{12 de fevereiro de 2026}
Véspera do alardeadíssimo reset do Zero Graus e dois sonhos que não compõem um todo, não sei explicar como sei disso. Eu sinto. O primeiro é esse até poético. Havia esse lugar muito dificil de descrever, pois não seria propriamente um parque, não tinha vegetação. Não era a chácara do meu avô. Era um descampado barrancoso de elevações moderadas, de pedra meio alaranjada e uns trechos de terra mesmo, tudo natureza pura, nenhuma interferência humana. Aliás racionalmente podia se dizer que era algo tipo o Parque do Varvito em Salto, que meu pai fez sei lá o quê, acho que ele descobriu um lance lá que provava algo de Geologia, acho que provava que antes aqui era gelo ou que provavq que a América era parte da África. Provava algo importante e então o prefeito de Salto fez um parque ao redor dos barrancos prova da tal coisa, mas era isso que o parque tinha, barrancos. Isso só para dar uma ideia de como era esse lugar do sonho, mas não havia nada no sentido de que fosse o tal parque do Varvito.
Eu, meu pai e um cachorro meio raça policial havíamos estado nesse lugar tipo anos. Ficava bem difuso isso, pois não seria como se morássemos no parque, mas como se por anos tivessemos passado lá quase que o tempo todo. E esse parque iria ser fechado e poeticamente soterrado em neblina. Tem um filme em que uma cidade na Itália, por causa de um lance relacionado a uma represa, era evacuada pois iria ser submersa em água, e em uma das casas uns moradores, acho que uma moça, permanecia morando com a casa já com quase um metro de água. Aqui era a mesma coisa. Por algo administrativo da cidade, o parque seria desativado e, algo impossível de acontecer na vida acordada, a prefeitura iria soterrar o parque em neblina, um denso fog branco. Meu pai, eu e o cachorro eramos os últimos a deixar o parque, no último dia em que estaria funcionando ainda. O sonho já inicia com nós três no processo de ir embora, andando sobre aqueles barrancos e pedras todas, algo equivalente a fazer um costão na praia Está sol, mas agradável e eu consigo andar com facilidade ali, e meu pai também. Meu pai está numa atitude de ver tudo pela ultima vez, e anda depressa por todos os cantos que tem detalhes geológicos que ele amava. Eu estou focada em ir embora e precavida de que aquilo não vire uma situação de perigo, caso, por exemplo, meu pai suma de vista ou caia e se machuque. Mas, até quase como querendo me mostrar o quanto eu estava sendo paranóica, nada de ruim ocorre. Estamos sim indo em direção a saída, mesmo com todas as paradas e voltas de meu pai e do cachorro, que em uma hora pára e começa a cavar o chão desesperadamente e meu pai, de fora do quadro, me grita:
- Ele está tentando achar o sapo que ele enterrou aí, para levar com ele
- Ah, digo eu.
- Não deixe, continua meu pai, sempre de fora do quadro, quase como uma voz incorpórea. O sapo é venenoso.
Com isso eu afasto o cachorro da escavação. Meu pai ainda dá uma última sumida, dando margem a mais fantasias paranóicas minhas sobre ele cair, ficar imobilizado e nós ficarmos presos ali, sendo soterrados pela neblina no dia seguinte. Mas meu pai logo ressurge, está forte, enérgico, o cachorro o acompanha, outra fantasia paranóica minha era de que o cachorro iria sair correndo se embrenhar no parque, meu pai iria atrás e os dois sumiriam. Mas nada disso ocorre. Estamos indo rumo à sa∑ida e nunca, nunca mais veremos esse parque novamente e, já proximo do porta do parque, tenho minha última fantasia sinistra. De que eu, eu, por um impulso mórbido, iria me deixar permanecer ali sozinha, e no dia seguinte ser soterrada pela neblina branca, que não iria me matar, mas iria para sempre me deixar presa naquelee poético parque perdido em nuvem, como uma fantasma.