{7 de abril de 2026}
A resolução mais mágica para essa saga de sonhos de uma vida inteira de me perder em bairros da periferia é…
Não estar perdida.
Dirijo meu carro e quando dou por mim, estou novamente naquela parte da cidade a qual eu sei, eu sei, que não tenho capacidade de prevalecer.
Vou tentar descrever melhor porquê acho que mesmo tendo sonhado com essa parte da cidade inúmeras vezes, ainda não descrevi direito nem para mim mesma. Na vida acordada essa parte não existe.
Seria Zona Leste, mas na vida acordada até que me oriento bem na Zona Leste.
Onde não me oriento bem é para os lados do aeroporto.
Mas seria Zona Leste, com vias já fundindo com estradas, todas iguais, aí não vejo os retornos, não sei os retornos, eu sempre tento me localizar pelo Guia 4 Rodas, algo até que tenho mais facilidade do que seguir instruções verbais, porquê o Guia é algo visual, e as instruções verbais, só consigo guardar a primeira e fico enxergando mil váriáveis e acaba que nem dessa primeira eu tenho segurança.
No que me vejo ali novamente nessas vias enormes, enormes, as placas verdes sinalizando coisas tipo Vila Dalva, eu sei que me perdi.
Na verdade não fica nítido o quê as placas sinalizam, mas eu olhar nas placas e ver que estou ferrada é parte desse sonho recorrente.
Eu olho aliu e penso:
– Ó meu Deus, Ferrou de novo.
E nesse momento tenho duas sensações que são inéditas nesse sonho tão, mas tão recorrente.
Primeiro uma espécie de aceitação. Não que das outras vezes eu entrasse em pânico, nada disso. Mas aqui me baixa algo como que uma espécie de paciência.
Me perdi novamente. Não consegui evitar. Paciência. Vou tentar me localizar pelo Guia 4 Rodas com paciência. Nunca, nunca consegui retornar desse local para minha casa, mas vou tentar e se não conseguir, paciência. Acho que deixo o carro aqui e tomo um táxi
Então eu meio que aceito melhor tudo. O fato de que não consigo evitar me perder e o fato de que não consigo me orientar ali e não vou conseguir voltar.
Entro com o carro numa das ruazinhas transversais, são poucas, pois o que domina é essa via com cara de estrada interminável, me conduzindo sempre em frente para cada vez mais distante, mais distante, mais distante…
Nessas ruazinhas começo a tentar ler as placas com nome das ruas para procurar no Guia.
Aí parece que pula direto para.
Fui com o carro por essa via, e como sempre, só me afundo em lugares cada vez mais desconhecidos e nem traço de alguma placa indicando as partes da cidade que conheço, tipo Centro, Pinheiros, Lapa.
Essas ruas desse bairro começam a ter um leve ar rural.
Estou indo com meu carro conformada, aliás, essa é a palavra certa: conformada.
Não paciente exatamente, conformada.
Estou indo com meu carro conformada por uma via que, acho que tem importância isso, tem um ar bem estruturado, com pavimento bom, casas ao redor e de repente, do nada… acaba num barranco de terra com um mato meio selvagem. Acho que tem até um decline, tipo uma grande vala de terra castanha e mato.
– Mas como que uma rua pode terminar assim, ser enganosa assim, a gente entra achando que isso vai dar em algum ligar e fazem essa falsa via aqui que não leva a nada? Não tá certo isso.
Ó Guias. Devo entender que minha vida está na mesma simbologia?
Mas como disse, estou conformada.
– Fiz o que pude. Melhor parar e tentar encontrar outra solução que não seha ficar rodando de carro cada vez mais perdida.
E então já estou numa casa nesse quarteirão que termina na vala, que tem um certo ar de posto policial.
Entro e tem uma zanzação por ali. Essa parte ficou meio confusa.
O que lembro é que parece que tem outras pessoas perdidas ali.
Esse sonho foi entremeado com algo que parece que eu não estou ali, estou em outro lugar, e já tinha rolado duas vezes mas não tem tom ruim.
A essa altura acredito que esse elemento é uma espécie de sinalizador do quanto minha vida está sendo satisfatória e se for isso mesmo, os atos são perfeitos e rápidos, bem sucedidos.
Mas isso não rola nesse lugar. Seria como se fossem dois sonhos em paralelo.
Depois da primeira vez, penso: mas eu voltei a fazer isso?
Logo rola a segunda vez e eu novamente penso:
– Bem, então eu voltei a fazer isso, ok,
Só na terceira vez é que eu me dou conta que é sonho, e que estou voltando a fazer isso apenas em sonho, o que me tranquiliza pois não quero no momento voltar a isso. Acho quel tem usos melhores.
Mas eu pergunto para um policial muito jovem de aspecto moreno escuro:
– Por favor, estou perto do Centro?
– Muito longe, ele responde.
Eu já sabia. Só queria confirmar.
– Que bairro é esse?pergunto
– Morro Distante.
As frases não são exatamente essas mas o sentido sim.
Tem algo a respeito do bairro onde vim parar. Havia dois bairros com nome parecido, um que seria um pouco mais conhecido e esse era o mais desconhecido. Não fica nítido nem a palavra Morro nem a Distante, mas o sentido era esse. Eu suspiro, conformada.
Tinha algo nisso de se eu pelo menos tivesse ido parar no outro bairro, o que tinha nome mais valorizado.
Eu vim parar no mais desconhecido dos afastados bairros da periferia, mas…
Toda, toda essa conformação não tem absolutamente nada de deprê.
Tem alguma coisa que o policial diz que deixar claro que para sair dali ia levar alguns dias. Nesse momento em que estão dizendo que o mundo vai virar Mad Max, essa dificuldade não teria nada de pós apocalíptico. Seria algo do tipo, só ter um ônibus indo para o Centro de São Paulo e ele sai de três em três dias. Algo ali da natureza daquele bairro.
Mas outra coisa se coloca. Vou olhar na janela e nesse momento, tenho na minha mão direita um punhado de uma terra preta, uma boa terra, que em algum momento eu catei do chão e na qual fico mexendo como o Gladiator.
Fico olhando para ela e me conformando com o que me sucedeu. Mas é melhor jogar a terra fora antes que faça algum esparramo.
Chego perto da janela, tanto por causa da terra quanto para olhar mesmo para fora. Tem um rapaz jovem a esquerda com o mesmo ar de perdido.
E nisso a via está uma enxurrada. A via está alagada, pouco, coisa de meio metro, mas virou um rio, por causa da chuva.
– Espero que não leve meu carro, penso.
E pergunto ao rapaz:
– Você também estacionou lá fora?
– Sim, responde ele.
Ele parece estar olhando pela janela para se certificar de que seu carro não passaria boiando.
Mas isso como que sela minha situação.
Estou mesmo temporariamente detida ali, por causa da enxurrada e deve levar alguns dias para poder coltar a transitar na rua.
Estou segura ali. Estou calma, serena e…
E.
E uma parte minha começa a gostar daquele lugar.
Olhando pela janela, vejo muita natureza, esse horizonte de morros e matas que tem mais para o interior.
– Imagina ver isso todo dia, eu penso.
Fico olhando mais um pouco e essa sensação vai se intensificando.
– Não deve ser ruim morar aqui, eu penso.
E nisso reparo que as casas da rua, daquele bairro super humilde e desconhecido, ao contrário do que esperaria, são ótimas.
As casas são grandes e boas.
Tipo casas boas do Tatuapé e Vila Carrão.
– Quanto será uma casa aqui? Deve ser bem mais barato. A vida aqui seve ser mais barata.
Nesse momento já estou cogitando vir morar ali. Só uma coisa me preocupa e nesse instante eu estou em comunicação com minha mãe, como se estivesse falando no telefone com ela.
Estou falando sobre outras coisas, talvez sobre isso de ter vindo para ali, talvez, talvez eu tenha até ligado para tranquilizar ela, não tenho certeza, mas enquanto converso com ela, penso na questão prática de vir morar ali.
– Não tem nenhum mercado, pelo menos aqui do lado direito da rua.
Será que parta o lado esquerdo tem?
Enquanto falo com minha mãe, olho pela janela até onde é possível, tentando localizar um mercado. Mas penso em ver para a rua e ver direito.
Acho que esse sonho não deve necessariamente ser levado ao pé da letra. No momento eu vivo de delivery. Mas se algo acontecer, a tal parede que a Lunatic descreveu, se algo der numa rua sem saída, talvez, talvez eu tenha ido parar num lugar onde vou ser feliz.
Quando estou nesse lugar, já me ambientando e parece que tenho já meu quarto, novamente, a coisa. Mais uma vez, perfeita.
IMAGE CREDITS JACQUES OLIVAR | ANTONIA WESSLOH | MARIE CLAIRE ITALIA OCTOBER 2013