SONHO DO NIVER

1
5min de leitura

{14 de setembro de 2025}

Começa já no meio da encrenca. Estou nessa casa tendo que resolver a seguinte questão. Tenho ali comigo um armário que poderia ser descrito como uma redução desse meu armário de espelho. Ele teria mais ou menos 1,8 m de altura e uns 50 cm de largura. Não tinha espelho. Mas era esse estilo. Eu havia coletado esse armário da casa do E.. Muito difícil explicar essa ação. Não havia sido um roubo, mas tecnicamente quase que sim, já que eu havia pego esse armário da casa dele, sem pedir permissão a ninguém. Mas curiosamente isso em nada pesava no sonho. O que pesava era que o E. havia guardado dentro desse armário uma jóia preciosa dele e então, sem saber disso, eu havia levado a jóia junto. Devido a esse fato, do qual ele estava totalmente ciente, tornara- se urgente que eu devolvesse o armário e essa era a questão a qual eu vinha me dedicando já há dias sem sucesso. Ficava aquela coisa de ver carreto, 99 entregas, e eu vendo e vendo e a coisa não andava. Achei esse sonho muito triste para um sonho de niver mas mesmo eu nem tendo chegado na parte triste, por incrível que pareça não fiquei abalada pelo sonho. Paralela a essa situação, estou ali na casa convivendo com a minha mãe, que não é a minha mãe da vida acordada e sim uma mulher jovem até um pouco parecida comigo mas de cabelo curto. Gosto muito dessa mãe. A partir desse ponto não tenho mais certeza da ordem das coisas. Essa questão de devolver o armário no sonho é muito mais difícil do que seria na vida acordada. E numa das brechas, acho, vou até essa minha mãe e digo que na manhã seguinte vou não sei onde, e isso seria uma resolução em parte ligada ao lance de devolver o armário e essa minha mãe, ali do outro lado de uma grade de metal de meia altura, lidando com as coisas dela, me aprova, se mostra animada com minha ideia e então diz:

- Não vou com você.

Nada tinha de ruim nisso da parte dela. Ela tinha coisas para fazer. Mas eu fico arrasada. Até no sonho me impressiono com o quanto aquilo me deixa triste. Então, e parece que agora escrevendo me voltou um pouco a sequência, eu tenho uma idéia que ainda não tinha me ocorrido: pedir para o E. vir buscar o armário. Ele tinha carro e tudo. Essa situação seria como se eu fosse pedir a ele algo agora, depois de tanto tempo de separação. Me sentia igual a sempre, como se nada tivesse acontecido, mas era capaz de me dar conta de que para ele podia não ser assim. Esse plano me anima por um momento porque seria um motivo para voltar a falar com ele, algo que no fundo, isso ia ficando cada vez mais claro, eu desejava muito mesmo. E aqui a coisa embola de um jeito que até nem tem muita lógica para ser descrito.

Estou ali de pé no quintal de caquinhos da Gassipós e segundos depois de ter essa idéia e me animar com ela... nem sei como descrever. Seria como se corresse um fluxo de sentimentos desconectado de fatos que mostrassem ou tornassem impossível executar essa coisa simples que seria entrar em contato com ele e pedir para vir buscar o armário, coisa que a princípio seria do interesse dele. Mas sou quase que arrasada por um fluxo de emoções muito tristes e desalentadas, agora me veio uma comparação, como se eu experimentasse toda a frustração e rejeição que senti na relação com ele ao longo de 15 anos em 3 segundos.

Penso comigo que não adianta nada ficar maquinando um jeito de fazer ele vir buscar o armário, como entrar em contato, o que dizer, pois mesmo, mesmo que eu a muito custo o convencesse a fazer isso, não mudava absolutamente nada. Ele não me queria. Se quisesse já teria vindo atrás, ou do armário ou de mim. Que que adianta eu ficar forçando uma ação que não iria nunca significar o que eu desejava, que era justamente ser desejada. E ali de pé, me sentindo quase que dilacerada por essa dor, tenho esse pensamento lúcido de que mesmo sendo essa dor da rejeição quase insuportável e algo que eu me via quase disposta a tudo para extinguir, será que o contrário iria me fazer feliz? Me relacionar com ele estava me fazendo mal. Eu lembrava disso perfeitamente. Tomada por esses sentimentos bem ruins, vou até o interior da casa , para junto dessa minha mãe que era meio que eu e não sei dizer se de fato eu penso em fazer isso ou faço mesmo, que seria me dobrar de barriga sobre esse peitoril- grade de metal pintado de branco e chorar desesperadamente. Estou meio sem saber para onde correr para atenuar aquela dor.

– Eu podia escrever uma carta e botar no correio, penso.

Essa idéia confusa e meio sem sentido serviria apenas ao propósito de adiar o que eu sabia ser inevitável, o confronto com o término daquele fluxo sem esperança de amor por alguém que não me ama de volta e para ser honesta, nem sei se eu ficaria feliz se amasse.

Então acabo meio que espontaneamente focando na única coisa ali que é passível de resolução: a devolução do armário. Tem um momento no meio dessa trajetória toda interna de sentimentos em que eu vejo algo muito cômico, digno de um episódio da série, isso do E. ter resolvido guardar a jóia no armário e eu sem saber ter trazido o armário. Mesmo agora escrevendo, sinto isso. Mas nem tem graça.

Mas quando assenta minha tempestade de emoções, resolvo fazer o mais simples, que seria ligar na casa dele. Ele ainda estaria morando com os pais dele aqui em SP. Ligo e falo com a mãe dele, peço para chamar o E.. Escuto a mãe dele falando com ele. Escuto sua voz meio indistinta respondendo. E mesmo com todas as minhas percepções sensatas sobre o assunto, me pego muito emocionada antecipando falar novamente com ele.

IMAGE CREDITS ÉLIO NOGUEIRA | VOGUE PORTUGAL DECEMBER 2024

SONHO DO NIVER

Comentar
Facebook
WhatsApp
LinkedIn
Twitter
Copiar URL