AS PORTAS SE ABRINDO TODAS MAS PELOS FANTASMAS

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{6 de novembro de 2017}

Acho que inicia com isso da sessão de terapia infantil no quarto da minha mãe.

Essa sessão era conduzida por uma psicóloga que tratava de uma criança pequena,talvez de 5 anos,uma menina,e eu ficava ali acompanhando não sei bem por que motivo.Não havia um vinculo entre essa menina e eu,como se eu fosse a responsável por ela.

Mas estou no quarto da minha mãe,e isso na Lapa,e a psicóloga e a menina não estão.

As cadeiras estão ali,a espera,mas elas não estão.

Isso me deixa meio tensa porquê sei dos fantasmas.

A casa está cheia de fantasmas e evidente que numa casa vazia eles atacam mais,mas havia algo na presença da psicóloga com a criança que teria um poder especial no sentido de neutralizar os fantasmas.Mas elas não estão.

Então saio do quarto da minha mãe e no corredor ali da casa da Lapa uma cena impressionante:

Existem várias portas,acho que mais do que na vida real,talvez umas três portas a direita e duas a esquerda,todas se abrem para fora e todas abrem-se fantasmagóricamente naquele momento e começam a se movimentar como se estivessem ao vento e um barulho parecido com o do filme fuleiro da menina meio sereia ou seawalker,não entendi a diferença.O barulho que ela escuta vindo do mar.

Escuto aquele barulho mas ali no sonho é um barulho do mal causado pelos fantasmas.

Não estou exatamente apavorada.

Penso o tempo todo no quanto seria bom se a psicóloga e a criança chegassem e presenciassem aquilo,mas como não estão,presto o máximo de atenção possível para poder contar,e um detalhe importante é que as portas das quais vem esse ruído mais intenso são a porta do escritório do meu pai e da minha mãe.

No sonho não me dou conta de que são essas portas,mas lembrando a cena,são as portas que estão na mesma posição que essas portas da vida real.

Acho que depois disso é que estamos todo mundo sentado num sofá circular que está onde é a copa da casa da Lapa.

Ah,não.

Acho que vem a cena da Carina.

Passo pelas portas fantasmagóricas e chego na copa,onde sento na mesa e a Carina com uns dois anos de idade está ali e tem nas mãos uma espécie de salgadinho em forma de palito.

É uma massinha de trigo salgadinha.

Ela já deu uma mordida e me mostra o palito dizendo que está com uma cor estranha.

Fico alarmada.

O rosto da Carina está muito pálido e com uma coloração meio azulada,como se ela estivesse passando muito mal.

Digo:

-Está com gosto estranho?Cospe.Cospe.

Coloco minha mão na frente da boca dela.

Me parece que ela achava que tinha que engolir porquê cuspir seria nojento.

-Pode cuspir aqui,Cá.

E prossigo com todo carinho:

-Você não é obrigada a engolir nada estragado,meu anjo.

Ela cospe o salgadinho,mas nesse momento estamos na cozinha,ela de pé eu ao lado agachada e aquela cor meio azulada no rosto dela parece pior.

Em segundos me passa pela cabeça que as forças do mal não tendo conseguido me assustar com o lance das portas agora atacava a Carina e a tinha feito engasgar e talvez a mataria.

Penso comigo que se for o caso vou ter que abrir um buraco na traquéia dela para salvá-la.

Mas antes disso pergunto:

-O que você tem?Consegue respirar?

Estou tão nervosa que chamo a Suíta que está passando pano na sala.

Não que ache que ela possa fazer algo,mas é mais ajuda.

A Suíta vem correndo.

Eu continuo perguntando para a Carina se ela consegue respirar.

Percebo que apesar de não conseguir falar e ficar com a boca aberta como se estivesse sufocando,ela está respirando sim.

Vejo na boca dela vários pedaços de chiclete branco.

Sem nojo nenhum cato todos eles com a mão.

A Carina volta ao normal.

A Suíta trouxe umas fotos da Carina ainda bebê,mas não um bebê recém nascido.Pois seria como se ela fosse adotada e só tivesse fotos com a mãe adotiva a partir de uma certa idade.Na verdade acho que não foi isso,a Carina que pede ou para mim ou para a Suíta para ver fotos dela bebê.A Suíra mostra,mas não são fotos de bebezinho.

A Carina começa a chorar que ela não tem fotos de bebê com a mãe e isso significa que não foi amada.

Eu já estou,desde que tudo se normalizou,abraçando ela com todo meu amor como se fosse minha filha.Respondo:

-Mas isso não quer dizer nada,não é isso que mostra ou desmostra amor.Você é muito,muito amada.

Nesse instante ela se transformou num bebê nos meu braços e eu a amo tanto que penso em dizer que ela tem duas mães,eu e a Lú,mas acho que não seriacorreto e não digo nada.

Então acho que vem a cena do sofá circular.

A Carina não está presente e eu me sento ali com o que seria minha família mas não da vida real.Estamos todos vendo algo numa TV que está ali na parede oposta a porta da cozinha e que vagamente parece ser um vídeo no qual eu atuo como atriz,como se fosse uma novela.

Meu pai é alguém importante,ou o diretor dessa filmagem ou um empresário.Ele está bem junto à TV assistindo,pois essa filmagem ainda era tipo um ensaio.

Na ponta oposta do sofá onde estou está sentada minha madrasta,uma mulher jovem bonita com cara de rica de novela da Globo.

Ela me olha e comenta:

-Você não está me interpretando direito.

Pois nessa filmagem eu fazia o papel dela.

O tempo todo estou com um prato de carne nas mãos e estou comendo.A carne parece ser igual a que a Lú pegou para mim no Subway.

Seguro o prato um pouco alto demais,tipo logo perto do queixo então fica muito feio,

No que ela fala isso,me cruza pela mente todas as argumentações.Sim,é bem possível que eu não esteja conseguindo interpretá-la direito,mas isso pelo fato dela ser loira e imponente e alta e com porte de rica e eu não ter essas características.

Penso essas coisas,que me parecem sensatas,mas mais sensato ainda é colocar isso de lado e me abrir para o que ela está dizendo sem maldade,quem sabe me venha alguma informação útil?

Então vou com meu prato até ela,sento-me do lado e digo:

-Porquê você acha isso?

Fico à espera que ela me explique,mas ela demora e demora e então deita a cabeça no meu ombro.

Parece algo meio lésbico,mas deixo porquê eu mal falava com essa madrasta e achava que ela não gostava de mim e pelo menos aquilo me prova que ela gosta.

Lembrei outro trecho que acho que rola junto com as portas.

Minha mãe real,ou quase um fantasma dela,pois é uma figura tão mole e desfeita que mal tem massa física se achega contra mim de um jeito que não gosto nem um pouco,com uma expressão chorosa e vencida e terna de um jeito que não gosto também,uma coisa pegajosa,grudenta,e eu a afasto.

Não me sinto culpada de fazer isso porquê era meio um fantasma.

Me me dá muita aflição escrever isso.

E então meu pai,esse irreal,o empresário ou cineasta,tinha contratado uma equipe desses especialistas em fantasmas como tem em filmes,que levam equipamentos e medidores de vibração fantasmagórica.

Ele vem do corredor,tinham estado examinando o corredor por causa da história das portas.

Logo dão a entender que não acharam nada.

-Não acharam nada né? Tá,eu digo.

Esse comentário não quer dizer muita coisa,mas o que eu penso é que:

-eles tem que ser muito picaretas para não acharem nada depois de um episódio super carregado como foi o das portas.Se eles não detectam isso não detectam nada.

-só eu me importo com os fantasmas.Meu pai chamou esses caras por que eu falei das portas,mas no que eles dão esse diagnóstico de que não encontraram nada,tanto meu pai quanto eles desencanam total dos fantasmas inclusive o líder da equipe,um moreno de óculos com cara do Rosa do Skank começa a se interessar de forma muito mais intensa pelas filmagens e pelo fato do meu pai ser cineasta.

No meio disso tudo tem algo que deixa muito claro que ele me acha bem pouco atraente como mulher.

Também,fico com aquele prato o tempo todo,comendo enquanto falo,deveo estar horrível.

Agora escrevendo me vem um flash de significado.

Foi um flash e não um raciocínio então acho que é bem válido registrar.

Acho que essa imagem de eu o tempo todo com o prato bem alto e comendo enquanto falo com as pessoas é um símbolo de um nível de feiúra.Pois me sinto especialmente feia quando como.Então seria como se o prato ali simbolizasse que estou falando e interagindo com as pessoas no mesmo nível de feiúra que me sinto quando estou comendo.

Saio da copa e vou até meu quarto porquê quero cuspir coisas que estão na minha boca.O prato se foi,mas minha boca está cheia de detritos,como pedaços de chiclete velho.

Onde há o quarto da minha mãe há um outro tipo de quarto que surge com toda a realidade e mesmo assim não é nada da minha vida real nem de agora nem de antes.

Seria como se o apartamento da Lapa fosse uma casa térrea.Quando passo pela porta do quarto da minha mãe,que está no fim do corredor como na vida real,esse aposento é dividido em dois por uma parede que fica a esquerda,na altura do criado mudo da vida real,que no sonho não existe.

Na parte da direita seria meu quarto,mas não vejo cama e nesse aposento da esquerda,no qual se chega passando por uma abertura de porta sem porta seria o banheiro.

Encostado nessa parede divisória há uma pequena pia e um espelho,e na parede na lateral,como se fosse ali onde na vida real existem os armários,há outra porta que dá para um corredor lateral da casa.

Tudo tem muito ar de roça com paredes caídas de branco.

Vou ver se faço um desenho,é tão nítido.

Por esse corredor se chegava a uns quartos nos fundos que eram alugados por outros moradores.Aquela casa era a maior,e os quartos adjacentes menores.

Lembra muito o esquema da casa das costureiras na Padre Carvalho,era tão fascinada por essa casa,será que morei numa assim em outra vida?

Chego na pia e cuspo uns detritos brancos meio borrachudos.Parecem chiclete ou aquela massinha da Lú de grudar quadro na parede.

Cuspo e cuspo e sempre tem um monte,não consigo tirar tudo.

Estou com a mesma paciência que tive com a Carina para eliminar os detritos,mas não consigo sentir minha boca limpa e nisso minha atenção é desviada.

Não lembro se o morador do outro quarto passa pela porta ou se ele entra para dar um oi rápido.

Acho que mais essa segunda hipótese.

OK,estou meio sem semancol nesse sonho.

Logo de cara fica muito evidente que esse rapaz não quer bater papo comigo,mas eu o prendo ali com uma conversa.

Na verdade meu objetivo não é prendê-lo.Não estou atraída por ele.

Ele é quase que 100% o Mark do seriado da O2,misturado já sei,com aquele gordinho que faz o karaokê no carro.

É como se fosse esse cara no corpo do Mark.

Não estou flertando com ele,mas me empolgo com uma idéia que me parece ótima e não consigo reagir aos sinais de desconforto que ele emite com muita clareza.

Digo:

-Olha,me fala uma coisa.

E nisso começo recapitular minha idéia na cabeça um longo tempo,o que obriga o rapaz a ficar ali me olhando a espera.

-Tem cerca ali no seu pedaço de jardim?

Essa pergunta era complicada e exigia um grande esforço tanto para ser entendida,o que eu queria dizer,que cerca,que pedaço,que jardim,quanto para ser respondida,pois era algo que provavelmente ele teria que ir olhar lá,não era algo que saberia responder assim na lata.

O rapaz me olha tentando entender a pergunta e eu emendo:

-Estou querendo comprar uma galinha.

Consigo perceber que essa declaração tem um tom de grande idéia que é muito destoante a primeira vista,pois ali no lugar passavam soltas as galinhas selvagens e dos vizinhos.

-Mas tá cheio de galinha aqui,o rapaz me responde num tom educado muito usado quando se fala com pessoas mais velhas e inconvenientes.

-Mas eu queria minha própria galinha que desse ovos.

Estou muito empolgada com isso mas não consigo fazer com que o rapaz se entusiasme.

Num tom falsamente amigável ele diz:

-Ok,amigão,até depois.

E sai pela porta.

Já tinha ficado mais que claro que nem minha pessoa,nem minha conversa nem minha idéia tinha qualquer atrativo para ele,mas isso de ser chamada de “amigão” é algo que não esperava.Tipo nem chego a ser uma mulher.

Fico muito triste mesmo e volto ali para a sala e agora escrevendo acho que é nesse momento que vem a cena da equipe e do cineasta pois quando ele me rejeita eu me sinto rejeitada por todos os homens.

Acho que a ordem é essa mesmo.

Ah,já sei.Lembrei.

Rola esse diálogo com esse Mark sem o lance da cuspida.

Não lembro quando rola.

Mas então voto para a sala,se passa a outra rejeição,a do caça fantasmas metido a cineasta e eu volto ao quarto para cuspir as coisas na boca chateada por ser tão rejeitada e em segundo plano pensando que apenas eu tinha consciência do quanto a casa estava assombrada e isso me deixava como o alvo dos fantasmas,pois se as pessoas não acreditavam que eles existiam tinham menos chance de vê-los,pois não havia abertura.

Penso isso mas não estou com medo quando vou ao quarto sozinha.

Começo a cuspir os detritos e escuto,vindo da porta aberta do corredor,a mesma por onde o “Mark” tinha entrado,batidas de campainha.

Logo de cara aguardo que os fantasmas se manifestem,e quando começa a soar essa campainha,percebo que elas forma os acordes inicias daquela sinfonia de Bethovem tam-tam-tam-taaaam,só que no sonho estou certa de que essa música é a marcha fúnebre.

-São os fantasmas,penso.

Continuo cuspindo os detritos impressionada com minha própria falta de medo dos fantasmas.

Olho para a porta ainda cuspindo e começo a ver a aproximação de um tecido da roupa de alguém vindo.Devem ser mais fantasmas,pois vieram depois das batidas.

Continuo com uma frieza que me espanta.

Fico olhando para a porta mesmo sabendo que tem tudo para surgir ali algo apavorante.O que vejo é a barra do tecido de uma túnica longa,o que me ocorre é que se as batidas reproduziram a marcha fúnebre,verei surgir ali aquela morte com a foice,que usa uma túnica preta longa.

Mas quem aparece na porta é um rapaz.Um rapaz sem absolutamente nenhum paralelo com a vida real.

Tem uns vinte anos,jovem,de cara limpa e usa um boné.

Logo de cara sei que é um fantasma.

Vem para mim repetindo meu nome sem parar e de um jeito ameaçador.

-Silvia!Silvia!

Como se fosse um xingamento.

Fico assustada e recuo.Ele vem bem perto,seu rosto bem na frente do meu e continua gritando.

Aqui de novo não lembro a ordem.

Lembro que saio para o corredor e acho que é no corredor que começo a gritar:

-Não!Não!Não!Não!

Grito com força e isso tem poder sobre o fantasma,poder suficiente.

Mesmo assim sou tomada de terror,um terror que até então tinha conseguido evitar.

Começo a chamar minha mãe com uma intensidade desesperada,como criança mesmo.

Chego ali na copa e vejo que está vazia.Vejo a mesa de jantar como na vida real,mas vazia.

Sei que é obra do fantasma,que está me fazendo me ver como se estivesse sozinha com eles mas não estou,então continuo gritando pela minha mãe.

Nossa senhora,isso tudo não indica coisa boa.

 

Me lembrei de um trecho no qual descrevo com toda precisão que as portas das quais o ruído fantasmagórico vinha mais porte eram a primeira e a terceira do lado direito do corredor.Mas acho que digo isso quando a equipe começa a desfazer da história dizendo que não encontraram sinal de nada sobrenatural.

 

 

 

 

 

 

 

AS PORTAS SE ABRINDO TODAS MAS PELOS FANTASMAS

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