IMUNIDADE TOTAL

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{1 de maio de 2026}

Até acho que entendo.

Seria um hall de apartamentos nada com nada da vida acordada. Um espaço retangular das dimensões aqui do hall do meu apartamento. No extremo direito da face mais comprida do retângulo, uma porta. Em frente a essa porta, a porta do nosso apartamento, pois eu moro com um pessoal. 

Estamos no corredor diante da porta aberta no nosso apartamento, eu pisando o hall mesmo e meus companheiros do lado de dentro do apartamento.       À esquerda, sentados no chão contra a face mais estreita desse retângulo, perto de uma porta de apartamento também nessa face, estão dois seres demoníacos.

Todo esse primeiro momento se configura assim. Havia uma necessidade de eu bater na porta do apartamento da frente do nosso e pedir um copo dágua.

Havia algo, não se sabia oquê, muito terrível e sobrenatural nesse apartamento. Esses seres demoníacos que estavam sentados no chão, sendo eles uma garota morena cabeluda de uns 17 anos e um menino de uns 10 anos, lembrando muito, muito as crianças fantasmas daquele filme gótico antigo sobre o garoto que ficava sonhando com fantasmas com o coração arrancado, tinham alguma coisa a ver com o que haveria de tão terrível dentro do apartamento em frente, do qual eles mesmo haviam sido vítimas.

Meu companheiros estão espiando pelo vão da nossa porta, morrendo de medo dessas crianças demoníacas fantasmas. Mas eu sou corajosa e me aproximo delas.

Não sei se digo algo. Mas a comunicação acontece. A menina demoníaca me estende um molho de chaves. Sem dizer palavra, pois apesar de eu não ter certeza se chego a formular frase ou não, tenho certeza de que nem ela nem o menino emitem palavras. A menina me estende o molho de chaves e todo seu jeito diz:

– Por sua conta e risco.

Meus amigos ali da porta acompanham ansiosos. 

Apesar de estar sendo corajosa, não serei imprudente. Não sei o que existe de tão terrível dentro do apartamento e pretendo me precaver ao máximo.

Olho o molho de chaves. Tem várias. Me aproximo da porta e meu primeiro impulso é experimentar uma ao acaso. Mas seria, mesmo que não faça sentido racional, um ato de bravata. O sensato é saber qual é a chave certa. Então, mais uma vez tomando coragem, me aproximo novamente das crianças demoníacas. Meus amigos mal acreditam que eu esteja fazendo isso.

Chego com o molho de chave na palma da mão e, mostrando para a menina, lentamente abro o molho na palma da mão, como quando a gente abre cartas na mão. 

A menina lentamente me aponta a chave tetra. Uma e apenas uma das chaves do molho era uma longa chave tetra, pouco menos longa que uma chave de fenda.

Um problema resolvido. Empunhando a chave tetra como se fosse uma arma, retorno para a frente do apartamento do Mal. Mas ainda assim hesito. Ainda assim não me sinto preparada e não tem nada de covardia nisso, muito pelo contrário. Ao invés de me jogar ali seja lá no que fosse, me dispondo a aguentar no tranco ou algo pior, eu queria me proteger.

E nisso a cena mais surreal e legal.

De dentro do nosso apartamento, que como disse era bem em frente desse. sai uma figura que morava ali conosco, fazendo algo que na verdade não seria a primeira vez que fazia. Essa figura masculina seria um pequeno Deus, que tinha uma pistolinha de plástico, se não me engano vermelha, de espirrar água, e o que ele fazia que já tinha feito antes, era espirrar água nas pessoas, mas essa água seria uma água dos Milagres e concedia desejos.

Ele é um Deus alegre e brincalhão, quase infantil em sua felicidade.

Vem espirrando a água e meus companheiros logo pedem coisas para ele e eu rapidamente entendo que aquilo é o que eu precisava para me sentir pronta a entrar no apartamento do Mal.

Me coloco debaixo do jato de água que o pequeno Deus espirra meio que em direções aleatórias, e formulo meu pedido:

– Quero imunidade total.

A água cai sobre mim. Pronto, não tenho mais o que temer.

 Sem hesitar mais, enfio a chave tetra na fechadura e abro a porta e acho que até chamo o morador, digo algo como: Oi, tudo bem?

E nisso se aproxima a fonte daquele terror todo.

Seria uma figura claramente fantasmagórica, um homem não muito alto, meio para o gordo, completamente careca, com sombras cinzas ao redor dos olhos, rosto branco cadavérico, arrastando uma bola de ferro no pé, mas apesar disso, se movimentando livremente pelo apartamento. Mas jamais poderá sair dele.

– Por favor, digo, poderia me dar um copo dágua?

Aqui tem algo que acho que tem a ver simbolicamente.

No que (...) disse ontem a “coisa negativa do dia”, sobre meus roteiros não serem inventados do zero, num tom claramente depreciativo, sendo que anteriormente, quando estava achando que eram inventados do zero, seu tom também era cautelosamente depreciativo, e até me parece que o objetivo dessas visitas que faço, da parte dela. seria conseguir dizer algo que me fira, pois, como bem expressou o Luciano, ela se alimenta disso, mas no que ela disse isso ontem, fui capaz de não tomar aquilo para mim, mas, num claro efeito de energia que se expressa por onde der, quando fui pegar um copo dágua a torneira não fechava, ou eu não consegui fechar e espalho água pelo chão.

Duvido que essa simbologia do sonho não tenha se valido disso.

Como estou com imunidade total, a figura do Mal não tem escolha a não ser me dar água.

Água. Não seria isso que se busca na relação com os pais, com a mãe? Água que nutre e faz as coisas crescerem e floresceram. E que alguns pais nunca dão, aliás, pelo contrário, buscam tirar a água da Alma dos filhos.

Aquele demônio careca vai arrastando sua bola de ferro no pé e pega um copo dágua na cozinha e me trás. Sem querer ser tendenciosa, a disposição da cozinha dele é a mesma do apartamento da (....)

Pego a água e começo a fechar a porta, mas nisso…

Um dos meus companheiros havia, num entusiasmo inocente, se aproximado demais da porta. Eu estava com imunidade total, mas ele não, e portanto, a figura do Mal ali tem poder sobre ele e esse poder é que meu companheiro começa a ser sugado para dentro do apartamento, onde seria aprisionado para sempre. Que nem no sonho do poder da bruxa.

O copo dágua não existe mais ou eu o seguro com uma mão enquanto com a outra agarro o meu companheiro para impedir que ele seja sugado. Está bem difícil. Grito por ajuda para meus outros amigos. Eles vêm e também agarram esse outro que estava sendo sugado. Acho que com a força de todos juntos conseguimos evitar que ele fosse sugado, mas o sonho encerra antes desse ponto.

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