{6 de maio de 2010}
Esse tipo de sonho sempre vem um pouco antes de eu acordar. No começo, estou na Gassipós, no quarto da empregada com a Lúcia, meio com a idade que tenho agora. Estou triste e me sinto falida como mulher. Estou sentada no chão, meio sem fazer nada, e a Lúcia mexe de lá para cá. Eu começo a cantarolar alguma coisa, mas com uma voz falha e fraca, mas nem me dou conta disso, não estou escutando o que eu mesma canto. Nisso a Ordália, que estava varrendo o quintal, apesar de que ela nunca foi empregada dessa casa e sim da Gregório, começa a cantar uma música com uma voz excelente, e uma música linda. Ela canta bem como uma cantora do American Idol. Ela realmente tinha começado a cantar há um tempo atrás e descoberto que tinha muito jeito para isso e estava até gravando umas coisas profissionalmente. O fato dela cantar não tem nada a ver com se exibir ou me hulmilhar, pelo contrário, é como se fosse uma espécie de apoio. Algo no fato de eu não estar sendo capaz de cantar bem naquele momento e ela sim me consolava, e eu sentia que era quase como se fosse uma dádiva dela, cantar para a gente ouvir, porque era muito bom e fazia bem escutá-la.
Acaba aí a primeira parte do sonho. Eu penso mesmo que abandonei isso de cantar e que não devia, etc, mas acho que esse sonho é sobre coisas mais profundas.
Então estou aqui no meu ap, de um jeito muito estranho: estou de legging preto de fazer ginástica, fazendo aquela minha corridinha no lugar, nua da cintura para cima, com dois cobertores pesados, acho que o peruano e o edredon, sobre meu corpo. Eu os seguro assim, como se fosse uma capa e é meio complicado fazer com que aquela montanha não despenque com a pulação da ginástica, fora que meus seios, que são o que precisam de suporte, ficam ali sem nada. Até chego a pensa porque raios estou com esses cobertores, se nem está assim tanto frio. Mas não faço nada para mudar alguma coisa. Minha tristeza me domina, a mesma tristeza da cena anterior, e aquela imagem de eu ali tentando me manter fazendo exercício, para preservar um corpo que nunca consegue se realizar, é a mais patética das imagens para mim. Mas no momento era o melhor que eu conseguia fazer. Então vislumbro assim, de passagem, a Ordália na minha cozinha. Para isso eu tinha que estar fazendo ginástica bem ali perto do sofá.
Eu até estou mais ou menos, estou tipo perto da cadeira amarela.Fico um pouco na dúvida se vi mesmo ela ou me enganei com alguma sombra, mas logo volto a ver de novo. Há algo um pouco, mas só um pouco perturbador na presença dela ali, porque não era para ela estar ali. No quarto da empregada era natural, ela estava varrendo o quintal, mas ali na minha cozinha, ela estava propositalmente, e com que intenção? E mais que isso, me perturba o fato de que ela me veja assim, tão a imagem viva e explícita do desespero. Tenho vergonha. Meu sofrimento e o quanto me sinto humilhada e derrotada está evidente. E prá que me expor, a troco de que? Então quando tenho mesmo certeza de que ela está lá, reajo e decido tomar uma providência. Vou até a cozinha, ainda carregando as cobertas.
-Oi Ordália. O que você está fazendo?
-Nada. Só vim olhar as coisas aqui.
E fica meio vagando pela cozinha, como quem quer dizer que veio ver se precisa por ordem em alguma coisa. Ela respondeu tudo sem me olhar, com uma expressão meio carregada, que não dá para dizer se é maligna ou não. A Ordália ficava no limite entre o maligno ou não na vida real, e essa expressão dela no sonho é bem como eu me lembro dela. Sou firme:
-Olha, eu prefiro que você não fique aqui agora.
Ela concorda. Eu então recuo para voltar onde estava, fazendo a ginástica, quando, ao pisar no corredor, percebo que são duas dentro da cozinha. A Ordália tinha andando uns passos na direção ali da lavanderia, sem chegar a entrar nela, e quase como se fosse um fantasma se materializando, vejo um vulto de uma mulher com um conjunto branco, desse tipo de roupa de mulher resolvida que eu nunca usei, tipo saia e taier, e ela tem um cabelo senhora, meio chanel. Se fosse comparar com alguém diria que lembra a amiga Alessandra da Lucia.O lógico seria dizer que ela estava na lavanderia e eu não tinha visto, ou então só agora ela se adiantava, mas ela se materializa mesmo, meioperto da geladeira, sem chegar a fica totalmente concreta, ainda é uma sombra meio difusa, e mesmo assim a palavra fantasma não me ocorre. Eu penso comigo que ela estava lá o tempo todo, e eu não tinha percebido.No segundo em que penso tudo isso, e estou ali absorvendo a situação, como se de repente alguém sacasse uma arma, aquele segundo que fica entre você achar que estava numa situação corriqueira e registrar que nossa, é um assalto, só que a diferença é que NÃO SEI que tipo de situação é aquela. Dá para ver pela expressão da Ordália, que aquilo foi tudo planejado, ela foi com a tal mulher lá propositadamente, mas a coisa não chega a se configurar como uma ameaça, e por outro lado, porque aquele segredo, aquele sigilo, aquele clima? Isso tudo me passa na cabeça no segundo em que vejo a segunda mulher, e começo a recuar para a sala, e então... essa segunda mulher se transforma. Naquele visual de “ senhora” ela ainda era incorpórea, e quando termina de se materializar, vira uma moça de em torno de vinte anos, com um rosto desconhecido, mas que vejo com uma precisão super realista, ainda mais que ela vem para cima de mim com decisão, e segura nos meus ombros, sem nenhuma agressividade, mas com firmeza. Ela não é bonita, nem feia, é impressionante. Acho que talvez seja bonita, até, como essas modelos muito jovens que não tem traços marcantes. Essa moça tem esse tipo de rosto meio achatado, que nem a Silvia Rosler tinha, e a Silvia era muito bonita. Ela tem uma franja que cai cobrindo seu olho esquerdo, o cabelo parece ser claro, tem uma coisa confusa porque seu rosto está tão nítido na minha frente, que parece um desenho, e por outro lado, ela é a pessoa mais real do sonho. Eu tenho uma teoria de que de vez em quando, seres da outra dimensão, nossos guias, esse tipo de coisa, nos visitam em sonhos, porque alguns personagens de sonhos são tão reais, tão cheios de poder e personalidade, que parecem invasores. Essa moça era assim. Ela me olha com uma expressão intensa, penetrante, impositiva, quase ameaçadora. Assim que me segura pelos ombros, vem me acuando pelo corredor e pela sala, olhando profudamente dentro dos meus olhos, séria, como se tivesse algo de muito, muito importante a me comunicar, e estou com os braços meio afastados do corpo, nessa hora sumiram os cobertores, e sinto as pontas dos dedos dela não exatamente afundando nas minha axilas, mas daquele jeito como quando a gente aproxima o dedo da testa e mesmo antes que toque a pele, sente sei lá o que, acho que é o feixe de energia, encostando na gente. Eu estou com medo dela, mas me controlo para agüentar porque sinto como se ela pudesse me ajudar, como se ela tivesse a resposta. Então quando recuamos meio até quase chegar na planta, e tem uma coisa significativa nisso, que é não é que eu esteja recuando e ela me acompanhando, é ela que me acua naquela direção. Não chega a empurra, mas vem me acuando. Quando acordei até pensei que uma explicação racional seria que ela queria fazer com que eu me matasse e pulasse pela janela. Mas no sonho isso nem me ocorre, e não sinto intenção destrutiva nela.
Então me forço a olhar bem para a cara dela sem recuar, pelo menos não emocionalmente, já que fisicamente acho que a gente não para de se deslocar e dali a pouco eu estaria mesmo encostada no vidro, e eu digo então:
-Fala, fala logo o que é.
Porque a sensação que a coisa tinha, é que a menina tinha vindo fazer uma anunciação, que ia ser forte, mas boa para mim, e que tinha a ver com meus problemas como mulher. A Ordália tinha trazido ela ali para isso, inclusive se mantém meio afastada, na porta da cozinha, observando.
E nisso o sonho acaba.
Aí dormi de novo, um pouco na esperança de ver se sonhava algo que explicasse um mais aquela cena. Sonhei que na minha frente, ali, no mesmo ponto da sala onde o sonho terminou, boiava uma folha de papel escrita no computador, só que laranja.
Eu me esforçava para observar a folha do mesmo jeito que observara o rosto da menina, a procura de respostas, me abrindo para a resposta. O texto era decorativo, o importante era a cor laranja da folha, de um laranja muito bonito, meio nacarado, um toque mínimo de coral, e eu fiquei ali sentindo aquilo, tentando decodificar, e pensei: tem uma vibração alegre, esse laranja, ele transmite alegria.
Entre acordar e ainda estar no sonho, me deu um estalo: laranja, a cor do segundo chakra. Um laranja claro, limpo, bonito, alegre, vivo.
Bom, coisas que ocorreram depois:
A Barbara Sturm liga do nada, querendo que eu ajude com a sinopse. A menina do sonho lembrava um pouco ela, a não ser pela seriedade. Algo entre ela e a Silvia Rosler.
Coisas que me ocorreram: o sonho quer que eu escreva? A folha laranja toda digitada?
Quer que eu saia de casa? Me empurrando para a janela? Mas isso passa mais idéia de suicídio mesmo?
O que esse sonho quer? Me diga, sonho. Fala logo.
Outras coisas que me ocorreram durante o dia:
Aquilo que eu falei do rosto seu ao mesmo tempo hiperreal e um desenho: depois fui ver é exatamente o rosto que está nesse desenho novo que estou tentando fazer.
Ó céus.
E por ultimo a hipótese que me deu certo medo: que o sonho esteja querendo dizer para eu parar de fazer essa ginástica que estou forçando o joelho, sei lá.
Então hj não fiz.
Sonhos, é o seguinte. Vcs sempre foram claros. Sejam claros.Fala logo, não sei o que querem dizer.