THE SOUL TELEVISION

O único problema da sala

The Soul Television


enquanto isso

ao fundo dos acontecimentos

rasteja minha verdadeira natureza


O ÚNICO PROBLEMA DA SALA

Minha sala tem só dois problemas. De resto está impecável.     

Um deles nem conta, algo que se resolve passando aspirador.    

Já o outro é complicado. Há uma lesma no assoalho. Uma lesma viva.    

Primeiro esteve debaixo da mesa de jantar.     

Uma visita então me alertou que quando chegasse no tapete, do qual se alimenta, se tornaria maior e mais forte e ficaria muito mais difícil acabar com ela.     

Não cheguei a me preocupar. Uma lesma é ameaça sob  controle. Ao contrário de outros atacantes domésticos, tem disposição vagarosa e submissa e não apresenta risco.    

De forma que havia tempo de sobra para cuidar do assunto.     

No geral sou pessoa expedita, ligeira nos resolvimentos. Mas dias passam e a lesma permanece na sala.

Sua presença  já começa a causar transtorno. Ontem mesmo evitei receber amigos por causa dela.    

Mesmo assim não consigo fazer nada a respeito. Quanto mais penso no assunto mais ele se revela complexo, quase um impasse.

Para começar não estou segura de querer mesmo me livrar da dela. Não sei dizer porquê.

Uma lesma não se qualifica como bicho de estimação. Mesmo inofensiva, tem baixo nível de aceitação e provoca mal estar nas pessoas. Até numa sala em perfeitas condições uma lesma é coisa muito perturbadora. De forma que não tenho a menor intenção de manter a lesma, por outro lado, custo a tomar providências no sentido contrário, então o que pretendo afinal?     

Seria como se no fundo esperasse, quem sabe desejasse, que algum outro fator interferisse e tirasse a decisão das minhas mãos.

Pois mesmo que conseguisse superar essa minha estranha relutância haveria a questão de como proceder.     O mais prático seria matar a lesma. Mas não conseguiria ser responsável pela morte de um ser tão gordo e viçoso ,tão repulsivamente cheio de apetite.      

Não posso deixar de respeitar o fato de que mesmo inconveniente ela impõe seu direito a existência, muito mais até do que eu até.      

Poderia quem sabe colocá-la num saco plástico e soltá-la no jardim do prédio mas os seguintes obstáculos me parecem insuperáveis:     

Para isso teria que empurrá-la - com um objeto, claro - para dentro do saco. É um risco que não pretendo correr. Tudo está bem enquanto estivermos ela ali e eu aqui mas não me atrevo a medir forças com ela.      Sempre se  pode pedir ajuda a um dos porteiros mas se ele resolve matá-la, não poderia  impor condições para alguém me fazer um favor.     

E como se já não bastassem todas essas questões me atormentando há o fato de que lesmas são bichos daninhos. Se resolvo mantê-la aqui mascando meu tapete ninguém tem nada com isso. Mas que direito tenho de deixar uma lesma voraz - que ainda nem devorou tudo o que tinha para devorar- no jardim do prédio, consumindo as azaléias mantidas pelos moradores?     

Não sei o que fazer. Nenhum desses impedimentos parece ter solução por mais que pense e repense neles.     Então me limito a observar a lesma, nem tanto por prazer, mas porque no final das contas o único perigo é perdê-la de vista e tê-la sabe-se lá onde pela casa.     

Em parte ainda cogito possibilidades mas secretamente aguardo a tal interferência salvadora de algum acontecimento.      

A lesma já atingiu o tapete e começa a devorá-lo, nisso produzindo um rastro de uma visgo espesso

e abundante que muito contribui para torná-la ainda mais repugnante. Mas nem isso consegue me atingir.   

Só vejo como ela, dentro das suas limitações expressivas de invertebrado, parece feliz.

Foi um longo esforço mas por fim atingiu seu paraíso.    

E sem que entenda a razão algo nisso me comove e me cativa de tal forma que mesmo contra todos meus interesses, mesmo comprometendo minha sala perfeita, mesmo embaraçosa e indesejável, essa criatura tenha toda a minha soliedariedade e eu me sinta menos e menos propensa a qualquer coisa que a prejudique.

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