A DISPUTA ENTRE DOIS LADOS QUE EU NÃO QUERIA 

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{15 de fevereiro de 2026}

Bem, aqui estamos no Ponto Zero Graus. Até agora nenhuma novidade.

O que mais me chama a atenção nesse sonho é o quanto ele é coerente e poderia perfeitamente ser uma situação da vida acordada e justamente, também me chama a atenção o fato de nunca ter sido.

Eu havia iniciado um projeto de filme ou seriado, fica mais ara seriado, através de uma produtora de porte médio, o jeito tradicional de fazer as coisas, que tentei por muito tempo. Tudo estava muito natural, sem nada de nossa, enfim consegui, nada disso. Já tinhamos feito algumas gravações, realizadas no espaço dessa produtora, que tinha umas amplas salas amareladas vazias, muito propícias para filmagens. Agora escrevendo, outra coisa que chama a atenção é que estou ali numa dessas salas realizando uma gravação, mas não constam atores nem equipe de filmagem. A única coisa que está ali comigo é a equipe da produtora, que exerce funções a princípio mais de administração da coisa toda. Essa equipe da produtora seria constituida por uns 4 oi 5 rapazes bem do meio mesmo, na faixa dos 30 anos, sendo o principal ali um rapaz de rosto bonito e cabelos densos e negros. Mas a dona do projeto e diretora era eu. Pois bem. Está aquela forma de funcionamento com equipes com várias pessoas, coisa que só experimentei em parte na gravação do Quem Você Mais Deseja, mas não reproduz aquilo, apenas fica algo super sutil no fato de que eu, que no sonho nem pareço ter consciência de estar, na vida acordada, fazendo tudo sozinha e achando ótimo, esse sonho é cheio de detalhes como esse, ma verdade são coisas meio sem graça e mesmo esse sonho não é dos mais interessantes, mas foi tão, tão nítido, que acho que tenho o dever de registrar todos os detalhes. Pois bem, eu tenho uma sutil consciência de que as coisas rolam um pouco mais devagar por que tem mais pessoas ali, sendo que em momento nenhum fica colocado o quê exatamente essa equipe de 4 membros da produtora está fazendo, já que eu estou fazendo tudo. Mas a coisa está indo, até que entrar pela porta uma mulher com ar de autoridade criativa. Seria uma mulher ainda jovem, mas com ar de meia idade, meio gordota, de cabelos curtos encaracolados formando um capacete de cachos ao redor de um rosto já bem redondo e acolchoado, óculos redondos de aro grosso meio vintage e uma roupa de ar caro mas feia.

Essa mulher, e isso fura um pouco com a tal coerência do sonho, baixa ali e começa também a exercer alguma função de autoridade em relação a gravação, que também não fica clara qual seja. O fato dela entrar do nada é que fura com a coerência, mas o fato dela ficar meio que sem que se defina o que ela estaria fazendo, mas fica definido que seria algo importante, não poderia ser mais realista de como funciona uma produtora, na qual no geral as pessoas não fazem nada que se perceba de tão útil ou importante assim. Mas novamente, eu estava no comando, não seria como a situação que vivi na Bossa Nova, na qual fui sendo colocada de fora do meu próprio projeto. Mas aqui nesse momento inicial desse sonho que acredito ser uma metáfora de alguma outra coisa, e não um sonho sobre gravações, eu estou meio inconsciente, no sentido de que não questiono nada.

Ai entra essa mulher, que não seria da produtora, mas sua presença ali seria justificável, e começa a também fazer nada com ares de grande autoridade e importância. E algum tempo depois, aliás estou começando a achar esse sonho engraçado, começa a haver conflito entre essa mulher e a equipe da produtora, sobre qual dos dois lados deveria estar ali. Eu disse que estava numa atitude inconsciente, mas o mais certo seria dizer que eu estava achando que aquelas pessoas que tinham produtoras com escritório, CNPJ e nota fiscal deviam saber o que estavam fazendo e sua forma meio complexa de funcionar, já que para mim eles não estavam fazendo mada, devia ter razões que estavam fora do meu alcance compreender. Então na hora que os dois lados começam meio que a disputar espaço ali nesse projeto, seria bem isso aliás, espaço no projeto, pois a gravação era eu que estava tocando, é marcada uma reunião para discutir o assunto. Uns dias depois nos encontramos todos em território neutro, uma outra produtora,, para civilizadamente chegar a um consenso. Será que esse sonho tem a ver com o rolo da infiltração? Que anti climax!

Bem, estamos ali sentados nessa confortável sala dessa outra produtora, eu numa poltrona tendo na minha perpendicular direita a tal mulher e na mesma linha a esquerda a equipe dos 4 da produtora. Estou ali de observadora, já que o rapaz meio que líder da equipe da produtora está debatendo a questão diretamente com a mulher gordota. Como dois lutadores num rinque que passam um tempo rodeando um ao outro, medindo forças, essa reunião já dura uns 20 minutos e até agora tudo o que houve é que tanto o rapaz moreno quanto a mulher gordota ficaram, por meio de frases lentas e cautelosas, jogando suas credenciais um em cima do outro. A mulher gordota, que é mais velha e muito segura de si, comentou em tom super casual, quase como se fosse small talk mesmo, sua formação e suas especializações. Ela é muito mais controlada que o rapaz, e consegue falar sem parecer estar discutindo ou lutando por algo. O rapaz, que é bem mais jovem, por sua vez não tem essa capacidade, demostra sua irritação e responde também discorrendo sobre sua expertise e o quanto ele está acrescentando ao projeto. A coisa tem tom mesmo de dois candidatos disputando vaga de emprego, mas nesse caso, e nisso reside o mistério do sonho, não seria eu a escolher. Eles não estavam dizendo aquelas coisas para eu decidir. Eles decidiriam entre si. Quem vencesse aquela polida discussão ficaria no projeto, era isso que estava implícito.

É nesse ponto que algo começa a tomar forma dentro de mim. É muito interessante pois não seria como se eu tentasse tomar controle da situação e nem mesmo questionar a situação. Eu só começo a prever que se eu deixasse a situação nas mãos de pessoas como aquelas, que tinham alta capacidade de se manter não fazendo nada e não resolvendo nada mesmo em situações com extremo grau de exigência no sentido contrário, como uma gravação, não iríamos chegar a lugar nenhum. Ambos os lados estavam há meia hora patinando numa troca absolutamente inútil de qualificações, eram pessoas acostumadas a ficar falando frases vazias por horas, aquilo iria longe. Então quase que numa atitude de auxiliadora é que resolvo interferir. Pensando ali rapidamente, me parece que, apesar de ambos os lados não terem atividade nenhuma em relação à gravação, teoricamente seus cargos e funções não eram o mesmo, o que significava que não eram conflitantes. Poderiam muito bem estar no mesmo projeto,cada um fazendo nada nos seus respectivos departamentos. Então começo a dizer assim para o rapaz moreno a minha esquerda:

- Olha, tenho observado que nas gravações você não consegue dar conta de tudo, com razão, pois extrapola o que sua equipe tem condições de fazer...

Aqui é caso de dizer que não estou sendo falsa. Isso de pensar que eles não estão fazendo nada é um pensamento que eu até tenho, mas não chego a super acreditar. Prevalece ainda a idéia de que essas pessoas tão mais bem estabelecidas que eu tem suas funções, mesmo que para mim pareça que não fazem nada. Então falo com o rapaz com sinceridade e minha intenção é respeitosamente chegar nessa conclusão de que ambos os lados podem ter seu espaço no projeto. Mas o rapaz, que já tinha num momento anterior se levantado da sua poltrona, ido até a mulher gordota e se posto a arrumar o cabelo dela, tendo a isso ela reagido com a mesma falta de embate de antes, essas pessoas não iriam se enfrentar, iram ficar ali, de falsidade uma com a outra até sabe Deus quando, e o rapaz, praticamente ignorando o que estou dizendo, me olha e comentando algo casual sobre meu cabelo, o mesmo comentário que havia feito para a mulher, algo pretensamente engraçado, começa a ajeitar o meu cabelo. Isso sim me irrita. Até então não estava irritada.

Mas é tudo ali, ele não estar me escutando, e estar achando que eu vou ficar com a mesma atitude falsa da mulher.

- Se você tocar outra vez no meu cabelo eu arranco sua mão, eu digo

Ele também nem escuta isso direito. A tática dessas pessoas é dizer coisas vazias, e eles tratam tudo que os outros dizem como coisas vazias também, então essa coisa mais agressiva que eu digo também cai no vazio. Eu então ainda tento retomar o que iria propor, dessa vez me dirigindo à mulher, que me olha com um olhar um pouco mais atento que o rapaz. Sigo dizendo isso de que ambos os lados estão com funções que não abrangem a totalidade do projeto, então poderiam se completar e no que tenho uns instantes de talvez atenção verdadeira dela, a porta ao fundo da sala se abre e entra um pequeno grupo de criativos dessa agência ou produtora na qual estávamo. Dá para ver que são da parte criativa pois estão, como digo no roteiro, fantasiados de criativos de produtora, vestidos todos de branco. Olham a mulher gordota com ar de familiaridade e fica claro que eram conhecidos dela e cedido o espaço para aquela reunião. A mulher se vira para eles e os cumprimenta, até ai normal, mas ela meio que inicia um movimento de se levantar, ir até eles e entabular uma conversa social, como se aquilo fosse uma festa, e eu percebo que ela quer fazer aquilo justamente para desviar a reunião de qualquer rumo de resolução prática. Enquanto ela mantivesse a discussão rodando por assuntos e temas inúteis, ela tinha o controle da situação. Mas eu estou cada vez mais reagindo a tudo aquilo. Imediatamente corto ela e digo:

- Vamos focar aqui no nosso assunto, por favor? Vocês podem nos dar licença, por gentileza?

Isso é dirigido ao grupo que estava quase entrando e eles recuam e fecham a porta. A mulher não tem alternativa a não ser voltar a olhar para mim. Continuo na minha rota ali rumo a uma conclusão mas não tinha dito três palavras quando é escutado um som meio de pipoco de fogos de réveillon vinda da sala ao lado, que é em parte vazada para a nossa sala através de uma pequena abertura na parede a minha frente, a mesma que tem a porta. No extremo direito da parede tinha a porta, no extremo oposto essa janelinha retangular. Por essa abertura podese ver uma tela de tv na sala ao lado e é dessa tela havia vindo o som de estouro, pois está sendo televisionado algo de moderado destaque. mas numa empolgação que me parece bem forjada, a mulher gordota se levanta num pulo e se dirige a um dos integrantes da equipe mas que não seria o rapaz moreno, dizendo com grande entusiasmo:

– Venha, vamos ver, vamos ver!

E corre con o rapaz na direção da abertura com a tv. Eu grito:

–Mas como assim, vamos continuar aqui e ...

Mas ela se vira e me fala na mesma empolgação meio forçada:

– São os gambás, vamos ver, vamos ver!

Havia sim um lance relacionado a gambás, algo com o mesmo nível de importância que uma Copa do Mundo ou uma Olimpíadas, talvez, mas um pouco menos. Tá claro para mim que a mulher está exagerando a importância daquilo para mais uma vez, não deixar que eu assuma o controle da reunião ali e resolva a situação. O rapaz moreno fica sentado mas sua atenção converge para o lance dos gambás e em frações de segundos eu tenho total consciência de que aquela era a atitude que pretendiam ter comigo, me ignorar, e finalmente aquilo me dá um basta. Sem chegar a tomar essa decisão racionalmente, eu me levanto, pego minhas coisas e me dirijo à saída. Ninguém nota pois estão todos envolvidos nesse interesse simulado pelo lance dos gambás. Parte de mim está pensando:

- Mas que absurdo é esse? É o meu projeto. Sem mim nada disso existe. Quando eles se derem conta de que eu não estou mais lá, quero só ver se continuam com essa palhaçada de fingir um para o putro que são eles que mandam. Nem faz sentido essa reunião. Quem vai pagar essas pessoas todas? Eu? Eles estão resolvendo entre si quem vai trabalhar no projeto que eu estou pagando?

Mas mesmo pensando tudo isso e estando coberta de razão, estou também meio insegura da minha atitude e penso ao mesmo tempo:

- Putz mas como vou fazer? Será que preciso da equipe do rapaz moreno de um jeito que não estou ai percebendo? Será que era melhor voltar para a reunião e tentar me entender com eles?

Deixo essas duas linhas de pensamento seguirem em paralelo na minha cabeça enquanto saio pela porta da frente da agência ou produtora e cruzo a parte da frente que tem piso de pedras cinzas de ardósia, que nem a garagem da Gregório, inclusive tem um portão parecido. Nesse momento, como muito acontece quando me dou mais autonomia, fico desengonçada e deixo cair no chão algo de dentro da minha bolsa preta da Temu, na qual eu estava remexendo também de nervoso. Faz um barulho metálico. Mas curiosamente nem isso me detém. Ainda com a mão dentro da bolsa, checo rapidamente se rudo de importante está lá e está, principalmente a chave com o chaveiro de coração da Temu, a única coisa importante que poderia ter feito aquele barulho metálico.

- Deixa, eu penso. Seja o que foi que caiu, não é nada importante.

E essa parte minha que tinha tomado a iniciativa de levantar e ir embora vence a parada. Estou na rua tranquila e ensolarada me afastando cada vez mais da reunião. Pela primeira vez questiono mesmo a coisa toda. Então eu ia ter que pagar essas pessoas? Claro que sim, né, já que estariam trabalhando para mim. Mas não quero nenhuma delas. Para que servem afinal? Não consegui perceber. Na prática só serviam para complicar tudo e tornar tudo mais caro. E ainda por cima me tratando mal. Será que preciso delas?

Mesmo assim não tinha certeza se conseguiria me virar sem elas. De qualquer form, o primeiro passo havia sido dado, pois pelo menos hoje eu não voltaria atrás. Começo a pensar noutras coisas. Estou passando na esquina à direita onde tem aquele café que a Lúcia minha irmã havia comentado que era o melhor café da cidade. Olhando ninguém diria, pois parecia um botequinho de cidade de interior, nem instalações direito tinha, a dona havia posto umas duas mesinhas na varanda coberta de sua casa e servia café. Servia refeições caseiras também. Mas eu já havia estado lá e era mesmo muito bom. Resolvo tomar um café. Seria um momento gostoso depois de tanta chatice. Subo na varanda. É uma varanda de casa antiga, com chão e pilares de caquinho vermelho. A dona, uma mulata jovem, humilde, de olhar esperto, está usando as mesinhas para dobrar uns lençóis. O charme desse café eta justamente essa mistura com a casa dela. Ela me olha com ar de que não cheguei num bom momento. Tem outra mulher aali com cara de parente dela, com quem ela estava papeando. Tudo sinaliza contra, mas aquele não deixa de ser um estabelecimento comercial, então não tinha nada de mais eu perguntar:

- Estão servindo? Queria um café.

Ela me olha e parece que serei atendia. Me parece que ela ficou aliviada de eu não querer uma refeição completa, só um café.

Guias, esse é o tal ponto que teoricamente muda tudo Resolvi algumas questões importantes da minha vida, mas ainda tem outras ainda mais importantes que não desisti de resolver. Pretendo continuar tentando.

Não sei o que vem por aí. Mas esse sonho, esse sonho é um bom sonho.

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