THE SOUL TELEVISION

O Evandro Mesquita nunca vai me amar

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O EVANDRO MESQUITA NUNCA VAI ME AMAR

O Evandro Mesquita mora na casa pegada a minha. 

Minha casa está uma bagunça. Decidi fazer melhoramentos mas com meu trabalho, que é pesado, nunca tenho tempo de terminar as mudanças que começo. Não me falta ânimo, mas vivo sozinha e me sinto solitária. 

O Evandro Mesquita está numa situação parecida. A casa dele também está inacabada, mas sua atitude é bem outra. Ao invés de se esforçar fica espalhando desordem como se não ligasse a mínima e no fundo achasse que tudo iria se ajeitar sozinho. Ele é bem assim, sempre fazendo coisas irreverentes e se divertindo, ou pelo menos é o que parece. Porque não dá pra saber se ele se diverte mesmo. 

Às vezes desconfio que não.

Muitas vezes, nas pausas da minha labuta, me distraio pensando nele. Não sei se ele gosta ou desgosta de mim. Há tanto a favor de uma coisa como de outra. Ele me dá muita atenção, é verdade, mas de um jeito que me deixa ligeiramente desconfortável. Mesmo quando se impressiona com algo que digo, como outro dia com certo comentário sobre um filme, fica sempre no limiar da agressividade, suas inúmeras perguntas têm um tom acusatório, como se fossem mais uma tentativa de me fazer cair em contradição do que manifestação de interesse propriamente dita.

Mas talvez essa seja a forma de ele ser amistoso. Algumas pessoas são assim mesmo.

Encontrei-o agora há pouco na rua com um grupo de submissos que ele domina e que o segue por toda parte como um séquito .Está para haver um grande festival na cidade, todos estão comentando.

Ele insiste que eu vá, quase gentil, mas com um olhar cravado, vigilante das minhas menores reações.

Prometo ir porquê de maneira geral minhas impressões sobre ele acabam sendo mais para o favorável.

Mas quando estou de volta às minhas arrumações, tenho certeza de que na verdade ele me faz de boba. Entre amigos finge me dar atenção, mas no fundo me despreza e só havia insistido na minha presença no festival para demonstrar o quanto eu estava ansiosa por uma oportunidade de me encontrar com ele.

 De vez em quando tenho essa impressão de que ele acha que eu estou interessada nele. Talvez até estivesse se ele não agisse de modo tão estranho. Decido então que o melhor é não ir a lugar nenhum e pronto.

No dia seguinte logo cedo dou de encontro com ele e seus inevitáveis súditos. Ele me olha de novo com aquela expressão que não consigo decifrar, os olhinhos ávidos, procurando alguma coisa em mim, mas o quê? Com ar de quem desfere um grande golpe mais que depressa anuncia que não vai comparecer ao festival. É evidente que acha que vai me causar uma enorme decepção. 

Eu lamento minha pouca presença de espírito de não ter dito aquilo antes dele, assim demonstrando minha falta de interesse nele. Mas sou meio defasada para esse tipo de coisa, sempre fui. Respondo sem grande convicção que também não vou, resposta que por infelicidade acaba confirmando a impressão de que a presença dele me é tão importante que se ele não for não há razão para eu ir. 

E em estado vitorioso, ele se retira com seus seguidores.

Na hora não dou a mínima, até acho bom. Mas depois em casa, tentando botar ordem em alguns armários, começa a me vir dúvida de que talvez seja fraqueza minha nunca me importar que outros se retirem vitoriosos às minhas custas. Já que ele demonstrou de maneira tão descarada seu desinteresse por mim não indo ao festival, o mínimo que eu deveria fazer seria ir e assim deixar bem claro meu desinteresse por ele. Assim faço e a princípio parece que isso encerra a situação.

Só muito tempo depois ele aparece na minha casa agitado, gesticulando em exagero, a fisionomia contorcida, mais agressiva do que de costume, perguntando se eu havia escutado certa orgia ocorrida há pouco na casa dele com muitas mulheres, muitas, insistindo que com certeza eu deveria ter ficado chocada, decerto até excitada, com aquilo, não é? Não é? Não é?

Não tenho conhecimento de orgia nenhuma e mesmo que tivesse duvido que isso me abalasse no nível que ele imagina. Então nem me dou o trabalho de responder, o que não faz diferença, pois ele não está interessado na minha resposta e sim em ficar chacoalhando os braços para cima e para baixo repetindo sem parar o quanto eu deveria ter ficado excitada com aquilo, não é? Não é? E vai saindo.

Deixo que vá. Nada de bom poderá vir dele. Ele só fala comigo porque está convencido de que estou linteressada nele e eu só falo com ele porque me parece que talvez esteja interessado em mim

E dessa forma, ambos enganados a respeito do um do outro, é que seguimos e nunca conseguimos

 Nos deixar.

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