TOUTLADANSE

Houri is dead

art,arte,beauty,beleza,ilustração,illustration,audiobook,sacred feminine,desenho,livro,magia,magic, 

stories,conto,literatura,sonho,dream,book of hours,medieval,sobrenatural.misticismo,energia,taoismo,

alquimia interna,esotérico,magic


HOURI IS DEAD

O criado principal da casa,homem já de certa idade,ainda que vigoroso,é também o único lúcido ali dentro.Há tempos vêm os patrões demonstrando certo grau de,não diria demência,mas numa palavra sem tradução a altura:delusion.

Sendo então o criado quem administra a propriedade apesar da subserviência que simula apenas por subserviência,mesmo que simulada,constar entre seus deveres.Todo dia sem falta faz questão de se reportar aos patrões,formalidade que há muito deixou de ter algum sentido dado o estado em que se encontram,reclusos em seus universos particulares cada qual em seu próprio quarto.

A mulher,criatura indefinida entre papel de esposa e filha,dedica-se a não se sabe o quê,mas parecem ser atividades artísticas que nunca produzem nada de concreto.Move os braços rindo e falando consigo mesma,parece feliz,parece ocupada,mas nada se vê do que esteja fazendo,não como se a ocupasse algo invisível,mas como se estivesse antes se preparando para fazer,ou pensando em fazer,do que de fato fazendo.

É dessa forma que sempre a encontra o criado,e não cabendo a ele lhe dirigir a palavra,se mantém perfilado junto a porta na esperança de com isso chamar a atenção da senhora da casa.

Logo isso acontece,mas não que chegue a ser de algum adianto,pois ela,ao invés de se portar de modo sensato,o trata como se fosse ator de uma peça encenada apenas em própria cabeça.

Ri em excesso,vendo graça exagerada em tudo,sendo que na verdade nada se passa ali.

O criado, sem jamais abandonar sua perfeita conduta,aguarda pacientemente,parecendo ainda contar com a possibilidade de uma reação mais consciente da parte dela que ao que tudo indica jamais virá.

Enquanto seja ela talvez apenas vítima de fantasia excessiva,o patrão por sua vez está mesmo senil.

A primeira vista seu tom passa por lúcido,mas com pouco mais de atenção,se nota que fala sem jamais escutar as respostas,num fluxo de ordens e resoluções que pouco tem a ver com o que está acontecendo.

A voz é firme,carregada de autoridade,mas apenas repete uma sequência de observações vazias,como se interpretasse para si mesmo o papel de senhor da casa no controle da situação.

O criado contribui com um silêncio respeitoso apenas por estar entre seus atributos contribuir com as farsas do senhorio.

E dessa vez o comentário é sobre uma flor num vaso colocada na mesa do seu escritório dias antes.

Acredita ele que a flor tenha sido deixada ali pela esposa do criado, sendo ela a encarregada,o que é tomado como prova da melhora do seu estado de saúde.

Em parte está correto.De fato Houri,esposa do criado,vinha doente já há um tempo e com isso o cuidado das flores da casa havia sido negligenciado. 

A flor no vaso,bonita e bem tratada,é vista então como sinal que ela houvesse melhorado e retomado suas atividades.

Só que fazia tempo Houri havia falecido, depois de gravemente enferma,isolada em seu pequeno quarto,e o patrão,resguardado que era do convívio com a vida pessoal dos criados,uma vez notificado disso se esqueceu logo em seguida.

Em voz de comando,declara que a flor no vaso sem sombra de dúvida indicava completa recuperação da parte de Houri,coisa que muito o alegrava.

O criado não contesta.Mesmo sob a perda da que mais amava,acima de tudo é  bom criado,e ao  bom criado não compete contestar ilusões dos senhores. 

A ele,e a ele apenas,cabe o fardo da constatação.Houri está morta.

illustration drawing art
illustration drawing art
illustration drawing art
illustration drawing art
illustration drawing art