NÃO QUERO VIVER MINHA VIDA COMO UMA COVARDE 

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{25 de maio de 2026}

Inicia nessa variação da FAU, como sendo.. .engraçado, não saberia dizer porquê não chega a ser a FAU de verdade. É uma versão da FAU.

Tinham rolado várias coisas que já configuravam a minha situação ali da seguinte maneira: faço parte de um grupo de alunos, entre eles uma menina muito parecida com a Ella, e no geral estou atendendo necessidades desse grupo, em especial dessa menina Antes de entrar a cena com o homem parecido com o personagem Popinka, eu já tinha combinado com essa garota que iria dependurar uma prateleirinha de vidro que ela havia comprado, em uma parede da FAU. Em um lugar público mesmo.

Aí estou sem o grupo e tendo ao meu lado esquerdo o ator do personagem Popinka do filme O Homem que ficava vendo os trens passarem.

Ele está vestido como no filme e resolve uma questão minha.

No embalo, me convida para tomar um café.

O motivo de eu aceitar nem seria gratidão e sim o fato de que nunca recebo convites masculinos. Aceito.

Ele se anima todo e percebo que o correto mesmo teria sido recusar, pois não tenho interesse nenhum nele, aliás tenho um pouco de aversão.

Será que a escolha dessa figura para incorporar esse personagem do meu sonho teria a ver com o fato de que no filme ele representa um contador, um homem de vida muito restrita que sonha em viajar?

Esqueci coisas desse sonho. Mas vou escrevendo, muitas vezes lembro depois.

O café com esse homem passa a ser na casa dele que é na FAU, porisso que não era a FAU real. Estou dentro do apartamento dele e nos sentamos no sofá para ver TV e estou muito lânguida com as penas de lado e ele está ao meu lado e eu penso:

– Estou inconscientemente dando todos os sinais para que ele faça um avanço e acho que ele deve estar se preparando para isso. Mas eu não quero.

Acho que no momento em que eu, pelo meu lado, estou me preparando para levantar e evitar essa aproximação indesejada, já me sentindo culpada, afinal eu havia aceitado o convite, do nada, pelo menos pelo que lembro, estou numa outra parte do apartamento dele, que é meio que um labirinto de corredores marrons sem nada, apenas parede, teto e chão, procurando a saída. Ele está em outro aposento, me falando de longe, e eu começo a achar a voz dele mais e mais sinistra. Ando pelos corredores do apartamento marrom dele procurando a saída e não encontro. Entro numa sala, todas as salas são vazias, acarpetadas com esse carpete marrom, e nessa tem um armário embutido aberto, vazio e dentro dele, essa impressionante visão: uma armadura antiga medieval, mas toda negra. E o mais curioso, não muito grande. Não uma miniatura, mas a armadura me chama a atenção por ser do tamanho de um homem talvez da minha altura. Fico assustada pois eu já tinha entrado nessa mesma sala, visto o mesmo armário e ele estava vazio! A armadura brotou ali do nada. É preta, como disse, e passa uma sensação ameaçadora.

Fico mais decidida a fugir mesmo, sem dar explicação nenhuma, e apesar dessa breve cena em que eu rodo e rodo pelo apartamento sem encontrar a saída, logo estou do lado de fora.

Tem um trecho que lembrei. Quando aceito o convite, vou andando com o homem na direção que ele me conduz e, ao ajeitar meu casaco, percebo que estou com o meu lençol, o do edredon que uso como lençol, enrolado no pescoço, como um cachecol. Começo a tirar. E no que tiro, percebo que estou também com o meu outro lençol também enrolado n pescoço. O homem caminha a minha frente e não notou nada disso.

Minha preocupação nem seria de que ele visse, mas de carregar aqueles panos todos. Faço um bolinho que até que fica algo o menor possível, e carrego numa das mãos.

Assim que entro, vejo um dos armários logo na sala dele, aliás, totalmente vazio, e coloco os panos lá e pergunto:

– Posso deixar aqui?

– Sim, ele responde.

Minha idéia seria pegar novamente ao sair, mas pelo menos não preciso ficar carregando aquilo. E nisso penso, ou melhor, tenho a ilusão de que aceitar aquele convite serviu para melhorar minha vida de alguma forma. Mas no que estou sentada no sofá sendo charmosa com um homem pelo qual não tenho a menor atração, nem como amigo, sei que isso é só ilusão.

Quando estou de volta par ao lado de fora, retoma o lance de ter que dependurar a tal prateleira, que tem o formato dessa prateleira de caixinhas verdes que eu fiz, só que é de vidro. A prateleira está ali no chão, e nesse momento estamos numa parte da FAU até que bem realista, aquele térreo grande onde normalmente eram feitas as exposições, sentadas no chão, eu, a menina que parece com a Ella, outra garota que tem algo de mais proeminente e sinto que rolaram coisa entre eu e ela mas não lembro agora, mas tudo coisas que envolviam eu carregar tralhas para lá e para cá, e estamos ali conversando entre nós e enquanto observo a conversa, sinto que essa obrigação de dependurar a tal prateleirinha havia se tornado algo pesado para mim.

E ao olhar para a prateleirinha, acho ela bonita e sem falsidade nenhuma digo para a menina parecida com a Ella:

– Mas essa prateleirinha é muito bonita para dependurar num lugar público, você devia dependurar na sua casa.

Estou sendo honesta, mas por outro lado, se ela dependurar na casa dela, não serei eu a fazer isso.

A menina que parece a Ella começa a concordar e nisso, ao olhar para a prateleirinha, vejo que tem uma falha no vidro. Uma brecha onde o vidro foi quebrado. Não chega a prejudicar gravemente o efeito da peça, mas é um defeito e duas coisas me passam pela cabeça: primeiro, a dúvida se teria sido culpa minha, eu que teria quebrado. E em segundo lugar, se a menina que parecia a Ella estaria percebendo isso, e me parece que não, e mesmo sem raciocinar conscientemente a respeito, tomo a decisão de não falar nada.

Então aos poucos, nesses pequenos movimentos todos, o que estou fazendo é rompendo com aquele lugar e tudo o que ele envolvia.

Me levanto e quero sair dali.

No que decido isso, também a FAU se transformou num complexo de corredores sem nada, só com chão acarpetado de marrom, e paredes, e eu, assim como na cena no apartamento do homem não desenhado, rodo e rodo e não acho a saída e pergunto para uma pessoa e outra, não adianta, mas…

Isso dura um instante só. Vejo uma mulher negra com roupa meio afro, uns turbantes, muita cara de ativista-artista, mas com um sorriso muito amigável e não esse ar emburrado e hostil que essas pessoas costumam ter.

– Por favor, onde fica a saída?

Ela me sorri muito calorosamente e se prepara para me orientar, quando…

Eu mesma vejo a saída à minha direita, uma grande abertura para o lado da rua.

Imediatamente vou nessa direção, mas sem deixar de me virar e dizer para a mulher negra:

– Muito obrigada, você me ajudou muito.

E de uma forma que não tenho como explicar, isso é verdade, e acho importante que ela saiba disso.

Saio por uma rampa curta que tem lajotas retangulares de cores em variações de marrom, que entendo super como sendo o chão da cozinha da Martiniano, que iniciou essa saga de reformas, que na verdade me fortaleceu bastante e me curou de umas visões de mim mesma que eu tinha muito negativas, me achava incapaz.

No que estou saindo, quero pisar por cima desses pisos de variações de marrom, apenas por ser mais divertido. Eles cobrem apenas a lateral esquerda dessa rampa, Vou por eles e percebo que indo por ali, passo bem perto de um grupo de rapazes sentado numa mesinha de bar, daquele tipo muito propenso a mexer com mulheres que passam perto.

Lembrei agora de um rapaz alto e moreno da Hebraica, quando eu fazia teatro amador, que uma vez pediu para eu ir na frente dele na escada dizendo na lata que “queria ver o movimento”.

Então está ali esse grupo do tipo que fica dizendo coisas desagradáveis, mas eu não me intimido, pois o que queria era pisar no piso de revestimento de tons variados de marrom, quase como se fosse um Yellow Brick Road.

No que desço a rampa, ainda estou no interior de um shopping.

Mais uma vez localizo rápido uma saída: um terraço elevado numa casa dessas que são construídas numa rua em declive. Saio nesse patamar e à minha direita tem um terraço quadrado grande e vazio, que mesmo sendo elevado em relação a rua da frente da casa, dava no nível da rua pela lateral.

Seria o lugar normal para se deixar a casa, mas ali, de pé no meio do terraço está um homem nu, de cabelo com ar de sujo, comprido e escuro, totalmente coberto por lama ressecada, não o cabelo, o homem, e com uma cenoura no lugar do nariz. Tem também o ar de pessoa que diz coisas desagradáveis, mas de outro tipo, o tipo desses atores de rua que ficam sendo inconvenientes.

No que o vejo, imediatamente mudo de direção, e ele, vendo isso, claro que não ia deixar passar.

– Não quer uma cenoura? Você não quer cenoura?

Ele grita num tom agressivo e aquela cenoura está fálica o suficiente para ficar bem claro que que ele quer dizer.

– Não, não quero sua cenoura, eu penso.

Me virei para a parte da frente da casa, que era elevada em relacão à rua, mas, ao contrário de tantos e tantos sonhos nos quais me via diante de uma possível queda dolorida e isso me impedia de ir em frente, ali tenho como descer essa altura de uns 2 metros sentando na rampa de terra.

Assim faço, escorrego sentada e isso me dá uma sensação de que não gosto muito, mesmo que esteja super feliz em sair de lá seja lá como for:

– No fundo continuo criança, penso.

Quase me vejo ali como era quando tinha dez anos, com aquele pulôver argentino de que eu gostava, calça rancheira, botinas, escorregando na terra.

Mas essa impressão de que não me permiti virar de fato uma mulher é pouco perto do enorme alívio de sair daquele lugar.

Finalmente estou ma rua e aqui começa o trecho mais marcante do sonho.

Estou livre, é o que sinto. Quero ir para casa.

Vou para casa, mas no que chego ali do lado de fora, a beleza do entormo me atinge.

As ruas tem árvores floridas e casas bonitas. O céu está azul e úmido, como se tivesse acabado de chover. Água clara corre pela sarjeta, quase como se fossem pequenos riachos.

E eu penso comigo essa estranha coisa:

– Não quero viver minha vida como uma covarde.

E eu mesma não sei a que isso se refere. Começo a caminhar, sim quero chegar em casa, mas a beleza ali das ruas parece quase como um destino em si.

– Mas o quê quero fazer? Ficar andando por aí sem rumo?

Não entendo o que quero.

Estou indo na direção da minha casa, mas vejo uma rua à direita que sobe um pouco, pela qual vou pouco, e começo a ir por ela apenas para apreciar a paisagem.

Por um instante fico com dúvida se ela iria na direção da minha casa ou ela iria me levar para longe do meu objetivo.

Mas no que entro na rua, dá para ver que ela desemboca na mesma direção em que estaria se tivesse ido pelo “caminho racional”

– É uma rua do Pacaembu, que tem mesmo casas muito bonitas.

Então vou caminhando devagar, me sentindo segura, até que no meio da rua resolvo conferir se tenho tudo comigo.

Abro minha sacola estilo eco bag, mas de nailon, e vejo ali, ainda que tudo aboletado, pois essas sacolas não tem fundo, minhas coisas, a carteira, o celular.

Me agachei mo chão no meio da rua para fazer essa conferência, e agora escrevendo, talvez tenha sido nesse momento que eu digo isso de não querer viver minha vida como uma covarde.

Então, no que vou me levantar para seguir cminho, no chão, à minha frente, quase reluzindo, está um par de muletas de alumínio. E eu penso assim:

– Bem, tenho que levar esse trambolho comigo, posso precisar delas.

E aqui escrevendo, a impressão que tenho é que eu deveria largar as muletas lá.






NÃO QUERO VIVER MINHA VIDA COMO UMA COVARDE 

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