MINHA PACIENTE LINDA

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3min de leitura

{15 de maio de 2011}

Um contexto tão novo e tão misterioso.

Estou no meu quarto atual, coisa rara nos meus sonhos, sentada na cama, tratando de uma mulher que é minha paciente. Ela é jovem, muito linda, morena, cabelo escuro, olhos muito profundos, marcados, não parece ninguém que eu conheça, a não ser, remotamente, uma garota chamada Norma no colégio que eu admirava por ser muito bonita e feminina, como eu gostaria de ser.

Essa paciente veio a mim para tentar resolver um problema de mau hálito, eu sou uma espécie de medica holística. Eu estou conversando com ela sobre o seu problema, muito impressionada com a beleza dela. Ela está deitada na cama, fala bastante. Há algo que não lembro agora, algo que surge em relação ao que ela fala, e que cria um momento meio tenso ali. Ela está falando do seu namorado, fala dele o tempo todo. Essa relação, pelo que entendi, é meio nova na vida dela, não é como se fosse um parceiro de longa data e sim algo novo. Ela fala como se fosse um grande amor. Eu conheço o homem em questão, ele é muito bonito também. Estou cada vez mais encantada com aquele romance todo, uma mulher tão linda, um amor tão lindo por um homem tão lindo, a única coisa que destoava ali era aquele problema de mau hálito dela, que eu tentava perceber ao que estaria ligado, por que como medica holística, sei que todos os problemas físicos tem base psicológica. Então é que surge o tal momento delicado que não lembro direito, só sei que no final de algo que eu digo a ela, sinto necessidade de amenizar, e digo:

– Mas você é tão linda, ele é tão lindo, vocês dois são lindos, vamos resolver logo isso então...

“ isso” queria dizer o problema do hálito. Esse era mais ou menos o mal estar que se formou, era como se, apesar do problema existir e eu ter sido procurada por ela, eu me sentisse tão deslocada e inconveniente ali naquele contexto de tanta beleza, que mal conseguisse mencionar o problema e sentisse quase como se fosse uma ofensa fazer isso.

E então me aproximo mais dela, porque vou fazer meus tratamentos de energia. Estou muito envergonhada de mim, de ter que mencionar o problema, fazendo de tudo para que ela não se sinta mal, quando ela, que continua tagarelando sobre o tal grande amor, fala algo que me chama a atenção e que me leva a perguntar:

– Mas... então vocês nunca chegaram a ficar juntos?

Ela me responde que não, mas quase. E na sequência, vai justificando por que não ficaram mas mesmo assim aquilo é um grande amor. 

Eu recuo um pouco, em todos os sentidos. Começo a perceber que aquele grande amor era na maior parte, fantasia da cabeça dela, que nunca havia acontecido nada de real, ou de tão real assim, pelo menos da parte dele. Ela não parece se dar conta disso.

Eu achava impossível que uma beleza como a dela não fosse baseada na experiência concreta de um grande amor, uma mulher não amada não seria tão linda, no fundo era isso que eu pensava, como se a beleza dela fosse uma prova de que o amor era real, mas percebo que ao contrário do que eu supunha, sua beleza era, sim, em grande parte alimentada por ilusão, quase delírio, porque eles não eram, como ela acreditava, um casal, a não ser na cabeça dela. O homem existia, era belo, e provavelmente tinha sentimentos por ela, mas alem disso não havia nada de mais concreto. Eles não eram um casal.

Ela continua falando, e um tom na sua voz que antes me parecia deslumbrantemente lánguido, agora me parece levemente delirante. E essa é a primeira vez que exergo nela algo que talvez explique aquele problema de mau hálito.

 Ando percebendo que muitas vezes (mas essa nem é uma percepção recente) meu entusiasmo e alegria estão baseados em coisas muito menos concretas do que me parecem, que ao primeiro indício mais positivo eu já me entusiasmo como se a coisa estivesse concretizada, tanto no amor quanto no trabalho.

Mas e o mau hálito? Seria a parte que percebe que aquilo não é real?

IMAGE CREDITS ELLEN VON UNWERTH | TAYLOR WARREN | VOGUE GIOIELLO 2009


MINHA PACIENTE LINDA

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