A MULHER É UMA CASA

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Seria uma cidadica de interior, dessas que não tem nada, mas nada mesmo de atrativo, a não ser alguma única coisa, tipo o orelhão gigante de Itu.

Ali no caso eu, do outro lado da rua, estav adefronte da coisa que questão, que seria uma casa.

Mais que uma casa, uma mansão quase palácio. Como se, nos primórdios da fundação da cidade, algum magnata tivesse se instalado ali, achando que a cidade iria prosperar, e aquela suntuosa casa então restara sozinha, completamente fora do seu entorno. Não que a cidade fosse pobre. Mas era insignificante. Não sei comparar.

Aquela cidade perto de São José, onde a namorada do Tom mora.

O que vejo é uma edificação assim das dimensões do Palácio dos Bandeirantes no Morumbi, antiga, e, sobre todas as qualidades da casa, como seu ponto de destaque, estava uma espécie de jardim de mármore branco na frente.

É uma grande extensão, maior até do que a da própria casa, composta de patamares suaves de um belíssimo mármore branco raiado de preto. Mas a brancura predomina.

São apenas patamares, com diferenças pequenas de altura entre eles, coisa de menos de meio metro, mas é muito imponente, quase um orgasmo de mármore, e eu, ali olhando, acho a coisa mais maravilhosa do mundo que alguém tenha tido todo esse trabalho de trazer todo aquele monte de mármore para aquele lugar remoto e todo esse gasto única e exclusivamente para criar algo maravilhoso.

A humanidade tem que ser grata a essas pessoas, eu penso.

O Rei que dedicou sua vida a construir Versalhes em cima de um pântano.

Então vou até lá. A casa é um lugar público, aberto a visitação, e como disse, único ponto de interesse da cidade.

Não tem muros nem grades ao redor.

Entro. O lugar está com visitantes e conta, também, com uma criadagem que mora ali mesmo, e que se encarrega da manutenção da casa.

Vou andando tranquilamente, sem pensar em nada, quase como se flutuasse.

O momento que fica em destaque é quando estou na parte da casa que, como toda casa antiga, tem os aposentos da criadagem.

Estou numa sala que parece ser algo de apoio à cozinha, não a cozinha mesmo, tem criados ali preparando refeições e na parede ao lado vejo as portas que dão para quartos e banheiros dos criados e nesse instante eu me lembro de ter antes estado ou nessa mesma casa ou noutra parecida ou numa casa igual em sonho e teria me embrenhado pela ala dos criados, que se ramificava em um emaranhado de quartinhos e banheiros, coisa que eu acho muito fascinante. Agora acordada lembro que sim, sonhei com isso uma vez. Eu entrava na ala dos criados e era um desdobramento de aposentos. Eu estaria procurando um banheiro e era ali que encontrava o único banheiro tranquilo e limpo da casa.

Mas nesse sonho, aliás quase que como uma comunicação do sonho, noto que ali não existe essa ramificação que eu achava fascinante.

Eu via ali as portas dos banheiros masculino e feminino e as portas dos quartos e não sei como eu sabia que atrás dela haveria apenas exatamente isso, banheiros e quartos, sem mais a magia do ramificados.

Mas no sonho isso era algo bom.

Como se algo que no passado tivesse grande poder de me atrair e de certa forma me prender, pois eu ficava percorrendo esses ambientes infinitos, tivesse sido destituído dessa capacidade.

Então continuo meio que vagando pela casa, tem algo no meu estado de espírito que não sei como descrever, é quase como se eu estivesse sendo arrastada por uma maré suave de ar ali, eu vou sendo levada. Não é uma coisa ruim.

E nisso, ainda dessa forma passiva, eu me encostei por acaso, me inclinei sobre acho que um aparador que tinha umas almofadas em cima e a almofada se encostou na minha barriga e o próprio encaixe do meu braço como estava a segurou lá.

É isso que caracteriza isso que não conseguia explicar. Estou ali em total passividade. A almofada por acaso pára no meu braço.

Não faço nada para retirá-la, mesmo quando me vejo indo em direçãp da pprta da frente da casa, a saída, e penso comigo que vão me parar achando que estou roubando uma almofada da casa. Mas nem isso me faz sair daquele estado de inércia, só porquê está gostoso.

E então, quando estou no pequeno hall de entrada da casa, bem pequeno para uma mansão daquelas, confusamente a cena é a seguinte.

Havia uma figura masculina ali que teria a ver com a administração da casa. Não era um visitante. Esse homem está cercado de assistentes e claramente sobrecarregado de coisas, e ao me ver passar ali, ele diz meio que para mim, mas mais para os assistentes:

– Manda ela falar com os repórteres.

E na sequência, no que estou no patamar da porta, ainda segurando a almofada na barriga, dou de encontro com um pequeno grupo de repórteres que estava ali para fazer uma entrevista com o tal homem, que seria alguém de importância.

Tendo eu escutado a ordem do tal homem para falar com os repórteres e tendo eu surgido ali na porta não sei com que ar que faz com que os repórteres me tomem por pelo menos uma porta-voz do tal homem, todos eles se dirigem a mim e me olham com deferência.

Não olhariam assim se soubessem que nada mais sou do que uma visitante comum. Mas me tratam como se eu fosse porta-voz da Casa Branca, por exemplo.

– Bem, fui autorizada pela autoridade aqui da casa, então vou aproveitar para falar umas verdades.

É bem assim que penso. Como no roteiro, quando o J e o Nando aproveitam a entrevista para ignorar as perguntas e apenas fala mal do que eles querem falar.

Me detenho ali na soleira da porta, ereta e digna, claramente aguardando as perguntas e nisso se mostra que o grupo de repórteres, uns 5 ou 6, eram exclusivamente mulheres.

Mulheres de idade faixa acima dos 40, uma em particular alta, com uma expressão severa, o tipo de expressão padrão desse tipo de mulher que se define como empoderada. Tem um cabelo curto escuro, mas fofo e ondulado.

Parece nervosa e impaciente. Mas todas ali, como disse, me olham com respeito e me atribuindo importância.

Minha idéia era, como disse, falar o que eu quisesse, mas mesmo sendo recebida ali com deferência, as repórteres ficam falando entre si num zum-zum-zum que não abre brecha, então eu me ponho a falar no meio disso mesmo. E o que sai da minha boca sem planejamento nenhum, mas que a medida que falo, eu mesma concordo comigo, é:

– A essência feminina é a casa.

Fico pensando nessa colocação que eu mesma faço.

Nisso o zum-zum entre as repórteres cessa e por um instante elas me olham, em parte com um certo choque por eu ter falado sobre esse tema tão caro a elas, o feminino, associando isso a uma casa.

E nesse momento, percebo que tenho um instante de atenção total sobre mim. É minha chance. E novamente sem saber o que vou dizer, e abraçando a almofada na minha barriga, eu prossigo assim:

– A mulher é uma casa.

A frase espanta até a mim mesma. Como assim, uma casa?

Só saberei se eu mesma for em frente com essa analogia, que não me desagrada, aliás pelo contrário, muitas vezes na vida acordada sinto conflito por querer e gostar e investir tanto dinheiro e tempo e cuidado na casa, e dico contente com essa sentença com ar de profunda verdade que valida isso, a colocando justamente como base do que me é mais precioso na vida, a feminilidade, e eu estou ansiosa pela explicação a seguir que deve sair da minha boca, mas…

A mulher altona, a nervosa e de ar irritadiço, vendo que eu já havia demonstrado que não iria dizer o que ela queri ouvir, que seria algo nesse linha feminista de que as mulheres não sei o quê não sei o que lá, tudo menos isso de casa, casa era retrocesso, era prisão, ela se vira acintosamente para as colegas e começa uma conversa em paralelo, me ignorando totalmente.

Eu não ligo. Estou encantada e intrigada por minha própria casa, fico repassando ela na minha cabeça, a mulher é uma casa, a mulher é uma casa e nisso, como se me viessem imagens ilustrativas, flutua na minha frente como se fosse um vídeo incorpóreo, não seria eu imaginando, era um vídeo mesmo, ali no ar, como se o sonho ilustrasse a idéia com imagens, uma cena da Vilma dos Flintstones no cenário daquela família do futuro, esqueci o nome, a família do futuro de desenho animado, unindo assim o mais antigo passado com o mais futurístico futuro, e ela estava na sua cozinha, de avental, feliz, limpando tudo e passando um pano de chão no piso com o pé.

Não que eu ache que o certo é largar tudo e ficar só cuidando da casa, como a Maria das Neces disse uma vez a respeito de uma vizinha dela que ficava só cuidando da casa, e ao dizer isso ela me olhou de uma maneira meio sinistra, muito bruxa a Maria, eu sempre lembro disso como se naquele instante ela tivesse me rogado uma espécie de praga e todas as vezes que fico aqui cuidando da casa, fico com medo de que seja a praga da Maria me tomando aos poucos.

Mas isso são temores. O que eu acho mesmo, até mesmo porquê se tem uma palavra que fica me vindo do entorno repetidamente, como um sinal mesmo, é “casa”, mas principalmente acima de tudo como eu me sinto depois que arrumo a casa, que é em paz e bem, eu acho que existe algo na relação da mulher com a casa, no sentido bom, no sentido nutritivo da feminilidade, que ultrapassa de longe o que eu mesma, que adoro cuidar da casa, percebo sobre o assunto.


A MULHER É UMA CASA

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