AQUI TEM VAQUINHAS

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{26 de abril de 2026}

Meu pai, na direção do automóvel, estaciona o carro na calçada em frente a entrada de uma casa que a familia teria e que seria numa das ruas que saem da USP para pegar alu a marginal, passar por debaixo do viaduto, pegar a entrada a direita e passar por cima do viaduto na direção da Praça Panamericana. Mais ou menos, mais ou menos, onde fica o depósito Jaguaré, mas acho que não exatamente. Essa casa dava frente para a marginal, tinha umas rotatórias e canteiros de pusta que amenizavam um pouco esse contato direto com a marginal, mas de qualquer forma, ao se olhar pela janela da sala, se via a marginal naquele trecho antes de poder subir no viaduto a direita.

- Nós vamos vir morar aqui, me diz meu pai, meio acabrunhado.

- Por causa de...

E nisso, não sei porquê, não quero dizer a palavra dinheiro. Faço aquele sinal que caiu em desuso, raspando o indicador no polegar.

- Sim, diz meu pai, e também por outro motivo.

- Qual outro motivo?

Vejo que ele se atrapalha pensando em como responder.

- Sua mãe tem viajado muito, quase nunca está e...

Ele deixa a frase sem conclusão, que aliás não faz o menor sentido mas eu não procuro esclarecer pois obviamente é mentira.as não fica como mentira e sim algo que os pais muito acertadamente acham que não devem compartilhar com os filhos. Essa casa seria como que a mais humilde das propriedades da família. Então a princípio a coisa tem um tom de rebaixamento. Entramos, estamos indo ver a casa para planejar essa mudança. No que estou na sala, ainda nesse clima de "estamos passando por dificuldades financeiras*, olho pela janela da sala e através dela posso ver a marginal e esses canteiros meio vias que tem ali entre a casa e a marginal propriamente dita e esses canteiros tem gramados e vegetação e neles vejo pastando várias vacas. Como nessas periferias que começam a viram zona rural. Aquilo me dá uma sensação ótima.

- Tem vacas aqui! O que pode ser mais vida que isso?

Sim, o local é over barulhento por causa da marginal, tem muita poluição de carros, mas tem vacas, e nada é mais símbolo de vida para mim que vacas. Vacas dão leite, dão carne. Vacas gordas pastando tranquilamente em meio a aquele ambiente urbano muito pouco propício. Então penso comigo que essa casa é a melhor casa. Não tem casa melhor do que uma casa com vacas. Logo minha mãe e o restante da família chegou na casa. Na verdade a casa ainda estava alugada, nós só estavamos indo visitar pois a idéia era mudar para lá. Mas a situação que se configura é que meio instintivamente começamos a nos espalhar ali meio como se já fossemos donos. Esse sonho deve ser importante, pois eu acordei, fui no banheiro, tomei água, deitei, dormi e retomei o sonho de onde parou.

Eu entrei num quarto e fui tomar banho, como se estivesse na minha casa. Começo a tirar a roupa distraidamente e colocar sobre a cama de outra pessoa. Aqui não lembro direito a sequência. Lembro que caio em mim que aquela não é nossa casa ainda. Minha mãe surge na porta e eu digo a ela que não podemos ficar ali, logo os inquilinos vão chegar e o que vão pensar, de nos encontrarem fazendo uma festa na casa deles? Isso porquê a coisa já tinha meio que espontaneamente tomado forma de uma reunião festiva, com minha mãe pedindo para entregar comida e recebendo convidados como se fosse a dona da casa. Eu tento fazer ela perceber que isso não está certo, mas ela está naquele estado no qual não escuta o que eu falo e eu mesma não estou conseguindo ser muito convincente, uma vez que estou pelada e recolocando minhas roupas que havia tirado por quê estava prestes a tomar banho num banheiro de outra pessoa.

- Isso de tomar banho assim que chego em qualquer lugar é por sua causa, digo a minha mãe.

Como se fosse uma mania que eu tivesse adquirido por influência dela. Tento falar que temos que ir embora dali, pois a casa não é nossa, mas minha mãe me ignora sorrindo e se afasta. Está extremamente, mas extremamente mesmo ou tirar ou colocar a calcinha. Tenho que usar toda minha força, concentração e coordenação motora e só depois de um longo tempo consigo e só então posso colocar o sutiã.A calcinha é de um latex grosso, duro, não consigo fazer ela subir. Essa parte não tenho certeza se estaria pondo ou tirando a roupa de baixo, mas acho que repondo. Eu tinha tirado para tomar o banho, mas quando me dei conta de que eu estava usando um banheiro que ainda não era meu, e tirando minhas roupas e colocando sobre a cama de um desconhecido, em meio às cobertas e roupas dele, achei aquilo errado e parei.

AQUI TEM VAQUINHAS

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