{3 de março de 2004}
Eu estava andando de bike num bairro que parecia a Vila Mariana, onde eu morei quando criança. Desci uma ladeira e parei no sinal, e quando saí de novo, reparei que estava cada vez mais difícil andar naquela bike. Eu fazia cada vez mais força e a bike mal saía do lugar, era como se ela pesasse muito e as suas rodas estivessem emperradas. Eu pensei: é porque essa bicicleta é muito velha, ela foi do meu avô. Preciso de uma nova.
Desisti de tentar pedalar aquilo. Desmontei e comecei a empurrar a bike. Ia descer outra ladeira assim, e tive um pouco de vergonha de estar empurrando uma bike numa descida, mas pensei: dane-se o que todo mundo achar.
Quando cheguei perto da ladeira, vi que ela era íngreme demais, quase em noventa graus, e achei que não ia conseguir descer nem à pé.
Resolvi fazer outro caminho. Estava muito cansada, e ainda tinha uma longa caminhada pela frente. Eu estava tentando chegar na nova casa dos meus pais, onde eu tinha ido só uma vez, mas achava que ia conseguir lembrar o caminho.
Acordada, primeiro fiquei chateada com esse sonho, porque achei que queria dizer que eu estava esgotada, e estava muito cansada mesmo.
Mas agora, escrevendo, me ocorreu que talvez ele queira dizer que eu estou tentando pedalar o meu passado, que esse sim, está velho e esgotado, e por mais que eu faça força, não me deixa sair do lugar, e que eu preciso pedalar algo novo. E se for isso, foi bom por que pelo menos eu desmontei do meu passado.