{18 de agosto de 2010}
Não dei muita bola para esse sonho, mas ele é tão um contraponto ao sonho do botão que não abria...
Sou de uma companhia de teatro. Tudo é tão, tão real, que parece uma lembrança de uma vida antiga. Eu sou ligeiramente outra pessoa. Sou relativamente jovem, pelo menos a mais jovem da companhia. Nas peças faço papel romântico. Estou na coxia, esperando para começar a peça, que é feita por uma entrada minha. Estou insatisfeita, mas não me dou muita conta disso. Meus pensamentos superficiais giram em torno de que posso fazer qualquer coisa no palco, que isso não faz muita diferença na peça, então minha performance não me provoca tensão, o que não chega a ser uma coisa boa, porque é meio como se nem chegasse a ser arte o que eu fazia, era só um entretenimento. E nisso o sonho é bem real, aquilo não é um teatro muito sério, Shakeaspere. Somos uma companhia de um tempo meio antigo, mas uma companhia meio mambembe, itinerante. Também penso vagamente que ali no palco, sob as luzes , devo parecer mais jovem e mais bonita do que sou realmente, o que me agrada, mas por outro lado, não posso ser vista fora do palco. Todas essas coisas são pensadas de um jeito muito frívolo e superficial, mas representam insatisfações profundas minhas: estar ali, sem ser mais tão jovem a ponto de poder perder tempo, fazendo algo que não tem nenhum sentido real, nem para mim mesma, nem para os outros. Uma coisa sem futuro.
Mas não chego a encarar isso seriamente. Tenho, em parte por causa do teatro, uma postura meio “ rebelde”, “artista” que justamente acha que é besteira ter preocupações, isso é coisa de “burgueses”, esse tipo de conversa. Então não levo a sério o que eu mesma sinto. Faço a minha entrada, que consiste em cruzar o palco na diagonal e ficar parada no canto do palco olhando sobre a platéia com uma expressão perdida, porque nessa peça faço papel de uma mulher que enlouquece, e na verdade aquele é o fim da peça, depois retoma e começa a contar a estória dela desde o começo. Era uma estória bem convencional, acho que ela enlouquece por amor, algo assim. Essa minha entrada sempre provoca efeito, porque é muito inesperada, ninguém entende o que vou fazer. Então fico sustentando meu personagem de jeito mais ou menos bom. Se eu me esforçasse mais, conseguiria ser uma atriz melhor, mas mesmo essa idéia de esforço está também fora dessa maneira de pensar. É como se “se esforçar” também fosse contra essa imagem de “artista” na qual a trupe , ou talvez eu, principalmente, me incluía.
Então se me perguntassem: mas você não gosta de atuar? Já que está fazendo isso, porque não procura dar o melhor de si? Eu responderia, sinceramente: isso nunca me ocorreu.
Era uma inconsciente mesmo. Então volto para a coxia, onde devo me trocar para fazer minha próxima entrada, na qual vou passear de braço dado com meu par romântico.
Mas tem tempo de sobra, nem isso me aperta. Vou até meu camarim, que tenho que atingir passando por umas portinhas desconfortáveis, que nem no barco do filme O arco. Aquilo é a única coisa que me incomoda conscientemente, não enxergo revestido de uma pretenso glamour da vida de artista. Como somos uma trupe meio mambembe, o teatro também é, e as coxias são precárias, os camarins apertados e improvisados, com aquelas aberturas meio improvisadas também.
Penso: graças a deus não tenho muitas trocas de roupa nessa peça. Mas no fundo mesmo penso assim: até quando vai ser suportável e mesmo fisicamente possível se enfiar o tempo todo na pressa por essas portinhas?
No camarim, tenho um momento inesperado de angústia, quando por um instante não sei se preparei meu figurino, ou se vou ter que sair correndo atrás disso também, pela coxia. Mas com alívio vejo a arara com as roupas das mulheres, com meus dois figurinos lavados, passados e colocados em cabides dentro de sacos de lavanderia, da forma mais organizada e cuidadosa possível. Aquilo me deixa feliz comigo mesma. São dois vestidos. No meio daquela insatisfação toda, tenho uma certo prazer em vesti-los, porque são bonitos, e eu, como mulher, gosto de me arrumar. A peça é tão tanto faz, que tanto faz qual vestido eu use primeiro, então pego o que acho mais fácil de vestir, e remotamente, talvez o outro seja mais bonito e eu queira deixá-lo para o fim. É um conjunto de saia e blusa de dama antiga, em cetim marrom. Tem um chapéu também, que arremata tudo e faz aquele conjunto, que já está bem usado, parecer luxuoso. Começo a me vestir, e aqui vem as coisas simbólicas e que não entendi bem do sonho. Visto a roupa sobre o corpo nu. Uma novidade, sempre tenho mil roupas, que não saem, etc. Estou sem sutiã, outro contraponto ao sonho do botão que não abria. Visto a saia, coloco a blusa, e começo a abotoá-la. Pelo muro, porque nesse momento a coxia é como o quintal de uma casa, vejo meu vizinho, um senhor ainda jovem, arrumando o jardim. Bem leviana mesmo, eu me viro para ele e continuo a abotoar a blusa, no fundo querendo excitá-lo. Espero que ele vá ficar interessado, mas ele tem uma reação que eu não esperava: vira de costas, meio recatadamente.
Agora escrevendo, me passa pela cabeça se isso não seria um sinal de que eu não estava, ou pela idade, ou por outra razão, tão atraente quanto imaginava. Mas sendo bem honesta, no sonho, na hora não sinto nenhuma conotação nesse sentido. A idéia era que o homem, para minha surpresa, era um homem “de bem”. De bem demais para o meu gosto, talvez. Mas então minha atenção vai para o fato de que, embora esteja tentando já há um certo tempo, não consigo abotoar os botões. Achava normal um pouco, afinal a blusa é bem gasta, está tudo meio laceado. Mas vejo que é mais que isso: os botões estão todos lascados, pela metade, e não se seguram nas casas. De novo, radicalmente oposto ao sonho do botão que não abria. Aquilo então me dá o que nada até então tinha conseguido: um momento de pânico e apreensão. Tinha bastante tempo para me arrumar, mas já tinha gasto bastante dele tentando fechar aqueles botões, e nada indicava que fosse conseguir. Estou andando pela coxia, e vejo o grupo dos outros atores mais velhos sentados juntos, jogando cartas, esperando sua vez de entrar. Do palco vem um barulho de luta a espada, o que, há poucos instantes, tinha me feito pensar:
Nossa, mas essa peça tem luta de espada, é o mais fuleira que poderia ser mesmo.
E nisso mais uma coisa que eu nem me dou conta de que gostaria se vai: a vontade de que pelo menos a peça fosse boa.
Mas vejo o grupo e falo, com urgência real na voz:
– Alguém por favor me ajude!
Uma das minhas companheiras de trupe, uma mulher de cerca de 45 anos, daquele jeito mais senhorial das mulheres dessa idade da época, se levanta e vem. Ela é gordinha, está de coque, tem a aparência de uma fada, ou de uma gnoma. Eu falo que não estou conseguindo abotoar a blusa, e ela pega e começa a abotoar, nisso se saindo mais que eu, e então, faz o comentário mais inesperado.
Olhando os botões lascados e pela metade, ela diz:
– Nossa, mas alguém roubou os botões originais.
Fico totalmente surpresa. Achava mais que natural os botões estarem naquele estado, afinal a blusa era antiga, e havia sido usada sem dó anos a fio. Mas então não era isso?
A atriz continua:
– Eram botões caros, de pedrarias. Alguém roubou para vendê-los e trocou por esses.
E aquele é o único traço de dignidade que encontro naquela situação. Haviam botões tão caros e preciosos, que alguém quis roubá-los. E porisso, só porisso, a blusa não fecha. Não é que não fecha porque está em deterioração, como tudo o mais ali, mas porque os botões preciosos foram roubados.
IMAGE CREDITS GIANPAOLO SGURA | SAM ROLLINSON | VOGUE GERMANY FEBRUARY 2016