EVIL LEFT THE BUILDING

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{3 de agosto de 2026}

Nunca dou nomes ficcionais ou interpretativos para os sonhos, mas quando acordei, pensei assim que eu ia pegar aquela caixa e tirar do meu apartamento, não, melhor ainda, tirar do prédio.

–Vou procurar uma caçamba na rua e jogar dentro dela. O ideal seria queimar, mas não vejo como isso agora.

Na Padre Carvalho, mas uma planta ampliada. A porta da cozinha ficaria no canto da parede que dá quina com a janela de alto a baixo, como se a cozinha fosse, na verdade, na sala do apartamento da Flávia.

Então bateram na porta e quando eu abro, dou com duas figuras dignas de um filme de Felinni, nas quais infelizmente não posso deixar de ver uma certa paródia de duas pessoas do meu círculo de amizade.

Seriam duas mulheres de idade indefinida. Uma delas é baixinha, vestida de forma vintage, com óculos de aro grosso, e a outra é alta, de cabelo quase rente e eu não saberia dizer se seria homem ou mulher. A figura mais baixa está com uma matula nas mãos e ela parece bem aquela personagem secundária do Bebê de Rosemary, que até já apareceu mais de uma vez nos meus sonhos, a que fica balançando o berço no final, antes que a Rosemary assuma seu papel de mãe.

Ela tem um nome que combina com ela.

A figura no sonho é bem dessa mesma linha e até no sonho eu lembro dessa personagem do Rosemary.

Não posso dizer que elas me passem uma impressão ameaçadora. Estão sorridentes, vieram me conhecer, e trouxeram aquela matula de comida como uma oferenda de boas vindas.

O que acontece de mega, mega simbólico, é que eu abro uma fresta educada de porta para falar com elas e a mulher mais baixinha segura na madeira da porta e diminue a fresta.

Até hoje lembro de que a Flá contou como me conheceu, que bateu na minha porta e eu abri uma frestinha para falar com ela. Eu lembro que estava de bóbis e na verdade foi esse o motivo de eu não abrir toda a porta, fiquei com vergonha, mas claro que isso ficou sendo visto como o típico sinal da reclusa anti-social.

Pois a mulher baixinha reduz a fresta. Estranhando muito aquilo, eu instintivamente volto a abrir um pouco mais. Não escancaro a porta. Como disse, é uma fresta educada. Polida.

A dupla logo entra, com a minha anuência, não é a também clássica cena de invasores, e muito rapidamente se instala a seguinte situação que me parece também altamente significativa como símbolo.

Pois antes mesmo que eu forme uma idéia sobre o que pensar daquelas duas, que assim como no perfeito O Bebê de Rosemary, ficam no limite entre figuras simpáticas e sinistras, a coisa toda assume um ar festivo.

Eu levo educadamente a matula oferecida para a minha cozinha e de repente, essa comida se desdobrou num banquete completo e de repente também, tem várias outras pessoas ali na sala com aquelas duas, todas elas meio que vindo no mesmo fluxo delas, quero dizer, não seriam convidados meus, seriam como que conhecidos delas do prédio que estivessem passando ali, vissem as duas ali dentro, vissem a comida, e se sentissem quase que numa recepção antifitrionada pelas duas conhecidas deles, em um apartamento de uma desconhecida, no caso eu.

E aqui também é muito sugestivo pois eu, mesmo sem estar com opinião definida sobre as duas, na hora não gosto nada de estar de repente com meu apartamento tomado por uma festa que eu não encomendei, mas...

Com um raciocínio meio torto, eu sinto que devo isso às duas, devido ao fato delas terem me trazido uma grande quantidade de comida.

Escrevendo agora, vejo que esse tema da minha casa tomada por uma festa de estranhos é bem recorrente, mas com um grau muito maior de abuso.

Aqui, mesmo preferindo que não tivesse nada disso, em parte me deixo contaminar ali por aquela companhia festiva. E eles não estão, como em outros sonhos do mesmo enredo, zoando todo meu apartamento.

Então deixo rolar, vou ali dando apoio aos convidados, quase como se fosse uma criada mesmo.

É o que lembro.

Péra.

Algo rola, pois eu vou me sentindo triste ao ponto de quase me decidir, me decidir tipo uns 80%, a voltar a fazer terapia com a Anna Verônica, que estaria viva e a qual vejo em pensamento ali e que surge parecendo uma versão minha, se eu fosse do porte físico avantajado dela. Anna Verônica, eu te amo tanto, desculpe qualquer mal estar que eu tenha te feito passar, a respeito da sua aparência.

Você é uma das almas mais belas que conheci.

– Não sei o que fazer da minha vida, eu penso. Talvez fosse caso de conversar com alguém e ela seria a única terapeuta com que eu conversaria.

E aqui assim. Quando eu estava ainda na lida ali da festa, acho que, pois essa parte nublou um pouco, chega a reparar em algo que havia surgido ali do nada, pois não tinha nada disso antes. Bem difícil de descrever.

Seria um objeto de cimento, uma haste que se erguia verticalmente do chão numa altura de um palmo, de superfície sextavada por fora, mas tendo um cano em interno em toda sua extensão, esse de diâmetro redondo. A haste teria a largura de uma caneta bic e a sua base alargava um pouco, o que servia para mantê-la em pé, quase como nesses cones de trânsito.

No que vejo aquilo, apesar da coisa em si não conter nada de explicitamente terrorífico, me dá uma coisa ruim. A coisa tem uma aura sinistra.

Mas estou envolvida com as tais falsas festividades e noto isso apenas em paralelo.

Mas algo me leva a pensar aquilo de que não sei o que fazer com minha vida, etc e tal, e nesse momento a festa se foi, estou na sala com minha mãe, e é nesse momento que decido que iria sim voltar a fazer terapia com a Anna Verônica.

Ia chegar e falar: não sei o que fazer com minha vida.

Minha mãe está como uma figura colaborativa nesse sonho. Está ali de boa vontade. Não fica claro o que define o desenrolar dos fatos, mas de impulso, eu acho que decido aproveitar que tenho um momento ali de calma para voltar a dar uma olhada naquela formação estranha na cozinha.

No sonho fico chamando a coisa disso mesmo, de formação.

Então, ainda meio que sem pensar nada de conclusivo, volto ali na cozinha, conversando com minha mãe e.

Aonde eu havia visto a coisa, que até então era apenas a haste, agora havia uma caixa de papelão bem como essas caixas de entrega de supermercado padrão, mesmo.

Leva uns segundos para eu entender o que estava vendo.

A haste agora estaria dentro dessa caixa de papelão, que nem seria grande, algo pouco maior que uma caixa de sapatos, aberta em cima, e no que olho ali, vejo algo se mexendo dentro da caixa.

– Tem algo ali dentro se mexendo, mãe!

Ainda não tinha conseguido identificar o que seria, mas coisa boa não tem como ser. Olhando então, o que vejo são dedos, dedos de tamanho humano mesmo, dedos vivos, como que brotando do fundo da caixa, na vertical assim como a haste, e se mexendo lentamente como...

– Como vermes, é o que penso.

E muito, muito vagamente, parece que os dedos estão dentro de uma luva de latéx amarela. Mas novamente, seriam apenas os dedos, não tinha o corpo da mão.

Dedinhos meio moles, como naquele outro sonho, esse sim bem pesado.

Imediatamente acho que capto tudo o que houve, Aquelas duas malévolas, a pretexto de serem amigáveis, haviam introduzido aquela coisa do Mal ali, e usado a festa para distrair minha atenção.

O que mais me chama a atenção agora escrevendo é o quanto não fico apavorada. Me sinto totalmente capaz de lidar com aquilo, mesmo sem subestimar seus poderes do Ruim.

– Tá de jeito para eu de alguma forma fechar essa caixa e jogar fora. Os dedos estão contidos dentro da caixa. Só preciso pensar em como fazer, talvez virar outra caixa de boca para baixo em cima.

E nisso tento conseguir ajuda da minha mãe.

– Mãe, temos que jogar isso fora.

E mais uma situação mega recorrente se instala, pois todo, todo meu foco vai para o fato de que minha mãe, apesar de estar ali vendo aquilo como eu, não reaje. Não fica nenhum motivo para isso. Ela simplesmente não reage, fica parada olhando para aquilo, enquanto eu vou quase que gritando:

– Mãe, me ajuda. Temos que jogar isso fora! Temos que jogar isso fora, se mexe, me ajuda!

Não que eu dependesse da ajuda dela. Ou que ela estivesse fazendo de maldade, algo assim. Não fica colocado um motivo. Mas ao invés de deixar ela de lado e fazer ali o que era necessário e que eu, na verdade, me sentia totalmente capaz de fazer, fico tomada por essa estranha inércia da minha mãe.

IMAGE CREDITS STEVEN KLEIN | KATE MOSS | W MAGAZINE MARCH 2012




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