QUEM TEM CASA EM ILHABELA?

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7min de leitura

{8 de maio de 2026}

Meio pedregoso esse sonho. Mas inicia com um belíssimo momento.

Abro a porta e entro na kit e a visão é deslumbrante. A janela está aberta e as árvores quase invadem. Parecem mais as árvores do parque, mesmo que eu goste das árvores aqui da frente da kit. Elas brilham com uma luz dourada, uma radiância que alterna com o verde viçoso das folhas. Acho lindo. A kit está impecável. Não são somente as árvores, é que a kit está impecável. Dá uma sensação maravilhosa, inclusive porquê até mesmo no sonho eu sinto nessa cena uma mais que bem vinda confirmação de que tudo está bem e estou fazendo o que é certo com a minha vida.

Mas em seguida eu entro na kit e começo uma complicada operação de encher um copo com suco de laranja, tirando de dois containers. Um seria um tetra pak de suco, mas no que estou virando ali em um copo alto, fico na dúvida se aquilo é suco ou fanta, e tem um tetra pak de fanta, e fanta é ruim, fanta é refrigerante, não suco de laranja, mesmo que eu goste de fanta, então começo a devolder do copo para o tetra pak e a impressão então é que estou virando errado e misturando fanta com suco e começo a preencher o copo com um tetra mas achando que é fanta, se misturou não tem como desmisturar, eu penso, nem tem sentido virar de volta para o tetra pak e nisso, eu reparo, nisso de tentar meio que às pressas ter um copo de suco de laranja, estou fazendo bagunça na minha impecável kit.

Tudo está meio escuro. Há uma mesa posta, eu me sento com meus pais. Fica vago se seria a kit ou não. Não é a kit 100%, mas parece uma expansão dela.

Tem bastante comida na mesa. Minha mãe preparou essa refeição.

Uma conversa ali sem forma. Eu como. A certa altura percebo que só eu estou comendo, meus pais já acabaram.

– Demoro muito para comer, penso.

Vou me encerrando mesmo que ainda não tenha comido os bifes. Tem uns bifes acebolados numa travessa de vidro ali bem bons. Mas acho que não posso mais ficar comendo, tenho que encerrar.

Teve mais detalhes nessa parte envolvendo comida. Olho para uma mesinha na diagonal perto da parede, que tem comidas em cima, como um buffet.

– O salmão tem que jogar fora porquê fica ruim de um dia para o outro, diz minha mãe.

Salmão. E não comi nada.

– Mas como assim, não fica ruim de um dia para o outro. É só por na geladeira. Imagina jogar fora esse salmão todo, que ninguém comeu.

É o que penso, mas no fundo não me sinto com capacidade para contrariar minha mãe.

Me aproximo da mesinha para pelo menos olhar o salmão.

Minha mãe já está retirando a mesa. Mas sobre a mesinha não encontro salmão e sim uma bandeja de papelão dessas de festa com docinhos de geléia revestido de acúcar. Docinhos de diversas cores. Tudo fresquinho, tudo bonito, tudo arrumadinho.

Pelo menos um docinho vou comer. Pego um que parece figo cristalizado, um dos doces que mais gosto. E é mesmo figo cristalizado. Não um docinho de geléia, o que já seria bom, mas um dos doces que eu mais gosto.

Guias, não precisa de muito para perceber que essas cenas expressam exatamente como me sinto com a minha vida. Sensação de algo encerrando. Eu não comi nem o bife, que dirá o salmão. Mas como doce de figo, um dos doces que mais gosto. Minha kit parece mágica ás vezes. Mas eu não consigo ter um copo cheio de suco de laranja. Se insisto, bagunça a kit.

E entro na sala de aula ainda com esse estado de espírito da cena anterior, de atraso e incapacidade.

Estou como era aos 17 anos, de minissaia e cabelo curto e carrego uns livros, algo que aperto no peito, mas não é muita coisa.

Entro ali na sala de aula, e é mais para Colégio Cristo Rei que Porto Seguro, e mais uma vez me sinto sem nada. Sou uma aluna do Fundão. Vou para o Fundão com minhas coisas e me sento. Cheguei atrasada e os alunos, todos nessa faixa de 15-16 anos, estão preenchendo folhas de almaço. Parece ser um teste. Não sei de nada, como era na facul. Fico olhando ao redor procurando me inteirar. A professora, uma japonesa de cabelo escorrido médio comprimento, de jaleco branco, está ditando perguntas. Não é exatamente um teste e sim uma espécie de questionário que os alunos tem que preencher. Não fica claro o motivo, mas eu, talvez por estar atrasada, não tenho como me integrar naquilo. Fiquei de fora. Estou sempre de fora de tudo.

Minha amiga está curvada sobre suas folhas de almaço escrevendo diligentemente Todos são bons alunos menos eu.

Dou uma espiada para ver o que ela tanto escreve. Acho que pergunto algo para ela. Essa garota é minha amiga, mas ao contrário de mim, excelente aluna, então a amizade tem limites. Não posso fica atrapalhando o bom desempenho dela com minhas irresponsabilidades.

A professora tinha acabado de ditar uma pergunta que estranhei um pouco.

Algo tipo Censo. Não fica clara a pergunta, mas seria mais ou menos onde vocês moram, quantas pessoas tem na família.

Começo a achar tudo meio estranho. E então a professora formula a próxima pergunta e essa vêm bem nítida:

– Quem tem casa em Ilhabela?

– Que raio de questionário é esse? penso comigo.

As perguntas anteriores já eram meio invasivas, mas essa agora, deixava claro que aquele questionário não tinha absolutamente nada de interesse letivo.

Era um levantamento mesmo ali das posses e situação das famílias dos alunos, uma fichagem, Mas para quem?

Os alunos não contestam nada e nem levantam as cabeças, respondendo diligentemente. A professora, que caminha lentamente enquanto dita as questões, agora está perto de mim.

– Mas para quê essas perguntas? pergunto.

A professora desconversa. Não se deve questionar testes.

– Tá muito estranho isso, eu insito. Quem tem casa em Ilhabela? O que a escola tem com isso? Que mais vão perguntar? Qual o tamanho da casa? Quantos quartos tem? Qual o valor de venda?

Enquanto falo, penso comigo:

– Ponto, agora dei bandeira que sou aluna divergente. Se isso é uma fichagem vou entrar para a Lista Negra.

Mas estou aliviada de me expressar, pelo menos um pouco.

A professora me ignora. Então faço a única coisa que tenho para fazer, que é ir ficar com meu namorado vagal também.

Tenho um paquera ali na classe, que é um ator juvenil de um filme que sinto que não tenho condições de lembrar qual, mesmo que tenha a cena na cabeça, no qual esse personagem era justamente um adolescente meio rebelde, sempre de macacão de jeans, com um cabelo escuro revolto ao redor da cabeça, para falar a verdade o personagem me irritava um pouco, era vagal demais.

E a nível de simbologia, percebo que na minha vida acordada consegui a proeza de, enquanto sou uma nerd de carteirinha, dessas CDF mesmo em tudo que faço, ao mesmo tempo sou uma vagal do Fundão, pois nada do que eu faço está dando dinheiro e portanto não conta como sendo nada.

Vou até a carteira do meu paquera e me sento embolotada com ele.

E nem isso eu tenho pois entre nós a coisa nunca encaixa totalmente, nem fisica nem emocionalmente. Primeiro, por mais que eu me ajeite ali na carteira com ele, nossos corpos nunca se encaixam de jeito confortável. Vou alterando a posição, mas nunca dá certo.

Essa parte dura um bom tempo. Ele me fala algo. Ah, acho que digo para ele que acho aquele questionário suspeito e ele não vê nada de mais. Fico tentando convencê-lo. Nem essa sintonia temos. Ele me responde o seguinte:

– Mas todo mundo tem casa em Ilhabela.

Fico mais espantada com essa afirmação do que com o fato de não ter nada a ver com o que eu estava dizendo. Como assim, todo mundo tem casa em Ilhabela? Eu não tenho. Enquanto isso tento me ajeitar com ele de tudo que é jeito mas não fica bom nunca. Tem uma hora eu fantasio, pois isso não super chega a ocorrer mesmo, que ele coloca a cabeça no meu colo e finalmente encaixamos e ele me diz:

– Agora ficou bom.

Nem em fantasia gosto disso, me parece que eu viraria uma figura maternal, mas até aceito pois pelo menos é um encaixe, mas isso não está ocorrendo de verdade no sonho, seria apenas eu tentando forçar o sonho, enquanto o que ocorre mesmoé algo mais desestabilizador ainda: um rapaz gay de ar ruim, que é meio amigo do meu paquera, vem se aproximar novamente, pois ele volta e meia se aproxima, e troca umas palavras com o meu paquera, me ignorando completamente. Uma parte minha menos sonhadora me diz:

– Esse meu paquera na verdade é gay, tem um caso com esse cara e nunca, nunca foi meu namorado de verdade.

Pareço ter razão. Meu paquera em um momento se colocou por trás desse gay de cabelo rapado que tem ar mau e que está aqui na nossa frente. Por trás bem coladinho. Estou me iludindo, eu penso.

E nisso irropem pela porta da sala um grupo de alunos.

São aluno do colégio que se rebelaram. O líder deles, um rapaz de no máximo 17 anos, com uma cara sem muito cabelo e uma pele avermelhada pela intensidade da emoção, que aperta as feições dele, grita:

– Quem aqui é robô?

Tenho, acordada, uma fantasia na qual eu seria altamente capaz de identificar robôs dos seres humanos instantaneamente, pois robôs não vibram. Como no Blade Runner, um filme profético. Então penso em começar a fazer isso. Tenho certeza que a professora é robô.

E até no sonho,, em meio a esse pensamento, me espanto no bom sentido que em meio a esse contexto tão conformado como o da sala de aula, respondendo um questionário sem um instante de hesitação em compartilhar informações tão pessoais, sem nem ao menos saber com quem estariam compartilhando, exista, em algum canto, um grupo ainda dotado da capacidade de perceber o quanto isso seria estranho e mais ainda, iniciativa para se rebelar contra isso,,


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