CENTRO DE ARTES ALTERNATIVAS @SOUL

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7min de leitura

Estou meio atrasada para registrar um sonho tão longo, mas pareceu importante.

Moro numa ruazinha, numa casa térrea, mas é como se estivesse morando aqui.

No outro lado da rua existe uma vilinha simpática e por umas coisas ligadas a minha mãe, a senhorinha que mora numa das casas disse que queria muito me conhecer, então vou lá fazer essa gentileza.

Saio de casa meio corrida, atrasada como sempre.

Estou de rede de balé e gorrinho na cabeça.

Há um carro pequeno do outro lado da rua, perto do ponto de ônibus, de porta aberta e eu mais que depressa entro nele. Não sei porque estou fazendo tudo depressa, acho que estou atrasada. Me sento no banco da frente, do passageiro, e ao meu lado já está a filha da senhorinha e a senhorinha, que dirige. Vamos as três no banco da frente, como se fosse um caminhão.

Eu não disse uma palavra, porque custei a perceber que aquele era o carro da senhorinha, eu agi e me senti como se estivesse entrando num ônibus mesmo e não tivesse que cumprimentar ninguém.

Quando percebo isso fico com vergonha e penso comigo que o melhor agora é ignorar os cumprimentos, agir com naturalidade e começar a conversar, com se minha falta de cumprimentos fosse intencional, talvez uma nova moda de ninguém cumprimentar ninguém, como as crianças.

Começamos a conversar. Falo sobre a vilinha, que acho linda, que quando vim com minha mãe conhecer a rua porque queria comprar a casa, viemos passear na vilinha e ficamos encantadas, etc.

A senhorinha estaciona na frente da casa dela e descemos. A senhorinha logo entra na sua casa e a filha dela fica comigo me acompanhando.

Ela comenta algo sobre meu cabelo, eu fico preocupada porque sai de casa correndo sem nem olhar no espelho, mas ela diz:

– Você está bonita.

Aquilo me acalma e entramos na casa e... para minha enorme surpresa, a casa é enorme e vai se prolongando, mas não lembra o Hub, é térrea e larga.

E é um escritório. Não há paredes divisórias, como se fosse um loft, é tudo meio branco e cimento e está fervilhante. Todas as mesas estão cheias, as pessoas conversam, a atividade é intensa.

Acho aquilo legal mas fico muito confusa, porque aquilo não devia ser um escritório, um ambiente de trabalho.

Vou com a filha da senhora até o fundo do local, onde sento num sofá, conversamos mais um pouco algo que não lembro e então ela atende uma ligação. Fica de pé na minha frente e no meio da ligação, começa a gritar. Não um grito real, mas um grito meio teatral, mas que tinha a ver com a ligação que estava atendendo, na qual ela teve que se impor na base de gritos.

O grito se sobrepõe ao barulho que está fazendo ali no escritório, todos olham e eu fico com vergonha, porque achei o grito meio exagerado e ridículo. Não esperava isso dessa garota, que parecia legal. Não que deixe de ser legal por causa disso, mas fico meio constrangida.

Educadamente aguardo em silêncio enquanto ela termina a ligação, tão educadamente que durmo um pouco sentada e quando acordo, percebo ela me olhando, ainda de pé na minha frente. Mas não parece brava, faz um comentário divertido e acho que nesse momento é que ela virou um homem. Virou um ator de comédia tipo Sai de Baixo, um cara meio amulatado que não lembro o nome. Nossa, agora simplesmente do nada me veio o nome dele: Paulo Silvino. E acho que quando era criança reparava nele por causa do nome, que parece uma versão masculina do meu. Pois bem. É claro que esse homem representa uma versão do que não gosto em mim: o estado masculinizado, os excessos teatrais... porque ele é muito exagerado.

Se existe algo de positivo em eu sonhar com ele, só pode ser o fato de estar vendo ele fora de mim, ou seja, não estou mais tão identificada. Inclusive, sinto que tem a ver, nesse momento tirei a redinha de balé e o gorrinho.

Ficamos ali trocando umas palavras, então ele vai pegar umas coisas de trabalho num galpão e faz disso um número musical. Penso algo do tipo, bom, parece que todo mundo aqui é meio over. Mas mesmo assim é um lugar legal.

Então começa uma recorrência de tentar entender exatamente o que é aquilo e não obter resposta. Eu já tinha comentado com ele, enquanto ele ainda era uma mulher, sobre o local ser uma espécie de escritório e ter recebido uma resposta vaga.

Quando ele volta com os materiais, eu pergunto a ele o que ele faz exatamente.

Apesar dos excessos, tenho simpatia por ele. Ele me dá uma resposta que não quer dizer nada.

O sonho é imenso e quero chegar pelo menos na parte que veio em seguida, muito legal.

Nesse momento a senhorinha mãe dele, que se tornou uma mulher mais jovem, assim da minha idade, vem me chamar. Ela parece ser a única que não é exagerada. Ela me leva até uma lousa e me pergunta se eu sei como escrever alma em inglês.

Já existe escrito em giz na lousa uma coisa assim:

soul@gmail.com

Não tenho certeza se é gmail,mas acho que sim. Não sei exatamente se a mulher diz “ como se escreve alma em inglês”, mas quando vejo o que está escrito e ela pergunta como escreve, entendo que ela quer saber como escreve soul, alma em inglês. Fico feliz dela perguntar algo que tenho segurança de responder. E enquanto estou dizendo que escreve exatamente como ela escreveu, ela me diz que aquele é meu novo email.

Fica meio subentendido que aquele será meu email ali, naquele escritório, como se eu fosse trabalhar ali, por outro lado, ninguém falou comigo claramente sobre o assunto e tem uma coisa marcante no sonho de eu estar tão crente que aquela era uma visita social, que ficava muito difícil para mim acreditar no que estava diante dos meus olhos: que a casa da senhorinha na verdade era um escritório legal e ela queria que eu trabalhasse ali.

Fico seguindo a senhorinha, que já se enveredou por outro assuntos com outras pessoas e em seguida ela sai para o hall do escritório, que é como se fosse uma garagem com chão de cimento e um guichê de recepção. A senhorinha carrega uns tubos de papelão e na primeira brecha que tenho, pergunto a ela o que é aquele lugar.

– É um centro de artes alternativas, responde.

E nisso sai dali e me deixa.

Fico no hall, assimilando aquilo. No chão, afastado do guichê, tem uma TV pequena antiga, e está passando o que parece ser um videoclip. Tem uma moça vagamente parada ali na entrada desse hall e o rapaz no guichê atrás de mim. Isso que eu me pergunto sobre sonhos: porque essa moça? Ela não tem participação nenhuma. O rapaz, se referindo ao videoclip, me pergunta:

– O que é isso?

Em parte fico surpresa dele, que é funcionário desse escritório descolado, ter que perguntar algo para mim.

Respondo:

– Acho que é um videoclip feito pelos funcionários desse escritório, porque já reconheci várias caras aí, inclusive a do filho da dona.

( com seus exageros de sempre, pensei comigo)

E então o rapaz do guichê fala, num tom de voz muito simpático:

– Não sei o quê, não sei o que lá, Silvia.

Não lembro da frase, mas sim que o tom era simpático e ele me chama pelo nome, o que me surpreende novamente. Dizer que só por ele saber meu nome, seria pouco. Ele fala meu nome de um jeito especial, como se me conhecesse, como se soubesse melhor que eu o que estava se passando ali, comigo.

A frase dele não tem nenhum sentido em especial, mas algo no tom dele provoca em mim um efeito como se eu estivesse sendo guiada.

Eu entro novamente na casa-escritório e volto ao quadro negro onde a senhorinha havia escrito o meu novo email. Tem umas toras de madeira ali. A extremidade de uma delas está meio suja com algo que parece alpiste, ou melhor, aquela semente redondinha que os passarinhos comem e que não é alpiste. Pego uma bucha de cozinha e começo a tirar as bolinhas. Não estou fazendo aquilo à toa, houve uma decisão da minha parte em tentar me incluir naquele escritório, onde eu claramente era bem vinda e tentar de alguma forma me fazer útil, colaborar com o processo.

Quando entro, antes de chegar na lousa, passo pelo filho da dona, que está sentado numas poltronas na parte social daquele loft, e brinco com ele, dizendo:

– Você ainda tem que me dizer o que vc faz.

E aponto o dedo para ele. E sigo reto. Me sinto mais segura de mim do que já fui antes, naquela situação de conviver com pessoas num escritório.

E quando estou tirando as sementinhas, a dona do escritório se aproxima e eu mostro a tora, dizendo:

– Olha, estou tirando isso para vc.

De tudo, de tudo, o que mais me ficou foi esse email: soul

Um trabalho da alma.

{7 de Abril de 2014}

IMAGE CREDITS BOTICELLI | TGE BIRTH OF VENUS




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