AS SEREIAS IMPOSSÍVEIS DEMAIS PARA SER VERDADE

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24 Maio 2014

Estou numa casa formada apenas por corredores com a minha irmã e um menino de dez anos que não é nenhum dos meus sobrinhos, apesar de em certo momento ele agir igualzinho, ficando bravo e querendo agredir fisicamente as pessoas e eu fico tentando contê-lo como se fosse meu filho. Não o vejo como filho, mas sim como alguém com quem é meu dever me importar. Meu dever. Não estou exatamente sendo forçada a isso, mas não chego a dizer que seria meu desejo estar ali cuidando dele, até me pergunto porque faço isso, porque dá um trabalho infernal que parece que nunca termina, já que o menino é terrível e precisa de atenção o tempo todo para que não se meta em encrencas. Aquilo me toma por inteiro e como se não bastasse, tenho outras preocupações e deveres me demandando. Ou seja, tudo ali naquele lugar gira em torno das ocupações e deveres das quais me esforço para atender e cumprir. Não chega a ser algo agoniante e desesperador como já foi muitas vezes, mas é tenso. A situação com o menino, como disse, não me traz alegria nenhuma a não ser o fato de saber que cumpro meu dever. Mas nem tenho certeza se estou mesmo fazendo algo que devo ou só me acostumei a isso. E então. E então estou num dos corredores da casa e de bobeira olho para a janela. Para minha total surpresa, a janela dá para a praia. Dizer que a praia era do lado seria pouco, praticamente a casa é na praia. Como se a casa estivesse sobre esses rochedos que ficam no mar, porque do lado de fora da casa, desse lado, nem tem chão, tem água do mar. E a praia está ali, a uns metros de água depois. Penso: nossa, é um pulinho para essa praia. Mas olhando bem, vejo que a parte de areia, que estranhamente não é areia e sim um terreno de terra meio esponjoso, é de tombo, ou seja, não é legal para ir. Mesmo assim, uma praia tão grudada, será que não tem nenhuma parte menos de tombo, que dê para ir, dê para ir agora? Porque a possibilidade de, no meio daquela situação tão árida de deveres e esforços, poder andar uns metros e estar numa praia parece um milagre. Então faço assim: me debruço pela janela e olho para a esquerda, o mais que consigo. Sim, esquerda, o lado esquerdo do corpo. E se eu entortar bem a cabeça, enxergo um cantinho da praia onde se formou um pequeno laguinho numas pedras, mais convidativo, e sobre uma pedra vejo... uma sereia. Não é como aquelas sereias medonhas dessa onda de fake docs sereias que andei vendo, nem uma sereia grande e apavorante como uma vez vi num filme. São um pouco, mas só um pouco, menores que mulheres normais, mas lindas e delicadas. Muito femininas. Fico deslumbrada e minha primeira reação é falar para o menino: – Olha, uma sereia, vem olhar. Quando me dou conta de duas coisas. Que estava tão, mas tão imbuída da minha obrigação de cuidar desse menino, que diante de algo quase impossível, minha reação nem é pensar que estou diante de algo quase impossível, e sim usar isso para render algo com esse menino que no fundo acho meio chato, percebo agora. Então falo isso para o menino, insisto, continuo falando e me escuto falar enquanto penso comigo: mas péra. Como assim? Sereias? Sereias teoricamente não existem, e estou vendo sereias assim, com essa facilidade, no meu quintal? Então olho novamente. Estão lá e dessa vez vejo mais de uma. Uma delas está deitada com barriga para cima, boiando, relaxando. Esse lugar aqui do lado da minha casa deve ser excepcionalmente seguro para elas ficarem ali tão a vontade, deve ser um lugar onde ninguém, mas ninguém nunca olha. Então é assim que as sereias relaxam, boiando de barriga para cima. Fico olhando para a sereia boiando. Não sei porque fico olhando tanto para aquilo, racionalmente parece ser porque nunca, em lugar nenhum, vi nenhuma referência de uma sereia boiando, ou que gostassem de boiar, mas pensando bem, porque não gostariam? E sendo sereias e podendo respirar na água, deve ser mais fácil para elas, eu gostava muito de boiar, mas nunca conseguia muito tempo, ficava entrando água no meu nariz. Tudo isso penso enquanto me cai a ficha de que sim, são sereias e isso deveria ser impossível e parece não só ser possível como fácil, nem tenho que sair por aí procurando, descendo num submarino à profundezas, como os caras do Youtube, estão aqui no meu quintal. Mas não consigo acreditar nos meus olhos. Isso é importante. Não consigo acreditar nos meus olhos. E digo para o menino: –Vai chamar a minha irmã. Rápido. Aquela reação instintiva de largar meu papel de ficar em função dele e fazer ele ficar em função de mim é tão contra algo em mim que me sinto profundamente culpada. Minha irmã vêm, alguém em quem acredito mais que em mim mesma. Preciso dela para validar as sereias. Digo a ela: –Olha ali, olha ali. Ela olha, e nesse pedaço, que deveria ser o mais importante, uma confusão se forma, porque não fica claro se ela vê ou não, o que acontece é que uma grande orca pula e mergulha no mar, bem ao lado da casa, e aquilo joga um monte de água dentro do corredor, e o menino é meio empurrado por essa onda, e eu o seguro, e só agora, escrevendo, me dou conta, me esqueço completamente das sereias. Digo ao menino: –Que perigo, vc poderia ser levado e eu não ia conseguir te segurar. Mas tenho consciência de duas coisas: primeiro, de que não havia tanto perigo dele ser levado assim. Ele não está no mar, está dentro de casa. O maior perigo que enxergo é ele levar um jato forte de água do mar na cara, o que não causaria nada de grave, talvez um tombo, no máximo, ou seja, eu o superprotejo. E depois, tenho consciência de que me deixo levar por uma coisa meio mórbida de imaginar coisas horríveis que poderia ocorrer ao menino, tipo ser levado pelo oceano, coisa que só aconteceria se estivéssemos numa situação que não tem nada a ver com a situação em que estávamos. Porque eu, esquecida das sereias, fico viajando já na culpa que sentiria, que ia me impedir de continuar vivendo até, pois larguei o menino e ele foi levado pelo mar, por minha culpa e agora nada mais me resta a não ser dar cabo da minha própria vida, eu teria que morrer, digo ao menino, mentindo a mim mesma que com essa frase espero fazê-lo se sentir amado, mas sei que não vai ter esse efeito, é por essa fantasia mórbida, que alimento em mim mesma, e que me mantém ali, presa a aquele menino, que digo isso, nada mais. O real não é minha relação com o menino, e sim essa fantasia ruim a que me submeto, de que devo cuidar do menino, pois se algo acontecer a ele, não terei mais direito a minha existência.


 

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