ESTOU NA FAZENDINHA

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9min de leitura

{20 de outubro de 2026}

Ai, ai, ai. É tudo o que posso dizer.

Essa cidadinha de interior seria algo de porte menor que SFX, como por exemplo Monte Verde, que tinha só aquela parte da rua central com comércio claramente para turista e o resto parecia se fragmentar em algo meio que rural e disperso.

Eu conheceria razoavelmente bem essa cidade, não 100%, mas a ponto de caminhar por ali sem ter que ficar pensando em caminhos.

E então eu e o João criança, criança mesmo, com uns 5 anos, mas falando como adulto, tinhamos feito o seguinte combinado tranquilo com minha mãe.

A gente se separaria, como se ela quisesse ir olhar não sei o que por conta própria e nos encontrariamos novamente no caminho de volta.

Ao contrário do que eu faria na vida acordada, não chegamos a definir um ponto de encontro, pois a cidade era, ou parecia ser, suficientemente pequena para, uma vez que eu estivesse no caminho de volta com o João, inevitavelmente cruzariamos com minha mãe.

No que o sonho se inicia, estou eu e o João, como disse, uma criancinha, e de cara se instala que esse plano, que a principio parecia super tranquilo, tinha dado completamente, mas completamente mesmo, errado.

No que descemos a pequena faixa principal da rua central da cidadinha, já era para ter encontrado minha mãe e nem sinal dela. Eu não faço idéia onde ela teria parado para nos esperar, se é que parou em algum lugar. Eu me dou conta de que estou sem absolutamente nada. Não tenho minha bolsa comigo. O motivo disso não se esclarece, mas seria como se eu estivesse tão confiante que nem havia cuidado de trazer. Estou sem bolsa e por consequência, sem celular.

– Mas como e porquê raios eu não trouxe minha bolsa comigo? eu me pergunto angustiada.

Agora não adianta pensar nisso. Não trouxe a bolsa, deixei nem sei onde. Pelo menos não fica aquele clássico símbolo de ter perdido a bolsa, o que seria mais preocupante ainda. Minha bolsa parece ester segura em algum lugar. Mas não tenho como mandar mensagem para minha mãe.

A cidade está lotada, é uma cidade turística. Faço a única coisa sensata que posso ainda fazer, que é carregar o João no colo. Ele se abraça a mim, como macaquinho, e eu vou caminhando, contando com o puro acaso para encontrar minha mãe. O João fala comigo como adulto. Por sorte, ele não me pesa para carregar.

O sonho fica um bom tanto nisso, com nós dois percorrendo com certa dificuldade ali as ruas, por estarem muito cheias, e minha cabeça, agora funcionando a milhão, varrendo todos os lugares que minha mãe costumava ir na cidade, pensando em qual deles ela poderia estar.

Foi um sonho muito angustiante. Eu sofria muito. Quando chego no patamar 1 de desespero, no qual percebo que estou me esgotando de percorrer a pé a cidade, tudo tem distância de quarteirões, e minha mãe pode ter se metido nessa parte lateral que é mais dispersa e exige mais caminhada ainda, o João passou a ser entre adolescente e adulto.

Estamos dentro de um estabelecimento comercial muito cheio de gente e eu vejo na parede um telefone público.

Mas não tenho dinheiro nem nada.

Nisso o João toma a iniciativa.

– É meu amigo ali, ele diz. Vou pedir para usar o telefone.

– Putz, e eu nem sei decor o celular da minha mãe, penso.

O João, que passou a ser um adulto e não está mais no meu colo, corre para o grupo que circunda o telefone na parede e sem que chegue a se configurar um amigo dele ali usando, de repente ele tem o telefone nas mãos e sabe o celular da minha mãe.

Ele disca e logo é atendido. Passa o telefone para mim.

– Mãe, onde você está? logo pergunto.

– Estou na fazendinha, ela diz, com aquele tom meio inconsequente que tem às vezes.

– Só tem eu aqui, ela continua, com um pouco de medo na voz.

– Que fazendinha? Qual é o nome certo do estabelecimento?

Minha mãe não sabe responder, como sempre. Eu sei que pode ser que o nome seja algo completamente diferente. Me concentro e procuro ser eficiente:

– Mãe, pergunta para alguém aí qual o nome do estabelecimento e o nome da dona do local.

Não sei como eu sei que é uma mulher a dona. Na verdade, na hora que ela fala “fazendinha”, tenho uns 70% de certeza que sei ao que se refere, uma espécie de lugar que tinha comidas e que tinha uns bichinhos. Mas não quero mais dar sopa para o azar, preciso de certeza total.

– Vai, mãe, pergunta já.

Mesmo tendo demonstrado um pouco de medo por estar ali sozinha, o que não queria incluia o staff do local, mas podia indicar que ele estava prestes a fechar, pois já era quase noite, e minha mãe seria colocada na rua, onde, a conhecendo bem, tinha bastante chance dela ter idéias idiotas, tipo sair andando, e aliás, a primeira coisa que digo, quando ele responde que estaria “na fazendinha”, é:

– Mãe, fica aí. Não saia daí.

Mas páro de escutar a voz dela. O telefone não fica mudo. Mas não escuto a voz dela e agora escrevendo, me intriga que eu não tivesse pensado o óbvio, que ela teria parado de falar para ir fazer as minha perguntas para a dona do estabelecimento, mas no sonho, acho muito esquisito e até me ocorre que ela possa ter tido um peripaque.

– Mãe! Mãe! Mãe!

Não tenho resposta, ponho o telefone de volta.

Reorganizo meus pensamentos, Sei mais ou menos onde seria esse estabelecimento que minha mãe chamaria de fazendinha, mas seria numa das transversais mais dispersas da cidade. Não dava para sair caminhando a esmo.

Sem perder um instante, vou andando enquanto minha cabeça febrilmente busca uma solução sem encontrar.

Assim como num shopping, tento localizar um guarda ou segurança. Acho que pergunto para umas duas pessoas se são segurança e eles não são.

– Tem que ter segurança nessa cidade.

Aqui me chama a atenção essa palavra, seguranca. Cidade não tem “segurança”, onde tem segurança é em shopping e lugares públicos. Cidade tem polícia. Mas em momento algum essa palavra me ocorre.

Até que então, pergunto para um homem que está vestindo uma roupa que parece ser de segurança e ele, sem dizer claramente que sim, me conduz a uma mesa, onde se senta com ar de protetor da comunidade e, lamento dizer, remetendo muito ao Dr Rodrigo, começa a me fazer perguntas num tom calmo e controlado e anotar num papel.

Faz a primeira pergunta e eu respondo.

Aí então ele pergunta algo que no sonho ficou super claro mas agora esqueci. O que me lembro é meio o seguinte:

– Se alguém se aproximasse de você com tal roupa, o que você pensaria que a pessoa é?

Aquilo me tira daquele estado de confiança.

– Mas o que isso tem a ver com o meu problema?

Ele me olha sem responder e fica claro para mim que ele não era segurança coisa nenhuma, apenas um cara ali que tinha, não sei porquê, visto na minha situação uma chance para se aproveitar para algo do interesse dele, talvez tentar me vender alguma coisa.

Levanto e vou embora. Aqui embola um pouco a sequência.

Acho que agora viria a parte em que vejo uma rodinha de mulheres, ali nesse estabelecimento, que era meio uma confeitaria, algo de comida, mas não restaurante, conversando entre si. Já desisti de encontrar seguranças, pelo jeito essa cidade não tem. Me dirijo a uma das mulheres. Já estou entrando no nível 2 de desespero,

– Por favor, por favor me ajuda. Você sabe onde fica um estabelecimento “fazendinha”?

–Sim, me responde a mulher com um olhar muito lúcido.

Tenho um instante de alívio. Finalmente uma orientação.

– É aquele que fica na estrada para a cidade, não é?

As mulheres ao redor dela balançam a cabeça, em concordância.

Nem me dou ao trabalho de responder. Não, não seria nada na estrada para a cidade, minha mãe não teria conseguido andar até lá. É algo na cidade.

Me afasto, espiralando cada vez mais em desespero. Estou sem nada. Sem bolsa, Sem dinheiro. Sem celular. Sem ajuda. Sem informação. O que será de mim?

O que mais fica pesando nesse panorama é isso de estar rodeada de pessoas, mas ninguém é capaz de me ajudar.

E nisso…

– Cadê o João?

Estávamos caminhando ali dentro desse estabelecimento cheio. Eu não estava mais carregando o João, que agora era crescido. No início penso que ele deve ter se afastado uns passos para lá e só. Mas começo a chamar:

– João, João, João!

E nada! Nada! Ele sumiu.

Aí meu desespero vai entrando no nível 3. Começo a quase que correr ali pelo local gritando o nome dele. Devo estar parecendo doida, eu penso, mas não me importo.

Não encontro o João. É até esquisito ter sumido tanto em tão pouco tempo. Estar distante a ponto de não me escutar. Será que foi sequestrado? Em cidade de interior tem muito tráfico humano.

Mais uma desgraça e mais uma perda. Não tenho nada mesmo agora, nem mesmo o João.

É só nesse momento que consigo, em parte, dar um breque parcial naquele descontrole todo e me focar.

– Sei mais ou menos onde fica essa fazendinha. Vamos tentar com calma e economia de energia encontrar. Tenho que primeiro sair aqui desse estabelecimento.

Procurando me manter centrada, saio ali do local. Me vejo na rua. Procuro me orientar no sentido de localizar a lembrança remota e vaga que tinha da tal transversal que teria ali bem afastada, um estabelecimento que achava que seria essa tal fazendinha.

E nisso…

Não estou reconhecendo a rua principal da cidade. Deveria ter caído no pequeno trecho de comércio da rua principal da cidade, coisa de não mais que uns 5 quarteirões de extensão. Mas as lojas que vejo, o comércio que vejo, não são os da rua principal da cidadinha, que, aliás, era a parte da cidade que eu mais conhecia.

Estou calma e calmamente pergunto a um passante:

– Por favor, que cidade é essa?

Ele responde algo que parece “São Tomé das Letras”. Não seria esse o nome 100%, mas seria um nome composto, e o nome da cidade onde eu estava era uma palavra só.

– Mas o que houve? Como vim parar aqui?

Só posso, eu penso, sem perceber ter andando mais do que percebi, e vim parar numa cidade vizinha.

E nesse momento, me sentindo completamente derrotada pela situação, pois sem dinheiro, sem celular, sem ajuda, eu acabaria vagando ali até cair de cansaço ou fome, eu tenho um instante de lucidez.

– Isso é um sonho. Um pesadelo, apenas isso. Não preciso resolver essa situação. Não preciso. Posso ir embora do sonho.

E fazendo como faço desde criança para acordar de um sonho, aperto dos olhos fechados com força e acordo.

Tive que ficar um tempo repetindo para mim mesma que tudo tinha sido apenas uma pesadelo, apenas um pesadelo.

Mas, e isso permeia o próprio sonho, não foi algo em que pensei depois quando acordei, o que eu gostaria de ter tentado no próprio sonho, e que me passa pela idéia, mas não sou capaz de me controlar e fazer isso, seria simplesmente não entrar em desespero. Percebo que mais e mais a situação ia me dando motivos para desespero e eu... ia como que incorporando isso. Mas não era algo inerente. Seria como, aliás, eu venho enxergando o que está acontecendo no mundo agora, e até mesmo falei para a Sandra isso. Estamos todos sendo bombardeados e alimentados com um monte, um monte crescente de motivos e estímulos "sensatos" para entrar em desespero. Mas... e se eu não tivesse entrado?

Quando me via ali, no nível 3 da desgraça, sem nem ao menos estar na cidade que mais ou menos conhecia, para minha cabeça já rumava para o que vinha rumando antes, entrar no nível 4 de desespero, sair por ali chorando e pedindo ajuda como uma maluca, o que, claro, iria dificultar ainda mais qualquer chance nesse sentido.

Sim, encerrar o sonho foi a coisa mais sensata que eu fui capaz de fazer.

Mas... e se tivesse conseguido me controlar e não entrado em desespero?

O que teria acontecido?

Tendo em vista que sim, eu sabia pelo menos em parte, que estava sonhando, e não estava correndo de fato um risco real.

IMAGE CREDITS MARIO TESTINO | LIU WEN | VOGUE CHINA DECEMBER 2013








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