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O Comandante Zumbi

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O COMANDANTE ZUMBI

Estou no bote. É um bote salva-vidas, bem pequeno mesmo.

Sei que estou nas imediações de um castelo no qual quero entrar, a princípio muito perto dele.

Se distancia de mim um barco mais equipado, com pessoas que até então pareciam amigáveis mas não estão se importando de me deixar aqui sozinha, então já vi que é perda de tempo ficar contando com o apoio delas.

Chamei várias e várias vezes, até que os perdi de vista na neblina.

Dei umas remadas tentando ir na direção que me parecia ser a que foram, ainda na esperança de que se me vissem, viriam me resgatar, mas logo em seguida, mais lúcida, me dei conta de que quando nos separamos, mesmo que não estivessem me vendo, estariam certamente me ouvindo, e se não se deram ao trabalho de me procurar, aliás não se deram ao trabalho sequer de responder meus chamados, é porque não tenho muita importância. 

Se ficar insistindo em tentar ir atrás deles, posso piorar ainda mais a situação e me perder completamente nessa neblina. Por que não enxergo um metro a minha frente. Não sei onde estou. Sei onde estava, e como não me movi muito, ou pelo menos espero, já que  a água, mesmo de um lago, ilude bastante, então devo estar ainda relativamente no mesmo lugar, o que é bom, porque o castelo continua próximo.

A solução acertada parece ser me virar sozinha, mesmo que seja uma solução sem solução, já que não sei como vou me localizar aqui nessa neblina. 

Mas a pior idéia é sair remando como uma louca, acabarei exausta, perdida, isso se o bote não virar e eu cair nessa água que deve ter peixes enormes e assustadores.

Acontece muito de que quando se toma a resolução acertada, a solução aparece. No momento que decido desencanar dos que sabiam melhor que eu o caminho, logo divido as muralhas do castelo bem do meu lado.

Tipo a uns dois metros. Legal, Agora tudo é questão de encontrar o portão de entrada. Decido ir remando com calma, contornando a muralha. Pode ser que o portão estivesse ali atrás e eu tome a direção oposta e tenha que dar a volta completa até encontrá-lo de novo, mas o ponto é que nessa neblina, não tenho como saber onde está o portão e então não vou me desesperar tentando. 

E mais uma vez tendo tomado essa decisão acertada, eis que encontro o portão rapidinho.

E então há um homem no bote comigo.

Uma espécie de comandante, já que ele dá ordens e eu remo.

Esse homem é algo bem controverso pois apesar de apavorada com minha solidão, sua presença não é bem vinda. Porque para começar, o homem é um zumbi. Morto vivo mesmo. Não tenho medo que ele me mate, so não gosto de dividir o barco com um morto vivo, é pior do que estar sozinha. Ainda mais que ele parece ter autoridade sobre mim e me ordena que entre no castelo sem o bote, depois que somos barrados na guarita do castelo.

O soldado da guarita fala diretamente com esse Comandante Zumbi, que age de forma muito arrogante, o que complica a situação, o soldado quer que ele se identifique, e isso não é possível. 

 Zumbi não sabe quem ele mesmo é, só sabe que é um Comandante e não deveria ser tratado assim, fica invocado, o soldado da guarita também, e não o deixa entrar e o Comandante me ordena que entre nadando e explique o caso para alguém menos cabeçudo.

Eu obedeço.Nem me passa pelas possibilidades desobedecer o Comandante Zumbi.

Entro e logo noto um oficial, ao que parece, carpindo um gramado.

“-Boa tarde”, digo, sendo bem amigável. “-Estou com o meu superior ali no bote do lado de fora do castelo porque o soldado não permite que a gente entre.”

O oficial é um rapaz não zumbi mas meio estranho, se bem que gente boa, porque me responde achando graça:

“-Claro que deu problema. Do que é que um soldado de guarita não gosta, porque acha suspeito? De alguém que fique encarando de forma fixa. E o que que um Zumbi faz?”

O Zumbi não tem outra forma de agir a não ser ficar encarando fixo para frente, normalmente com uma expressão Zumbi, o que não ajudar muito.

Eu rio. Achei mesmo engraçado, mas também espero que o oficial simpatize com a minha causa, por eu ter rido da graça dele.

E ele de fato, ele fala para eu dizer para o soldado da guarita que ele havia me liberado a entrada. 

E então me beija. É um beijo meio babado. E mesmo sendo um beijo, era uma espécie de formalidade. O oficial se mostra meio importunado por mim e tendo resolvido minha questão mais por ser obrigação dele, agora demonstra claramente que espera que eu o deixe em paz e não precise de mais ajuda.

Estou muito sentida e ao mesmo tempo muito acostumada a me sentir um incômodo, alguém recebe atos de caridade e generosidade das pessoas para consigo depois dos quais devo, para agradecer, deixá-las em paz.

Mesmo esse rapaz do beijo babado só quer que eu vá embora.

Eu vou. Aprendi a focar no lado prático da situação, que no caso é entrar no castelo com o único ser que se colocou ao meu lado, o Comandante Zumbi.

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