{24 de abril de 2026}
Quando eu tinha 21 anos fiquei uma vez olhando minha silhueta negra recortada contra a parede iluminada no espelho do banheiro, muito triste pois eu quase não tinha cintura, fora que tenho mais de um lado que do outro.
Nem tudo que vejo no insta é fuga de energia. Ontem o último post que vi era um lance sobre falta de cintura nas mulheres.
Estamos todos nessa cidade praiana bem legal, tipo Ubatuba.
Tem a minha família, mas extrapola, tem amigos.
A casa é bem grande e totalmente não identificada com nenhuma da vida acordada.
Divido o quarto com a Lú e mais umas garotas.
Já fomos na praia, que é perto, linda e tem umas geografias que sempre aparecem em sonhos de praia: a praia teria o costão básico, logo na frente da casa, super acessível, mas andando mais para a esquerda e ultrapassando uns morrinhos fáceis, se chegava a uma mini prainha meio lago que era o paraíso.
Melhor descrição da BBBSP impossível.
Começa o sonho, quero voltar na praia.
Acho que acordamos e eu já digo para a Lú:
– Vamos para a praia.
Já planejando deixar minhas coisas com todos ali na praia fácil e ir sozinha para a prainha lago. E aqui a situação é bem sutil de descrever. Vou procurar não arredondar nada.
Apesar de todas essas coisa super à favor, não consigo ir na praia.
Começa que quando acordo, mesmo tendo sido junto com todo mundo, todos estão muito mais prontos que eu.
Já estão vestidos e tomaram café.
Vou me pondo no meu andamento. Assim que digo isso para a Lú, já abro a cômoda que parece essa minha preta aqui mas é de madeira e procuro um biquini. Tem meu biquini rosa mas não quero usar pois marca muito e tenho que passar o tempo todo reajeitando ele, para ficar no lugar, muito tenso isso.
Tem um outro biquini azul claro que não existe na vida acordada e resolvo ir com a calcinha dele e um top de outro, que é estilo regatinha, então fica firme, não marca quando molhado e fica bonito.
Então essa etapa fica superada mas as pessoas já estão saindo e para mim ainda falta. Não comi nada. Estou morrendo de fome, aliás estou morrendo de sono também, mas talvez seja fome. Não fui no banheiro ainda.
Preciso fazer os xixis, coisa trabalhosa.
Estou com um sapato que seria uma versão em couro vermelho dessa sapatilha da Temu que comprei, e não sei se gosto ou não. Na vida acordada. No sonho tenho clareza que não gosto e tento tirar, mas ela gruda no pé.
– Na praia tem que ir de sandália havaiana, eu penso.
Não sei porquê tenho necessidade de justificar para mim mesma meu desejo de tirar aquela sapatilha vermelha.
Estou na frente da casa com as pessoas da casa que já estão saindo para a praia e aqui rola a cena que mais me impressionou.
De repente fechou o tempo e ninguém pode ir na praia. Começa a chover e a enxurrada passa pela frente da casa, na rua, arrastando um monte de lixo.
Lixo bem lixo, não galhos e folhas, lixo ruim como esse que vejo aqui no Centro.
Parada olhando aquilo, várias coisas passam pela minha cabeça.
Primeiro isso de que de uma hora para outra, ninguém pode ir na praia e não está mais um lindo dia. Mas isso é passageiro. Depois aquele lixo todo me dá tristeza. Penso como as pessoas podem ser tão porcas. Jogar lixo num lugar desses. EE coisa de quem não tem alma. E por último, talvez o que mais me atinge, a impressão ou o receio de que a praia tenha ficado contaminada por toda aquela imundice. A correnteza de certa forma liga o lixo à praia, antes o aquilo tudo estava seco ali no caminho, mas agora, com a água unindo tudo, as sujeiras do lixo tem acesso à praia. Fico pensando que a praia está perdida. Por outro lado, talvez o lixo já estivesse ali e somente agora eu me desse conta disso.
Mas essa situação não é nada definitivo, pois em seguida as pessoas já rumaram para a praia e eu fiquei sozinha ali, me apressando para ir atrás.
Não posso ir sem comer nada.
Vou até a copa ou sala de jantar.
A sala é grande, retangular, e no meio dela, uma grande mesa retangular que já toda refeita, com uma toalha de renda branca em cima e centro de mesa.
E nisso, pela abertura que liga a copa, essa sala com a cozinha no extremo oposto do retângulo, mais do que uma porta, uma abertura mesmo, vejo a Suíta.
No que a vejo, tem algo nisso que não consigo nem entender. Até no sonho sei que ela não morreu nem nada, mas seria como se eu estivesse vendo uma pessoa que eu sabia, teria morrido na vida acordada. Não consigo entender o que sinto e até digo para mim mesma:
– Sim, é a Suíta, faz tempo que não a vejo na vida acordada, mas isso não tem nada de mais.
No que a Suíta me percebe ali, até mesmo sem me olhar ela me diz:
– Não tem mais café da manhã.
Agora escrevendo, talvez essa sensação forte e estranha, mas não ruim, aliás muito pelo contrário, que tenho quando a vejo é porquë ela parece, ou melhor, age como a Hefie do meu sonho.
– Mas eu preciso comer alguma coisa, digo.
Já vou pensando que pelo jeito não tenho como comer o que seria melhor, que seriam dois ovos, para dar uma sustentada. Vou ter que comer umas frutas.
– Eu podia comer na praia, como todo mundo.
Mas no fundo sei que isso não dá certo para mim.
No que fica esse impasse da comida, e eu já planejando ali comer umas frutas e ir para a etapa seguinte, que seria no banheiro, fazer bastante xixi, etc, outra coisa se interpõe e aqui é que esse sonho começa a ganhar vida.
Tendo terminado sua primeira leva de tarefas, que seria providenciaro café da manhã e depois arrumar a mesa, a Suíta tomou um momento para se dedicar a sua prática diária que seria fazer orações para uma divindade hinduísta, para qual ela tinha um altar ali na cozinha.
Pela abertura da parede eu a via de perfil, vestida como indiana, mãos postas, de frente para o altar, um altar bem em estilo indiano, com estátua da divindade, que parecia ser uma deusa.
– Então ela virou indiana, eu pensava. Como esse estilo de roupa favorece qualquer mulher, a Suíta já tem idade e ficou linda com esse vestido indiano.
Aqui não seria roupa indiana estilo hippie, seria aquele traje típico de sari.
Fico observando meio hipnotizada. Já não penso nem na praia, nem nos preparativos que não tenho como realizar a contento.
Então do nada tenho diante de mim, na mesa, pois eu estava sentada numa das cadeiras, um bloco de desenho A3 colocado no sentido horizontal e já estou completando um desenho que estava pela metade.
Seria como que um desenho desses da Graphic Fairy, não seria um desenho iniciado por mim.
Mas eu me ponho a completá-lo com o máximo de concentração.
O desenho, em traço preto, como que de lápis, mostra uma figura feminina, não totalmente realista, meio estilizada, justamente uma mulher indiana, vestida a caráter como a Suíta, mas uma mulher jovem e bonita, sentada em posição de lótus.
Está numa espécie de atividade de meditação, pois tem as mãos postas e olhos fechados. O que eu desenho, sem nenhum planejamento consciente, a coisa vai fluindo e eu deixo fluir, primeiro é um adorno de rosto que até é muçulmano e não indiano, uma espécie de colar de olhos, algo que se prende no turbante ou na cabeça e que faz uma curva de penduricalhos bem delicados abaixo de cada um dos como um colar. Me vejo desenhando isso, está ficando bonito. Estou tão no fluxo que seria quase como se eu observasse outra pessoa desenhando, pois não sei o que vou desenhar.
No que completo esse adorno em baixo dos dois olhos é que percebo que a mulher está com os olhos fechados, com longos e lindos cílios.
E nisso, de novo sem planejamento nenhum, o lápis ruma para a parte da cintura da moça. Não fica claro se não existiria cintura desenhada ou se eu retoco a existente, mas faço com o lápis, até calcando um pouco, uma curva de cintura do lado esquerdo bem fina e acentuada na curva, como vejo que eram as cinturas da mulheres dos anos 50, e isso sem espartilho nem retoques de photoshop. Será que algo nas condições atuais mudou mesmo a química interna das cinturas femininas? Porquê não vemos mais cinturas assim, como da Raquel Welsch, Gina Lolobrígida? Até mesmo as top models da Victoria Secret, já notei, tem cinturas retas. Gisele Bundchen, Adriana Lima, aquela outra que não gosto muito, Alessandra Ambrósio, tudo com cintura reta.
Ana Beatriz Barros. A da Adriana Lima até assusta um pouco, totalmente reta.
É estranho.
Pois bem, desenho essa super cintura e até acho que passa um pouco.
– Se eu for espelhar do jeito que fiz aqui do lado direito, vai ficar uma cintura fina demais, quase uma ampulheta, penso.
Mas antes isso que cintura quadrada.