{16 de fevereiro de 2026}
Se tem uma coisa que não me considero é artista.
Freddie Mercury era artista. Basquiat.
A melhor definição que cheguei do que eu sou é que eu sou muito, muito criativa, mas o que crio não chega a ser arte.
Não que isso me chateie.
Há essa piscina olímpica coberta, um lugar sombrio. Mas a água é limpa e morna, Estou eu e minha família ali, mas talvez somente a ala feminina da família. Eu, a Lúcia, minha mãe e minha avó, que curiosamente parece uma versão mais velha da minha mãe. Estamos na água e apesar do lugar ter sim esse tom meio dark, eu estou curtindo muito estar na água e estou tranquila e bem.
E então vejo minha avó, que está de touca de natação de borracha, emborcada na água
Grito:
– Mãe, a vovó!
Corremos ou nadamos todas para ela e a desviramos. Ela não está morta.
Mas então minha mãe, olhando uma coisa de ginástica que não sei como que chama, uma espécie de prancha vertical com uns varais de madeira de alturas crescentes e a pessoa segura ali e faz streches ou planta bananeira como a modelo da foto. Está bem perto da borda da piscina e tem várias cordas brancas de náilon dependuradas.
– Vamos içar a vovó nas cordas, minha mãe fala.
Não tem parâmetro disso na vida acordada, mas era uma ótima idéia.
O objetivo não era tirar minha avó da água, apesar de que por tabela aquilo seria feito, mas sim que o alongamento através das cordas iria fazer bem a ela fisicamente, pois ela tinha se afogado ou quase isso, por estar muito fraca.
Fico muito empolgada com a idéia, admirada com a esperteza da minha mãe e me ponho a ajudá-la.
Esse sonho pareceu longo mas foi isso e a outra parte.
A outra parte era assim.
Estávamos eu e meu grupo, agora aqui de amigos, sem familiares, tendo que ir embora dessa quadra coberta que seria o mesmo complexo esportivo que teria a piscina coberta.
Não era uma fuga, mas seria como que uma excursão, tinha hora para sair dali.
Estou sozinha na quadra quando vejo algo que até então não tinha notado.
Um panfleto anunciando um concurso de Arte.
O insta está cheio de concursos de arte, a grande maioria apenas golpes de fazer a pessoa pagar taxa. Sem valor artístico nenhum.
Mas esse era um concurso muito sério de uma instituição que até mesmo eu respeitava. Uma instituição européia.
E me vem um impulso de participar.
A coisa teria mais dignidade se não fosse algo de ultimíssima hora, quase um capricho, e eu tivesse que entrar com o que desse para fazer.
Tinha uns minutos livres ainda, tinha as coisas que eu estava mexendo e, com aquele meu treinadíssimo modo de funcionamento de “tenho 20 minutos, o que dá pra fazer em 20 minutos?”, olho ao redor, olho para as coisas que tinha ali na quadra, aliás nem fica configurado se seriam minhas ou não e penso que o que daria para fazer em 20 minutos seria uma instalação artística.
Na verdade se tem algo em que sou boa é em juntar qualquer coisa e fazer ficar bonito, então a idéia não era tão picareta assim.
Há uma mesa, há essas coisas, objetos variados nada a ver, e eu me ponho a arrumar sobre a mesa, começando por colocar uma garrafa com uma flor em cima da lateral da mesa. Isso até faço com algum cuidado e capricho, investindo frações de segundos em equilibrar a garrafa num toco de tijolo, mas meu grupo entra na quadra já em movimento de retirada e eu percebo que tenho que finalizar a instalação em minutos.
Tem uma pilha de coisas no chão formando uma pilha mesmo, e eu decido transpor a pilha para sobre a mesa, mantendo aquele formato de pilha.
Começo a fazer isso e grito para meus amigos virem ajudar.
Até mesmo no intuito de encerrar logo aquilo, pois temos que ir embora como um grupo, eu não poderia ficar para trás, eles logo vêem e colocam a pilha sobre a mesa. Pronto, minha arte, que se constitui de uma pilha de coisas com uma flor na garrafa ao lado. Está finalizada.
Mas ainda tenho que preencher a ficha de inscrição, senão não estarei inscrita.
Estou naquele modo eficiência e rapidez máxima.
Pego a ficha de inscrição, que é grande como uma folha A3 na horizontal, amarelada com textos em marrom dourado.
– Uma caneta, uma caneta, eu grito, chacoalhando a mão com a lapiseira que tinha comigo.
Mais uma vez sou prontamente ajudada e um dos meus amigos me dá algo que a princípio parece outra lapiseira de grafite, mas quando começo a escrever percebo que é tinta
– Meu amigo não iria se enganar, eu penso.
E nisso vem a cena mais impactante do sonho.
A ficha de inscrição é extensa, quase que um currículo, e curiosamente horizontal, como um menu de restuarante.
Aquilo me desanima um pouco mas mantenho o foco e o ritmo, mas…
No que vou lendo o que tenho que preencher nas linhas pontilhadas, são coisas que, primeiro, não são perguntas básicas tipo nome, endereço, são perguntas que tem que ficar pensando para responder e, segundo… não estou entendendo as perguntas. Não entendo o que estão perguntando e não tenho tempo de ficar pensando.
Penso em chamar um dos meus amigos para me ajudar, mas não dá tempo. Encosto a caneta na linha pontilhada disposta a escrever qualquer coisa, mesmo que a quantidade de linhas pontilhadas que tenho que preencher me pareça uma coisa de hora, não de segundos. É natural que um concurso sério exija qualificações minuciosas, eu penso, mas não dá tempo.
E nisso percebo outra coisa. Eu encostei a caneta em uma das linhas pontilhadas e estava disposta a escrever qualquer coisa e fosse o que Deus quisesse, mas a caneta não está escrevendo. Eu forço um pouco e nisso percebo outra coisa. Cada linha pontilhada que vinha ao fim de cada uma das complexas e longas e enigmáticas perguntas já tinha um texto escrito numa fonte handwritting, num tom de cinza claro.
No começo eu achava que seria tipo como algumas lupinhas de search terem algo digitado ali no box, para ser bem didático para o usuário, tipo, olha, aqui você escreve uma palavra, e normalmente quando a gente começa a digitar a palavra some. Mas ali, com a caneta não escrevendo e eu sentindo aquilo quase como quando a gente digita algo em alguma tela e a palavra “não entra”, talvez aquele texto não fosse algo para ser sobrescrito e sim… a ficha já estivesse preenchida.
Na verdade, olhando com uns segundos a mais de calma, me parece que tem bem mais chance de ser isso, pois o que está escrito nas linhas pontilhadas não é um texto genérico e sim respostas e informações detalhadas sobre mim.
– Mas como, como que podem já ter preenchido minha ficha de inscrição?
Será que o esquema é esse e só tenho que assinar? Não dá tempo de entender, vou só assinar.
Mas quando procuro o lugar da assinatura final, até isso já está preenchido.
Está escrito assim:
Silvia Rocha Campos, artista.
Fico tão confusa e surpresa que até esqueço da correria.
Dou uma olhada melhor num grande bloco de texto preenchido na linha pontilhada e leio o seguinte:
Silvia Rocha Campos estudou em Florença, etc.
– Como assim, nunca estudei em Florença.
Não tenho certeza, mas acho que eu pego essa ficha de inscrição, deixo sobre minha instalação e vou embora.
Dias depois lembrei de um trecho muito legal desse mesmo sonho.
Estou com minha mãe numa cozinha.
Minha mãe está numa atitude complicada de descrever.
Assim como eu tinha feito a minha instalação “do jeito que desse”, minha mãe está com uma concha de sorvete, fazendo bolas de sorvete de creme da Kibon, meio depressa demais, não exatamente como se tivesse um prazo, mas como por algum motivo, ela tivesse que produzir aquelas bolas ”do jeito que desse”.
Ela fazia as bolas e colocava direto no freezer de uma geladeira que estava aberta. Assim como eu tinha feito uma pilha de coisas, ali dentro do freezer da geladeira, que teria assim um tamanho parecido com o da minha, já havia uma pilha de bolas de sorvete de creme, o que não deixava de passar uma impressão de abundância, mas por outro lado, se tem algo porcaria é o sorvete de creme da Kibon. Enquanto realizava essa atividade sem hesitar um segundo, minha mãe me falava assim:
– Filha, aqueles bombons que você fez fizeram muito sucesso e até agora tem demanda Você devia fazer mais.
Eu havia feito, num passado recente, alguns bombons caprichados, desses com cara de loja de chocolates mesmo, confeitados. Dava um certo trabalho e era algo mais lento. Minha mãe, de um jeito até bom e maternal, me incentivava a fazer mais, pois seriam vendidos.
Guias, tendo acrescentado essa parte no sonho, minhas atuais conclusões são as seguintes: o sonho parece querer me mostrar que venho fazendo uma pilha de coisas “meio do jeito que dá”, no intuito de com isso talvez me definir como artista. Minha mãe, que representa esse meu lado empreendedor racional consciente, está ali produzindo uma abundância de coisas doces, mas de qualquer jeito e é um sorvete de creme da Kibon, que é praticamente isopor com açúcar. Mas ela menciona algo que eu fiz que não foi desse “qualquer jeito”. Uns chocolates bem gourmet. E que era isso que eu deveria fazer.
Guias, sou obssessivamente caprichosa em tudo que faço. Não estou fazendo nada de qualquer jeito. Se meu entendimento do sonho estiver correto, me ajudem a ver o que seria isso na vida acordada, pois muitas vezes e muita vezes mesmo, vim a perceber que estava completamente equivocada sobre como eu enxergava algo da vida acordada, então pode ser sim, que eu esteja fazendo essa “pilha de qualquer jeito”, enquanto deveria estar fazendo os caprichados chocolates.
IMAGE CREDITS ELLEN VON UNWERTH | CRYSTAL RENN | SCHON MAGAZINE ISSUE 17