A NÃO BEBÊ

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Aparentemente nada a ver.

Vejamos.

Saio para o hall de entrada da minha kit, que apesar de bem mais ampla e equipada e mobiliada e cheia de cômodos e dando para um hall de entrada que seria uma sala concretada maior ainda, com uns 30 metros de largura, seria sim a minha kit e já sonhei com essa versão expandida da minha kit mais vezes, para receber o pessoal do delivery de bebês.

Não tem forma racional de explicar isso.

Tecnicamente seria um empresa de adoção, você se inscrevia para adotar um filho, mas não era assim.

Seria mais como um delivery de bebês.

Eu havia encomendado um bebê para mim, que seria sim adotado como filho juridicamente e tal.

Estava ali a pequena equipe que vinha trazer o bebê, que ao comando de uma mulher que parecia ser a coordenadora ali, um mulher meio gordota de rabo de cavalo e um jeito meio comercial, sai de um veículo andando uma criança.

Aqui não quero arredondar nada para ver se capto algum sentido.

Olho para a criança e mesmo estando até aquele instante bem em piloto automático, não gosto do que vejo pois… não é um bebê.

– Isso não é um bebê, eu digo.

– Sim, é, afirma a mulher comercial.

– Como assim, claro que não, é uma criança de no mínimo um ano, pois já anda.

Era uma menina.

É nesse ponto que começo a sair do piloto automático interno.

Eu estava coberta de razão. Não era um bebê. Eu havia encomendado um bebê. Não era um bebê.

Enquanto a mulher comercial usa de todas as artimanhas para tentar me convencer de que aquilo era um bebê, vai caindo a ficha internamente para mim e essa simbologia é inédita e indecifrável no momento.

Aliás, se tem algo que tem se revelado proveitoso é registrar o momento.

Vejamos o momento: é fim de ano e estou dando andamento ao AAN mas no fundo achando bom ter que procurar um novo Nando pois não tenho vontade de sair filmando já e pronto já me veio um significado para esse sonho.

Ontem pensei que não sei como levar em frente o seriado pois é um processo pesado de envolvimento mas ao mesmo tempo não posso “matar meu bebê”.

Tem feito um calor dos infernos e tenho tido muito perrengues físicos. Não sei o que estou fazendo da minha vida mesmo que esteja trabalhando cada vez melhor nas minhas atividades todas, mas são hobbys praticamente, algo que não sai do meu universo e tenho dúvidas se estarei errada.

Mas isso de matar o bebê encaixa.

Pois cai a seguinte ficha dentro de mim:

– Mas no que fui me meter? Eu adotei um bebê? Ainda bem que veio errado e posso usar isso como brecha para pular fora, pois não quero um filho! Minha vida ia virar cuidar desse filho dia e noite, noite e dia! Nem sei se é pior um filho de um ano. O bebê tem aquele encanto mas por outro lado demandam atenção full time.

O ponto nem era se a criança seria ou não um bebê, mas que eu estava dando graças a Deus por ter um motivo, qualquer motivo, para voltar atrás da minha decisão impensada. Se eu tivesse parado para pensar jamais teria encomendado um bebê. Isso não tem volta. Um bebê é para sempre. Uma criança de um ano e meio então. Não sei porquê na minha cabeça a idade que me vem é um ano e meio. Iria pular a parte que eu só teria que ficar dando mamadeira e trocando fralda, Eu teria o quê, que procurar escola para a criança?

Por dentro esses pensamentos enquanto por fora segue a discussão com a equipe.

Tendo a mulher de rabo de cavalo usado de todas as figuras de linguagem para tentar fazer com que aquela criança andando pudesse ser considerada um bebê, vem então o rapaz mulato de ar ativista com uma pilha de contratos que são folhas acho que de formato A2 até, bem grandes, com lindas imagens azuladas, presas por uma parte de madeira basculante com ar de equipamento de gráfica medieval, que ele coloca sobre uma mesa de madeira que surgiu ali, diante da qual me sentei, já dizendo em tom de advogado da empresa:

– Então, segundo o contrato aqui…

E enquanto isso vai virando ali a pilha de contratos como num caderno, procurando o meu.

– Não assinei contrato nenhum, digo.

E por dentro estou pensando:

– Graças a Deus! Graças a Deus!

De fato, o rapaz não localiza meu contrato. Mais uma falha dessa firma pelo jeito bem incompetente, para minha sorte.

Então levanto e retomo a discussão com a mulher de rabo de cavalo e jeito comercial.

– Isso não é um bebê de jeito nenhum. Essa criança tem no mínimo um ano ou...

E num impulso me viro para a menina, que nesse instante tem o seguinte louco cabelo. Agora escrevendo me veio a maneira perfeita de explicar. Ela tinha um cabelo real, humano, que estava arrumado com laquê no formato do cabelo da Monalisa, não a Gioconda do Leonardo, mas a Monalisa dos Simpsons.

Um cabelo fazendo o formato de estrela e agora olhei no Google, o da menina era para o ruivo e tinha pontas bem mais longas, cada ponta se erguia pelo menos um palmo da cabecinha dela.

– Quantos anos você tem?pergunto para a menina mesmo sem saber se ela já fala.

Mas minha intuição como sempre se revela certeira. A menina me olha não apenas sendo capaz de entender minha pergunta, como de raciocinar a ponto de, depois de uma pausa, responder com evidente cautela:

– Vou perguntar para minha mãe.

E vai perguntar para a mãe dela ali do lado.

Foi até uma cena engraçada.

Sem precisar explicar nada do que estava pensando, pois ficou gritante para todo mundo, digo, rindo:

–Ela tem uns cinco anos!

Sim, uma criança que anda, fala e raciocina daquele jeito, só tendo uns cinco anos pelo menos.

E me sinto mais do que autorizada a largar a equipe toda ali e sem mais entrar de volta na kit onde uma estranhíssima segunda parte se desenrola.

Tendo perdido a discussão, a mulher de rabo de cavalo, mais uma vez demonstrando falta de profissionalismo, se sente impelida a pelo menos se vingar e força sua entrada na kitnet, acompanhada de um homem que não seria o mulato dos contratos.

Se põe a andar pela kitnet com ar bem mau, quase uma bandida mesmo, dizendo assim:

– Ah, quanta coisa bonita, heim?

E mexendo e quebrando e meio que roubando minhas coisas.

O tal homem parece ter a mesma intenção mas a mais ativa é ela.

Eu fico com ódio, um ódio de mãe protegendo a prole mesmo. Parto para cima dos dois disposta a matar para proteger minha kit. Apesar de dar vários golpes nos dois, não estou conseguindo e então…

E então invoco o demônio para me ajudar. Invoco Belzebu. As forças de Belzebu me tomam e sou capaz de jogar os dois invasores porta afora com violência. Apesar de estar contanto com a ajuda do demônio para isso, me sinto mais do que justificada, como se sentiria, como disse, uma mãe defendendo um filho. Fecho a porta, que é de plástico translúcido e a seguro firme com meu corpo contra ela, sentada no chão, pois…

Tendo sido ajudada pelo demônio, agora ele quer a contrapartida que seria entrar na kit. Vejo através da porta umas coisas que parecem uma energia negra que tem densidade física, com umas coisas parecendo raízes saindo de umas protuberâncias parecendo dedos gordos.

Havia invocado o demônio para expulsar os invasores. Agora para expulsar o demônio, começo então a invocar São Miguel Arcanjo.

Tendo escrito o sonhos, dois possíveis significados emergem e espero que não seja, como no geral verifico mais tarde, nada disso.

Ou é para eu fazer o seriado senão as consequências serão terríveis.

Ou estou com medo de não me forçar a fazer o seriado por achar que isso acarretaria trazer o demônio das minhas autocríticas para dentro da minha casa novamente.Sinto mais a segunda alternativa.

{20 de novembro de 2023)

IMAGE CREDITS MILES ALDRIDGE

A NÃO BEBÊ

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