos, hesito e não pego. O que causa a minha hesitação é duvidar de que, com aquela infinidade de escolha, como eu poderia ter certeza de que queria morangos mesmo? Como poderia, sem ter olhado nem metade das coisas, estar certa de que o que ia me fazer feliz são morangos? E mesmo que fossem morangos, será que seriam aqueles morangos frescos? Não seria melhor uma torta de morangos? Com todas aquelas sobremesas deliciosas, eu ia escolher uma coisa singela, como morangos? Fico duvidando de mim mesma.de que eu possa saber tão cedo com tanta certeza o que eu quero, e assim, não pego os morangos e sigo em frente. Nossa, agora que estou escrevendo, esse sonho me parece muito interessante.
Andamos até o fim da longa bancada, e eu ainda pensando nos morangos. O Paulo está de pé, conversando com um amigo dele que está sentado. Atrás deles, vejo parte de viadutos que lembram o minhocão, eles são altos. Eu fico ali por que quero que o Paulo vá comigo do outro lado da bancada, onde tem mais doces. É uma bancada que tem coisas dos dois lados. Meu plano é ver se existe algo mais apetitoso que os morangos, e se não tiver, voltar lá nos morangos frescos e me servir. Fico meio que esperando uma brecha na conversa, e me distraio observando um ônibus que vem à toda velocidade pelo minhocão, para fazer uma curva extremamente fechada. Me dá uma certa preocupação, a curva é tão fechada, será que não tem perigo do ônibus não conseguir, e talvez bater contra a murada, sei lá. Mas o ônibus, apesar de estar vindo muito rápido, faz a curva com perfeição e segue seu caminho. Penso então uma coisa que agora me parece bem significativa e estranha, penso em como deve ser isso, dos ônibus sempre e sempre e sempre fazendo aquela curva tão fechada e tão perigosa, sempre com enorme risco, penso em como deve ser essa situação de ter que executar uma manobra com alta chance de dar errado, sempre com perfeição, sempre driblando o perigo, e as estatísticas de que com tanta chance de dar errado, vai dar errado alguma vez, e muitos sairão feridos. Não estou conseguindo expressar direito o que eu pensei, mas foi uma espécie de admiração por ali do lado, em meio à aquele ambiente corriqueiro da rua, ver que à toda hora, todo dia, estava acontecendo uma coisa muito difícil. Que nem você ver, por exemplo, alguém escapar de um acidente, você vê uma vez e pensa: que sorte. Mas imagina se isso estivesse acontecendo ali, na rua, à cada 15 minutos? Eu pensei até quando aquilo iria se segurar assim, mas logo depois pensei que, se ali fosse um lugar de risco de acidentes, as pessoas já teriam falado, ou comentado sobre a curva dos ônibus, e ninguém falava nada, aliás, a única pessoa prestando atenção era eu. Então voltei a me preocupar com os morangos. Falei com o Paulo, mas ele não queria ir do outro lado da bancada, já tinha escolhido a sobremesa que queria. E aí eu, que nem no sonho da cama molhada, não tenho coragem de ir sozinha e fico ali, meio paralizada, sem morangos.
Muito interessante. A mesma mensagem. Sem coragem de ir sozinha buscar um lugar para dormir, sem coragem de ir sozinha buscar o que quero comer.
IMAGE CREDITS MATHEU STANKIEWICZ | CLAUDIA SCHIFFER | E'PUR SPRING SUMMER 2012
Muito anos depois, um outro lindo, lindo sonho continuaria essa simbologia dos morangos: OS MORANGOS AINDA SÃO MORANGOS