{11 de março de 2026}
Não tenho como explicar porquê acho que os dois segmentos parecem ser parte de um mesmo todo, mas parece.
Meu pai dirige o carro. Eu me sento no banco do passageiro e a Lú vai atrás. Esse percurso, que se dava na parte mais periferia das periferias de São Paulo, Zona Leste, aquela parte que tem um monte de Radial e se você erra uma, vai parar em outra cidade. Meu pai realizava esse percurso comigo muitas vezes, muitas mesmo, e ele terminava numa espécie de clínica super alternativa de tratamento médico.
Só o fato da clínica ser num bairro tão periferia já colocaria qualquer clínica na condição de alternativa. A clínica seria de uma mulher mulata escura, meio gorda, parecida até com a Ordália, a empregada que tinha na Gregório, só que ficava em destaque o quanto ela se arrumava bem, com umas roupas meio largas estilo bata, de cores vibrantes, que eu nem gosto muito, mas de muito bom gosto nela. A clínica, apesar do local humilde, seria uma casa dessas antigas, grande, espaçosa, com essa dignidade da beleza antiga.
Tudo isso já está estabelecido assim que o sonho inicia. Esse percurso, que começa vindo de longe, mas que no começo do sonho faltaria assim uns 5 minutos para chegar nessa clínica, mas no que meu pai vira com o carro numa transversal a direita, seu olhar meio que nubla.
Sei que ele está tendo uma coisa ali por causa do Parkinson. De repente ele está incapacitado de dirigir. Imediatamente eu tomo a direção. A Lú está atrás, se fosse vida acordada, ela seria mais indicada, mas no sonho, tem duas coisas pesando, eu sei o caminho da clínica e pela hierarquia tinha que ser eu mesmo. No que começo a dirigir, tendo consciência de que não dirijo há anos, mas nesse sonho nem comparece dificuldades de trânsito, aliás, nem tem carro por ali, então está bem tranquilo, tudo gira ao redor de uma única coisa: saber o caminho.
E eu estou crente de que sei. Venho acompanhando esse percurso há anos, do ponto em que estamos, seriam apenas umas 4 viradas de rua que eu teria que pegar.
Vou o mais atenta que posso, mas ao mesmo tempo, sei que é melhor ir na intuição e que se pensar demais, vou começar a ficar na dúvida. Então sigo com o carro, logo aparece uma bifurcação e eu não super tenho certeza de que rua devo pegar, mas vou no embalo. Tem uma hora estendo minha mão para trás do meu assento e toco o braço do meu pai, que está sentado atrás de mim, para confortá-lo.
E então… acho que perdi o caminho. Não estou mais reconhecendo nada. Estaciono o carro. Não estamos muito longe. Se ao menos eu conseguisse me localizar, talvez conseguisse corrigir a rota. Mas não sei o nome da rua onde fica a tal clínica. Nunca soube. Então não tenho nem como perguntar nem como olhar no Guia 4 rodas que está no porta luvas, coisa que fico pensando que seria bem difícil, mas de qualquer forma, se eu tivesse pelo menos o nome da rua, seria caso de tentar e se esforçar para entender o mapa. Aqui a coisa fica meio vaga pois entramos numa casa acho que para pedir ajuda, as casas desse bairro são bem típicas da Zona Norte tradicional, Vila Carrão, Vila do Carmo, casas amplas, antigas, meio desgastadas, como aquela casa em que o Adriano me levou uma vez, dos parentes dele que ficavam discutindo se tinha ou não que reformar a banheira ofurô deles, mas o tamanho e a beleza da construção as tira da categoria de deprimentes. Mas todas casas muito parecidas. Meu pai, por estar debilitado, é conduzido a um quarto e deitado numa cama e então, não fica claro um motivo, eu estou do lado de fora dessa casa, tendo colocado meu pai em lugar seguro, e com meus irmãos, que são adolescentes, entramos num carro com o objetivo de resolver a questão e enquanto o carro ainda estava estacionado da calçada em frente dessa casa hospitaleira, eu resolvo descer e ir olhar não sei o que ali a alguns passos de distância e no que estou fora do carro, pela calçada chega um grupo de meliantes. Curiosamente, o grupo parece mais um grupo de estudantes saindo da escola, são todos adolescentes, menos de 18 anos, mas são bandidos. Estão com revólveres que assim como eles mesmos, não impõem muito respeito e parecem revolvinhos de brinquedos. Mas eu sei como pessoas podem ser más e não os subestimo. Por puro orgulho eles podem resolver mostrar o quanto são perigosos e o bando é grande, acho que uns 12 adolescentes. O tipo de coisa que sai fora de controle rapidirnho. Recuo dois passos. Estou perto de um muro caiado de branco desses de terreno. Mais dois passos poderia me ocultar atrás dele. Mas decido que não. Meus irmãos estão dentro do carro e não tem para onde fugir. Se algo acontecer com eles, eu penso, que aconteça comigo também. É a atitude certa a tomar.
Os bandidos acho que roubam ali os pertences dos meus irmãos, mas não o carro. O tempo todo eu estou numa oração interna para eles não matarem meus irmãos.
Até digo para umas garotas do bando:
– Por favor não matem meus irmãos.
Quando o roubo encerra, o líder ali desse grupo, um rapazinho chega para mim e diz:
– Agora entre nesse carro e dirija para longe daqui.
– Mas… eu tenho que ir pegar meu pai antes. Meu pai está dormindo nessa casa, ele está doente, tem Parkinson, não posso deixar ele aí.
O rapaz me olha, não acreditando nem entendendo muito o que estou dizendo.
Eu insisto:
– Po favor, não posso deixar meu pai aí. Ele tem Parkinson, Parkinson.
Repito botando ênfase na palavra Parkinson.
Esse segmento encerra sem que chegue a uma conclusão se eu consegui ou não convencer o bandido a permitir que eu entre na casa e realize a longa e complicada manobra de colocar meu pai com Parkinson dentro do carro, mas o que não podia acontecer, eu pensava, era eu entrar no carro, dirigir para longe sem saber jamais voltar a essa casa desconhecida numa rua desconhecida, da qual não tinha contato, e provavelmente nunca saberia retornar, e onde meu pai, sem consciência por causa do Parkinson, permaneceria abandonado, dormindo, dentro de um quarto.
E a coisa mais sutilmente forte do sonho. No meio do assalto, no meio mesmo, quando estou tomando ali essa decisão de não me salvar me escondendo atrás do muro, eu estou olhando para trás, para atrás do muro e… a casa diante da qual estou, é a casa da clínica.
– Então eu acertei o caminho, penso.
E segue no seguinte aparentemente nada a ver segmento.
Na Gregório estou eu e minha família submetidos a seguinte situação que se tornou mundial. Uma nova ordem foi imposta. Ela é dirigida por um grupo de garotas bem jovens, desse tipo esquerdista clássico, todas vestidas de abrigo de moleton, meio feiosas, super agressivas e más.
Mas nem consta uma possibilidade de reação, é assim que a coisa é e temos que nos submeter. Esse grupo de garotas invade as casa e saqueia o que quiser.
Estão na nossa casa.
Eu vou me esconder debaixo da cama da minha irmã no quarto que divido com ela na Gregório. Aqui não tem demérito nenhum em me esconder, o grupo era mau e beligerante, sem restrição nenhuma e pronto para matar a qualquer coisa que considerassem insubordinação.
Fico na dúvida entre entrar debaixo da cama da minha irmã ou da minha, pois debaixo da cama da minha irmã tem algo que parece outra cama, o que deixa uma brecha de espaço embaixo super apertada, mas porisso mesmo eu acho que ficarei mais fora de vista ainda. Me enfio nessa brecha e logo o grupo das garotas que tomou o poder entra Acho que elas até me vêem mas não se importam, o interesse maior delas é saquear. Dão uma vasculhada nos criados mudos, que são aqueles da Objeto que minha mãe comprou na vida acordada e antes de ir embora, de maldade pegam um garoto, uma criança, colocam dentro da sapateira, fecham a porta e se vão.
O menino fica gritando…
– Por favor, não me deixem aqui, não me deixem aqui.
Estou debaixo da cama mas penso que era só ele empurrar a porta que ela abriria, deve estar mesmo muito apavorado para não fazer isso. No que sei que o quarto está vazio, saio debaixo da cama já disposta a fazer algo que gosto muito de fazer: cuidar bem de crianças, principalmente as maltratadas.
Abro a sapateira e digo ao menino:
– Pronto, pode sair.
–Está com fome? pergunto em seguida.
Crianças estão sempre com fome. Penso em dar umas bolachas com leite para ele. As bolachas estão no banheiro.
Antes disso dou uma checada no meu criado mudo para ver o que foi levado.
Apesar do criado mudo ser realisticamente aquele que tive nesse mesmo quarto e que era um criado mudo dessa marca Objeto, que era como que uma Tok Stok de grife, e fazia uns móveis modernos que nunca foram do meu gosto, mas minha mãe comprou com o maior orgulho, mas dentro da grande gaveta as coisas seriam essas que estão na minha mesa de vidro aqui na kit.
Essa caixa de metal já bem escurecida da Morning Glory, com uns dinheiros dentro.
Dou uma verificada. As esquerdistas levaram o dinheiro que estava solto, mas nem olharam dentro da capinha de CD, que seria essa que o Luciano me trouxe com 1000 reais dentro. Esse dinheiro foi poupado.
– De maneira geral, penso, elas levaram menos do que deixaram. Ainda tem os dólares que estão com minha mãe, agora é caso de juntar tudo e esconder em lugar seguro, como o judeus fizeram na Segunda Guerra.
Enquanto isso vou processando as novas diretrizes dessa Nova Ordem Mundial, que no sonho eu chamo dessa forma mesmo,Nova Ordem Mundial. Essas meninas raivosas tinham direito a saquear o que quisessem. Não havia defesa contra isso.
Além disso, e esse é o ponto mais significativo desse sonho que eu sinceramente não acho que tem mesmo a ver com a Nova Ordem Mundial da vida acordada, havia sido implantada de forma autoritária e arbitrária algo como que um crédito social invertido.
No crédito social chinês, se você faz algo que vai contra o que o Governo quer que você faça, perde pontos. Mas no sonho havia sido instituído que:
A pessoa tem que fazer uma coisa muito boa acontecer na vida dela, tipo essa noção de “dar certo na vida”, e só conseguindo isso é que a pessoa tinha direitos como aposentadoria, por exemplo. Eu escutava, ou melhor, repassava em pensamento o que tinha escutado desse novo regulamento:
– A pessoa tem um prazo para casar. Se não estivesse casada dentro dessa prazo, aí perdia um monte de benefícios.
No sonho eu estou indo na minha rota de sempre, sem a menor, a menor intenção de me encaixar nessa Nova Ordem, apenas desviando dos obstáculos, mas ciente de que os obstáculos estavam maiores. Isso de casar por exemplo. Certamente eu não ia sair correndo para casar com qualquer um, como provavelmente várias pessoas iriam fazer. Iria ter que pagar o preço. Tudo isso eu penso em segundo plano, pois meu foco principal está em cuidar do menino. Levo ele até o banheiro e pego ali no box do chuveiro, que é onde parece estar guardada a comida, o que tenho a oferecer para ele: bolachas Traquinas. Coloco três em um prato e dou para o menino que se transformou em uma moça de olhar meio contestador.
– Mas você não está comendo essas bolachas, né?
Eu não como bolachas para controlar o peso. Não ligo muito para o tom de contestação da garota, pois me parece que ela ainda é o menino, só que no corpo da garota. Estou mais é pensando que não tenho comida estocada, nem para o menino nem para mim mesma.
– Vamos no supermercado comprar comida, eu digo. Isso não tem novas regras, ou tem?
A menina, que era mais informada que eu sobre essa Nova Ordem Mundial, responde que não.
– Ótimo, pelo menos isso continua igual. Vou no supermercado com o garoto e meu cartão de crédito e compro a comida. Esse é o primeiro passo. O resto vamos vendo.
Mas agora escrevendo, o que mais me incomoda nesse sonho é a total e absoluta falta de opção de reagir. Essa Nova Ordem Mundial era ainda mais opressora e injusta e predatória do que a Ordem em que vivemos agora, na qual existe sim um regulamento, e as pessoas são sim cobradas e recompensadas e punidas em relação ao quanto “dão certo na vida”, mas com liberdade, ou pelo menos mais liberdade de escolha do que essa situação do sonho.
Mas esse sonho ecoa justamente o que mais tenho pensado e o que ontem me pareceu, pela primeira vez em toda minha existência, ser a causa profunda dessa desregulação dos xixis: eu dei certo na vida?
O copo me parece ou metade cheio ou metade vazio.
IMAGE CREDITS STEVEN KLEIN | RIHANNA | W MAGAZINE SEPTEMBER 2016