NÃO VOU ASSINAR

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No começo não entendi nada mas depois veio um sentido que torna esse sonho menos sem graça.

Tem duas partes.

Estamos eu e minha família numa casa desconhecida mas que seria a nossa no sonho, É uma casa com um ar legal, meio bagunçada mas cheia de vida e em determinado momento estamos eu e meu irmãos na sala, diante da grande vidraça que dá para o terraço lá fora e que é coberta por uma cortina meio transparente e estamos todos sentados no chão com nossos três animais de estimação, que são três filhotes, um de gato, e os outros dois ficam indistintos mas parecem ser aves.

Eu reparo que os três filhotes estão quase colados no vidro da vidraça, que desce até o chão mesmo, e é de correr, vendo algo lá fora.

Então levanto um pouco a cortina pois os filhotes tinham se enfiado entre a cortina e o vidro da vidraça e…

Para meu horror, o terraço logo atrás da vidraça está tomado, tomado de filhotes de lagarto.

Lagartos como aqueles que tinha em Itamaracá, mas são filhotes ainda, e verdes. Tenho a impressão que os lagartos de Itamaracá eram mais para o cinzento. São verdes bem brilhantes.

Como símbolo isso é bem interessante pois apesar de eu ficar horrorizada, pensando friamente, não chegavam a ser bichos realmente horríveis, não vou nem mencionar aqui, eram pequenos e isso que eu disse, da cor verde até bonita.

Mas aquela quantidade ali era algo meio perturbador.

No que eu estou olhando aquilo, percebo que o gatinho, que é do tamanho assim de uma batata, passou pela fresta aberta da janela a direita e foi lá com os lagartos pois acha que não é perigoso.

Eu fico apavorada. Os lagartos podem comer ele. Então não sei direito como, acho que enfio a mão e agarro o gatinho e puxo ele para dentro meio de qualquer jeito até, Então fica a questão de fechar aquela fresta, Fico até um pouco supresa dos lagartos não estarem invadindo, mas não estão.

Mas apesar de eu ter enfiado a mão ali para pegar o gato, tenho medo de empurrar a janela para fechar a fresta com a mão, não sei porquê.

Então vou até o fundo da casa pegar uma vassoura para empurrar a folha da vidraça ali com o cabo enquanto penso em como me livrar dos lagartos, se seria uma boa idéia bater neles com a vassoura, se posso usar o aspirador de pó , acho que não, são grandes demais, se posso chamar o detetizador, se lagartos podem ser detetizados, etc e enquanto isso eu grito chamando a Lú para me ajudar.

A Lú não vêm e isso configura uma situação já clássica nos meus sonhos que até hoje não sei como entender, se me mostra como certa ou errada, que seria o fato de que ninguém, ninguém além de mim está vendo aquilo como ameaça.

Meus irmãos estão conversando entre si e mesmo vendo ali os lagartos, seria como se vissem sei lá, um lixo ou algo bem normal.

Não lembro o que acontece com o lance da fresta mas logo estou de volta na sala onde vejo que alguns filhotes entraram pela fresta e correm pelo carpete.

São menos que filhotes, Parecem uns caranguejinhos, ainda nem configuraram fisicamente como lagartos. Claro que fico horrorizada e imaginando que logo vão crescem e talvez se reproduzir dentro da casa e nunca, nunca mais vamos conseguir no livrar deles,

Mesmo achando que não tenho muita chance, eu tento capturar os caranguejinhos-lagartos cobrindo eles com um desentupidor grande de pia e após algumas tentativas, para minha própria surpresa eu consigo.

Estão presos ali dentro do desentupidor de vaso sanitário emborcado contra o chão. E agora? penso. Quanto tempo levam para morrer?

Dessa vez grito chamando o João.

Mais uma vez a situação muda para outra.

Nosso grupo, que envolve meus irmãos e amigos deles, vai sair para um passeio, Saímos por uma porta lateral. O grupo já está na maior parte aguardando ao lado do terraço, conversando e não dando a mínima para o fato do terraço estar coberto de lagartos pupulantes. Ah, tem esse detalhe. Os lagartos não ficavam quietinhos. Ficavam meio pulando pelo terraço. 

Quem está certo, eu ou eles?

Nesse momento tenho uma idéia até que boa. Grito para a Lú, que dessa vez está ali perto e pelo menos me olha e me escuta:

– Lú, espera, vou pegar o spray de baygon e spreiar no terraço, aí acho que eles vão se afastar.

Não me vejo tendo coragem de fazer aquilo mas sendo eles pequenos, o spray teria sim o poder de afastá-los. Nesse momento olho o terraço e alguns deles cresceram e agora estão do tamanho e formato, inclusive, de homens adultos vestidos numa fantasia verde de pelúcia que toscamente lembra um lagarto e pulando e se atirando contra o vidro.

Teve um outro pedaço antes disso. 

Quando vou até o fundo da casa para pegar a vassoura, há ali uma figura feminina muito impressionante por ser claramente eu.

Seria uma mulher com cabelo negro comprido, de ar bonito até mas…

Não sei que palavra usar. Ela era a empregada da casa. Não estava suja, nem mal vestida. Parecia cansada, desgastada sem estar envelhecida nem feia, e angustiada. Parecia uma empregada doméstica sobrecarregada. 

Eu falo com ela, acho que peço a vassoura, e ela, me olhando com um olhar profundo e inteligente, pergunta:

– Por quê você não vai lá e mata os lagartos você mesma?

Pois até então meu plano era chamar um detetizador e eu ia usar a vassoura para fechar a janela, nem estava cogitando enfrentar os lagartos eu mesma.

– Nem pensar, eu tenho medo até de barata.

Acho que sobre isso dos lagartos é tudo.

Então, atravessando a Praça Roosevelt, algo em si já um símbolo, acabei super por acaso num estabelecimento que oferecia certa forma de serviço profissional mas algo não de grande porte. O que lembro era algo do tipo os anúncios de ilustrador na Talento mas algo menor, tipo panfletos, sei lá. Era algo que eu pagaria uns 50 reais e pronto, era tudo que eu tinha que fazer.

É algo que tem certo benefício então eu aceito e pago e o cara do estabelecimento que havia me feito a oferta e fechado o negócio é um rapaz loiro meio atraente e de uma forma sedutora me convida para almoçar.

Eu acho aquilo meio duvidoso mas aceito.

Então saimos ambos e ele vem comigo até aqui o Extra, que teria dentro uma parte de cafeteria mas algo nível extra, super xexelento.

Ele me leva até uma das mesinhas, que fica perto ali da parte dos bolos, senta e diz:

– Vamos aqui.

O fato dele ter me levado no pior lugar, o mais barato e mais sujo da Praça Roosevelt já acaba com qualquer possibilidade de eu achar que ele tinha algum interesse romântico em mim, mas então qual seria seu interesse?

Então espontaneamente rola uma conversa que é a única parte autêntica de ambos os lados, pois eu também não estava interessada nele, estava interessada na possibilidade de um homem estar se interessando por mim, coisa que de cara deu pra ver que não era o caso, então eu nem devia estar lá.

Assumindo um ar autêntico e introspectivo, ele me diz:

– Você sente uma coisa meio perturbadora aqui, como se fosse um espírito ruim e que quando junta com aquele canal ( não ficava claro do quê, tipo um canal de TV), dá uma espécie de transe, uma hipnose do mal, meio fantasmagórica?

A frase não era precisamente essa mas o sentido sim.

Fico surpresa com tudo. Supresa dele falar daquele jeito sincero, de descrever com tanta precisão algo sobrenatural e de ser algo que eu também sentia.

Tanto que concordo, falamos um pouco sobre isso e naquele instante estamos numa conexão verdadeira.

Mas logo isso se rompe.

O sócio dele, que é um senhor de bigode preto, para tornar a coisa ainda menos romântica, veio junto e me passa o contrato para eu assinar.

No que vejo aquele calhamaço de folhas azuis com cláusulas, logo entendo.

Ele me trouxeram ali, com aquele arremedo preguiçoso de romance, para eu assinar sem ler direito.

Nesse momento tem outra passagem que tomou bastante destaque.

O rapaz está me olhando e sorrindo.

É uma sorriso melancólico. A impressão que ele me passa é de alguém já desagastado com seu próprio papel, que claramente era o de jogar charme para cima de mulheres carente com objetivos de golpes. Ele é loiro, tem um cabelo meio longo meio baço e ralo, parece esses atores americanos que tem de baciada todos parecidos, tipo David Cassidy, e… tem um dente escuro bem no lugar onde eu no momento tenho um, pois caiu um pedaço e o Paulo vai consertar. 

No começo achei bem isso, que o dente era referência a mim, mas acordada lembrei de outra coisa: os ingleses notoriamente tem dentes ruins.

Pois na sequência o sócio de bigode está ali todo sorrisos também, querendo que eu assine e eu dou uma passada de olhos ali naquela pilha de folhas e digo:

– Vou levar para casa e ler com calma.

A atitude do homem de bigode se altera na hora e ele começa a dizer uma série de razões pelas quais isso não era possível e eu tinha que assinar ali mesmo.

– Aí tem coisa, penso. Não vou assinar é nada. Paguei só uns 50 contos, posse morrer com esse dinheiro, mas se eu assinar, com certeza tem algo escuso aí.

Tudo isso eu penso enquanto o bigodudo está ali me falando porquê eu preciso assinar agora e com certeza achando que está me convencendo mas no que ele termina de falar eu digo com a mais firme das vozes:

– Hoje eu não vou assinar nada.

E aqui não lembro se eu ainda pego o calhamaço para levar para casa e ler com calma. Eu nem tinha que ler nada, a coisa era claramente escusa.

Mas o ponto é: eu disse não.

Disse que não ia assinar. 

Na Brit Chicks eu assinei e me arrependi e no dia seguinte minha tiróide pifou. 

Não me culpo mais. Não tinha condição de fazer diferente. Agora tenho.

Quando rolou esse episódio do galpão eu senti parecido. Por mais idiota que tenha sido a coisa toda, pois eu me empolguei e depois mudei de idéia, teve um momento no qual eu achava que não podia mais dizer não. Mas eu disse. 

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