SEJA FELIZ, TALAGIBIRA

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{26 de junho de 2018}

Na casa dos meus pais na Lapa. Eu, minha mãe, minha irmã e acho que minha avó.

Estamos todas vivendo lá. Tem um ar de casa de fazenda e de fato, não chega a ficar configurado, mas seria como se o apartamento fosse uma casa.

A sensação é estranha e só consigo explicar porquê vejo um claro paralelo com minha própria vida atual.

Vivemos ali de certa forma cada uma desenvolvendo atividades artísticas ligadas a pinturas e desenhos.

Mas há uma sensação de... não sei que palavra usar.

Não é acomodação, não é desapontamento. Talvez limite?

Não é uma sensação boa cheia de vitalidade. Não é a clássica sensação deprê.

Mais para frente rola algo que define bem essa sensação que estranhamente eu não chego a notar no sonho. Não chego a ter super consciência dela.

Estava ali no quarto da minha avó vendo os trabalhos dela, ela pinta e produz bastante.

Vendo os trabalhos dela tenho uma sensação boa, a melhor sensação do sonho.

Essa parte do sonho é a que ficou mais vaga.

Começa a ficar mais nítido justamente quando saí desse quarto dela, que no sonho fica no quarto do meu pai, mais ou menos, e sigo meio que à toa para o quarto em frente, pensando no papel que minha avó tinha usado nas pinturas dela.

O tempo todo isso de como que se tudo aquilo estivesse sendo quase uma distração, uma atenuante em relação a “algo”.

Minha avó tinha feito as pinturas dela num papel de aquarela ou papel de desenho que tinha uma textura interessante pois eram pequenos risco de um relevinho, uma textura irregular, o papel tinha como que uns “grafitattos” ali de textura.

Muito vagamente quero usar esse papel.

Estou ali onde é o escritório da minha mãe e que parece ser o quarto dela e ali não é tão legal quanto o quarto da minha avó, e enquanto minha mãe fala comigo eu procuro ali entre os papéis que vejo. um papel como o que minha avó usava e não encontro, mesmo que encontre mais pinturas da minha avó nesse papel.

As pinturas eram à óleo como ela fazia e não aquarelas.

Quanto mais olho mais acho que fica legal a pintura nesse papel.

Ali com minha mãe me sinto como na vida real. quando procuro encontrar algo que me interesse naquele mundo dela e não existe.

Mas por fim comento sobre o papel e ela me diz algo bem interessante.

Fala mais ou menos assim:

– Sua avó pinta e coloca esses efeitos depois com tinta (ou massa corrida, não lembro).

Ah, então era isso, não era o papel que era assim, ela fazia um leve chapiscado sobre a pintura depois. Que idéia criativa.

E minha mãe emenda, o que me deixa mais impressionada ainda:

– Ela faz isso desde pequenininha.

Me vêm na cabeça a cena da minha avó pintando ainda em criança e já se desenvolvendo nisso.

Depois estou mais desalentada ainda. não sei bem porquê.

Seria como se a minha avó fosse a mais bem sucedida ali e eu não tivesse nada de meu ou quase.

Só sei que pego uma folha meio encorpada e um lápis e penso que vou ficar deitada na cama desenhando à toa naquele papel, como faço com os meninos e sei que se fizer isso, vai sair algo bacana, por outro lado, é apenas um desenho numa folha de papel.

Não tem como não ver o que tenho sentido na minha vida real nessa imagem de ficar na cama desenhando. É meio como naquele sonho em que estava de pijama e fico pensando em ficar desenhando o tempo todo e que alguma coisa ia acontecer. Não é uma situação boa.

 A folha que pego é laranja, tenho uma rápida visão dela.

Mas estranhamente não dou sequência a esse plano.

Ao invés disso, sem nenhum pensamento consciente a respeito, vou para a copa, outro lugar no qual minha avó costumava ficar.

Ela costuma ficar ali na copa, nos intervalos, assistindo uma TV pequena e antiga que tem ali.

Nem tão pequena, meio do tamanho daquela que eu tinha na Padre.

Agora ela não está lá e eu me sento na mesa redonda que tem ali junto da TV e vou assistir um pouco.

A tv está naquele fora do ar e aqui tem algo muito louco e que se sobressai desse clima meio melancólico do sonho: tudo que passa na tv é cor de rosa.

Vou mudando o canal na mão mesmo, pois não acho o controle remoto. Tem algo a respeito disso, penso se iria quebrar a tv, mas depois raciocino que controle remoto é algo extra, a tv vem com canais que podem ser mudados manualmente.

Vou mudando ali os canais girando o botão, que coisa mais de tv antiga, e todos os programas tem em comum primeiro o fato de nenhum pegar direito, estão todos rodando na tela ou coisa parecida e depois serem todos rosa.

No que estou nisso meio sem conseguir, minha atenção é deslocada para algo que está a minha esquerda, com um destaque que se tornou conhecido em sonhos e que é bem complicado de descrever. Como se houvesse um holofote de luz invisível direcionando minha atenção para a tal coisa e ao mesmo tempo um aumento de nitidez.

Olho meio distraída e vejo à minha esquerda a porta da cozinha e dentro dela, de frente para a pia, lavando louça, a garota amish que trabalha de empregada na nossa casa.

Seria assim.

Havia um núcleo amish ali perto, como disse a casa tem ar de casa de roça.

A palavra amish não chega a ser colocada, mas é isso.

A menina veste aquelas roupas e faz parte de uma comunidade com regras severas tipo amish.

Já deve ser o terceiro sonho com amish que tenho.

Agora me veio que talvez me veja como Amish.

Enfim, essas meninas trabalhavam de empregadas ali na casa, havia mais de uma.

No que dou com ela ali, percebo que já estou na sala há um bom tempo e até olhei na direção dela e nem a cumprimentei, por estar mesmo muito imersa nessa minha sensação que não é muito boa. mas principalmente por serem essas meninas praticamente invisíveis.

Sua atitude amish era de se colocar muito em segundo plano, quase invisíveis mesmo, nunca procurar atenção. Isso fazia parte da mentalidade amish.

Mas as tornava quase invisíveis mesmo, tanto que eu custei a perceber que não havia cumprimentado nem nada.

Eu não tenho com elas nenhuma atitude de superioridade nem nada, trato como todo mundo.

Rapidamente tento me consertar dizendo:

– Oi,...

E aqui percebo que não sei o nome dela.

Isso também não constituía grande mostra de menosprezo, pois elas alternavam ali quem vinha trabalhar, nem sempre era a mesma.

A moça ali da pia percebe e sem achar ruim diz:

– Alma.

Juro por Deus que o nome dela era Alma ou algo que parecia isso.

No sonho não dou conta do fato dela simplesmente ter o nome de Alma. Apenas isso resolve meu problema de cumprimentá-la e eu completo meu cumprimento, Oi,Alma.

Ela então vem até mim e se senta na mesa.

Não tem nada de mais nisso, seria como se fizesse parte das tarefas dela, tipo sentar ali para descascar legume, algo assim.

E logo se cara se impõe a força que emana dessa moça.

Ela é jovem, aloirada, bonita sem ser tipo de beleza. Muito jovem mesmo, tipo uns 17 anos.

Mas o que sobressai é que irradia uma força de personalidade difícil de descrever.

Parece muito inteligente, muito equilibrada e muito capaz.

Está claramente brava.

No que ela se senta ali na minha frente, logo outra se senta na minha lateral, pois tem sempre mais de uma ali na casa.

Gostaria de lembrar melhor esse diálogo. Inicia com ela comentando sobre a Amish que tinha morrido.

Super vagamente aqui talvez tenha sido assim, mas isso me veio agora tão tênue que não posso afirmar com certeza. Quando ela me diz seu nome, eu, em parte para me justificar por não saber o nome delal, digo que achava que a Alma era “aquela outra”.

Pois quem mais trabalhava ali na nossa casa eram essa garota e “uma outra”.

A Alma então diz que o nome dessa outra garota era outro, não sei se nesse momento esse tal nome fica claro, e arremata:ela morreu.

Eu não sabia disso, ou talvez tivesse ouvido algo a respeito mas nem tinha sido dito como um fato verdadeiro.

Me interesso pelo assunto e nisso a Alma vem sentar na mesa.

Noto que está brava. Mesmo assim não é uma pessoa raivosa de má índole.

– Morreu de quê? pergunto.

– Não sei.

No que a olho com estranheza, ela segue.

– Eles não dizem.

Tem um tom de crítica nessa frase. Os dirigentes Amish pelo jeito tem essa mentalidade de achar que não tem que explicar mortes ali, é “obra de deus”.

Nem por um segundo duvido da impossibilidade dessa garota de conseguir esclarecimentos ali desse dirigentes que tinham um poder quase total sobre sua vida.

Se não queriam explicar, simplesmente não explicariam e ficaria por isso mesmo.

As garotas amish eram tratadas quase como escravas. A única coisa que as diferenciava de serem escravas de fato era que elas eram criadas dentro dessa mentalidade de submissão e achavam que aquilo era o certo e era escolha delas.

Mas essa garota Alma não.

Estava ali naquela situação Amish por não ter outra opção mas não era uma “iludida”.

– Porquê eles matam justo que as que conversam com a gente?

Nessa surpreendente frase, a ênfase nem está nessa admissão de que ela não acredita que a morte tenha sido natural e sim no fato de que as que são mortas são as que tem uma atitude mais humana, que “conversam” com as outras.

–As outras são todas bitch, bitch! diz a Alma expressando muita raiva.

Eu olho para ela e tenho muita simpatia.

Aquela garota me passa uma ótima impressão e nessas fantasias que tenho de ajudar os outros, começo a fantasiar ajudá-la, mas eu mesma estou desapontada com minhas frustrações e nem levo essa fantasia a sério.

O que me vêm que posso de fato fazer para ajudar é conversar com ela.

E nem que isso venha como algo depreciado, naquele instante tenho uma súbita consciência de que minha capacidade de fazer o bem apenas por estar ali e conversar com ela, como aliás ela tinha acabado de falar sobre a Amish morta, era bem forte, porisso fico ali e a escuto.

Queria lembrar melhor as frases.

Aliás lembro as frases mas não a ordem.

Acho que primeiro ela começa a comentar sobre esses dirigentes Amish. As frases são incompletas mas o sentido não.

– Que nojo deles.(ela diz se referindo aos dirigentes, que parece ser principalmente um homem) Ficam passando a unha na gente.(é literal, se refere a unha mesmo, mas era algo feito como bolinação, pois todas as garotas eram jovens e bonitas). Dizendo “eu poderia me apaixonar por .... (aqui vinha o nome da garota. O que ela queria dizer é que eles diziam essas coisas de brincadeira. mas era uma forma velada de assédio).

Pois bem, claro que essa sou eu, já que (...) sempre falou esse tipo de coisa e tem na minha opinião umas atitudes meios sexualizadas, principalmente para o meu lado.

Mas seguindo.

Me olhando com aquela intensidade clara característica dela, a garota me diz:

– Só fico por não ter outra opção.

O que estou tentando colocar em palavras mas sem conseguir muito ao tentar descrever essa tal “força” dessa garota, era que ela não era uma débil. Não era fraca, não era burra, não era fora da realidade. Era uma garota pronta para estar fora dali.

Eu respondo o que sei que devo responder:

– Sim, você tem opção.

Não lembro o motivo, mas essa frase é dita num estado meio dividido por algo que a outra Amish, essa sim bem submissa e apagada ao meu lado, tenta me dizer ou faz.

Só lembro que quase sou desviada ali daquela comunicação com a Alma, que sei que é importante para ela.

Retomo e então digo a ela com convicção isso de que sim, ela tem opção.

E na fração de segundo em que ela fica supresa com essa resposta, eu raciocino que tenho que esclarecer que o que quero dizer não é que ela tem opção e estaria sendo boba, e sim de que ela tem com ter opção. Ela tem poder de de alguma forma ter uma opção, que sempre existe opção quando a gente, todo mundo, e não apenas ela, acha que não tem. Até acho que a situação dela é sim complicada, não acho que ela esteja acomodada ou exagerando, seria como se ela fosse órfã, não tivesse ninguém e para onde iria?

E reunindo a intenção de deixar claro que o que quis dizer era que via nela toda a condição de ter opção, no sentido de elogio, digo a frase que fecha o sonho:

– Se não tem opção tem que criar uma.

 Meu deus, relendo o sonho percebi que esse não era o fim do sonho não. O fim é a frase que coloquei no título.

O que digo à Alma sobre criar uma opção a atinge, não a irrita, a balança mas...

Ela se sente melhor, mas como um pêndulo ela retorna para sua própria visão de que está numa situação sem saída.

Não sei se ela comenta algo, acho que sim. Só sei que fica claro que ela acha que não tem saída e nisso se levantando, ela é que encerra o sonho com a seguinte frase:

– Seja feliz,Talagibira.

Em algum momento tem um diálogo entre eu e ela sobre o nome dessa garota, que ela fala e eu pergunto: O nome dela era Tatáginira?

O nome é meio assim, mas não consigo assimilar direito.

– Sim, me responde Alma.

E acho que é então que ela se ergue e pronuncia com muito impacto essa frase:

– Seja feliz, Talagibira.

Com isso querendo dizer que por estar morta, a garota estava finalmente livre.

 

 

 

 

 

 

SEJA FELIZ, TALAGIBIRA

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