{18 de outubro de 2026}
A mente fica tentando forjar soluções, os sonhos mostram que tem algo em andamento completamente independente do que a mente projeta como sendo solução.
Deus fez com quem eu completasse a faculdade quase que por milagre, pois eu era absolutamente incapaz de fazer isso sozinha. Tudo dependia de capacidades que eram as mais difíceis do mundo para mim: falar com pessoas para tentar entender o esquema de disciplinas obrigatórias e optativas coisa que parecia algo de outro planeta para quem tinha estado no Porto Seguro, em passividade absoluta, recebendo já tudo mastigado, era só decorar o que iria na prova e fazer a prova, e na FAU, mesmo que eu soubesse a que aula comparecer, era tudo menos aula, os professores ficavam falando de assuntos aleatórios e depois vinham com demandas de projetos que nem mesmo os alunos assíduos estavam preparados para fazer, só os japoneses transferidos do Mackenzie ou os alunos que faziam estágio, as duas únicas maneiras de aprender alguma coisa, como disse, as aulas eram tudo menos aulas, que conseguiam fazer os projetos, eu já estava no limite do desespero de ter que lidar com mais uma situação escolar, sonhava em ser sequestrada por um disco voador e tinha diante de mim uma graduação que iria exigir no mínimo 4 anos, e exigir muito mais envolvimento do que eu estava disposta ou mesmo era capaz de dedicar. Acho que é por isso que tive muitos sonhos nos quais eu ainda hoje estaria tentando me formar, com matérias pendentes e me sentindo completamente incapaz de resolver a situação. Acho que nunca detalhei isso. No meio da faculdade, isso na vida acordada, eu simplesmente desisti de tomar pé da situação, fui tocando, faltando um monte, falsificando projetos, e quando vi, estava sendo aprovada até chegar no TGI, o único trabalho quefiz prá valer.
Tendo eu adquirido desenvoltura e confiança com minhas atividades criativas autônomas, decido então resolver a minha graduação na FAU. Me sinto preparada para iso. O carro, que não é dirigido por mim, mas não parece ser um táxi, parece mais uma limousine com motorista, me deixa em frente ao prédio da faculdade, que é um edifício comum, nada do prédio Villanovas da FAU da vida acordada. Já me informei e falta apenas uma única matéria para concluir e tirar o diploma. Acho que andei faltando algumas aulas, mas não como fazia na FAU, onde simplesmente não ia nunca. Até agora não entendo como consegui me formar. Aqui perdi algumas aulas, mas tipo umas três. Dá para acompanhar ainda. Entro no prédio e vou olhando de auditório em auditório. As aulas acontecem em ambientes com cara de auditórios, não salas de aula. São ambiente com fileiras de cadeiras em declive, como salas de cinema ou teatro, e as paredes tanto das salas quanto dos corredores são pretas. Abro a porta do auditório no andar térreo. Sei mais ou menos o nome da matéria, que, sério, parece ser algo ligado a criminologia. Mas com o que conto para localizar a aula seria mais a cara da professora. Quando acordei e pensei no sonho, essa professora parecia tão familiar que achei que era mesmo da FAU. Mas depois localizei melhor, é uma atriz americana que sempre faz papel de advogada, juíza ou professora. É loira, de meia idade, e tem uma expressão inteligente e bondosa. Vou ver se consigo descobrir seu nome, ela nunca faz papel principal. Não quero perguntar onde seria a aula porquê não estou segura do nome exato da matéria e nem da professora, então perguntar pode complicar ainda mais as coisas. No primeiro auditório a professora não era ela. Fecho a porta e começo a subir a rampa para o auditório do segundo andar, essa é a única semelhança com a FAU da vida acordada, os andares, pelo menos dessa ala de auditórios, são atingidos por rampas, não por escadas. Todas pretas e menores que as da FAU. Mas não passa má impressão. E então vou andar por andar, cada andar tem um auditório, eu abro a porta e nunca é aquela a aula. Num dos auditórios eu até fico em dúvida, fico na porta olhando, vem um aluno descendo os degraus da parte das cadeiras em direção a parte mais baixa, onde fica o professor, nos filmes americanos a gente vê muito essa disposição de sala de aula, e o aluno, que tem cara de indiano geninho, sempre me pareceu muito interessante como os indianos tem essa capacidade de parecerem crianças de tão infantis e despretenciosos, sendo ao mesmo tempo absurdamente inteligentes, o rapaz estaria indo entregar a folha do seu trabalho para a professora, mas por algo que ele pergunta ainda a meio caminho, percebo que não é aquela matéria. Acho que tento perguntar para um faxineiro sobre a sala daquela matéria mas não dá certo, não tenho os dados exatos. Então vou de andar em andar, nisso já devo ter perdido mais de metade da aula, mas não importa, estou decidida a encontrar e assistir nem que seja 10 minutos da classe. Mas nisso chego num andar que, ali da rampa, olho para onde deveria haver a porta do auditório e o que vejo são uns andaimes de madeira e uma parte aberta ao fundo, o que mostra que eu cheguei no último andar, como que um sótão do edifício, ou seja, já olhei todos os auditórios e nenhum, nenhum deles continha a matéria que eu deveria cumprir para terminar de vez a faculdade.
Não sei o que fazer.