THE SOUL TELEVISION

O caso oculto

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O CASO OCULTO

De repente me dou conta do que já sabia: tive, num passado recente, um envolvimento com o marido da minha melhor amiga. 

Sentada em frente a televisão, sem pensar nada em especial, foi que finalmente caí em mim.

É isso mesmo, faz um certo tempo venho mantendo um caso com o marido de minha melhor amiga.

Não chega a ser uma descoberta como se até então eu não tivesse plena noção do fato.

Se poderia pensar que não me importava com o que eu cometia. Mas não. 

Na verdade tinha a mente ocupada por outras coisas ocupada por sua perpétua distração que como uma névoa me envolvia e me mantinha alheia aos acontecimentos da minha vida.

Mas agora que me encontro um pouco melhor, a névoa se dissipa um pouco.

Por ironia justamente foi o caso secreto que me fez ficar um tantinho melhor.

Vinha num tal estado de desalento justamente vi nisso uma tábua de salvação. Não tinha muita consciência do que fazia, estava tomada de um desespero terminal, me agarrei a única oportunidade que tinha.

Não digo que desconsiderei o aspecto moral da coisa, porque nem cheguei a considerar nada.

 Quem se detém em considerações em questão de sobrevivência? 

Mas agora encontro forças para uma crise de consciência.

O que fiz é imperdoável. 

Trai a confiança de uma amiga. Nem questiono a conduta do marido, qualquer deslealdade da parte dele é irrisória perto da minha, a considerava minha irmã, unidas por laços quase de sangue. 

Custo a crer que eu tenha sido capaz de algo tão vil. Não era essa a idéia que eu fazia de mim mesma.

Como a gente se engana sobre as pessoas.

Sou tida como muito tranquila, mas o que ocorre é que quase sempre estou  em outro lugar.

Mesmo em colapso minha postura no sofá em nada se altera. 

Considero a situação. O que fiz está feito e não tem conserto. 

Mas o mal maior ainda pode ser evitado: que  minha amiga venha a saber.

Minha preocupação em manter tudo oculto, devo dizer, é no entanto totalmente desprovida de interesse próprio. É só o que pode poupá-la do que seria uma dor devastadora. 

E isso, pelo menos,está ao meu alcance. O caso se manteve oculto, talvez graças a minha despreocupação em ocultá-lo.

Nada transpareceu, inclusive não transparece nem agora, que me encontro sentada por sinal ao lado do marido em questão, na sala de estar da casa dele e sua esposa, a já mencionada melhor amiga, que no momento se encontra ausente não sei bem por que motivo, como já disse, não tenho costume de prestar atenção no que me acontece.

Graças a deus estou vestida, tempos atrás já teria arrancado a roupa mas no momento meu comportamento é impecável, acima de qualquer suspeita.

Inclusive meu irmão, uma criança ainda, entra na sala e nos pega conversando educadamente, o que acredito pode vir a ser útil, caso algum dia eu precise de depoimentos a meu favor.

Pouco mais tarde minha amiga está de volta.Trocamos amenidades, nos despedimos. Nossa convivência segue sem alteracões.

Os dias transcorrem sem que nada denuncie o que carrego por dentro. 

Meu afeto por essa amiga é genuíno, sempre foi. 

Jamais teria feito o que fiz se estivesse nas condições que estou agora, coisa que infelizmente se deve justo ao fato de ter feito o que fiz.

Mas cada gesto caloroso, cada palavra boa que trocamos desmente de tal forma o meu negro segredo que algumas vezes chego a me esquecer dele.

Uma vez, do interior de um trem, vi um homem derrubar seu casaco no chão enquanto descia a escada, e se afastar pela plataforma vazia sem se aperceber de nada.

Esse homem entrará no seu próprio trem e quando der por falta do casaco, jamais saberá o que houve com ele. Meu trem se afastará da plataforma e quando outras pessoas passarem pelo casaco caído jamais saberão de onde ele veio. 

Sou a única testemunha do que aconteceu, a depositaria da verdade que une todos esses fatos.

Se eu, no decorrer dos dias,me esquecer desse incidente o que é bem provável, o que acontece com essa verdade da qual ninguém mais terá ciência?

Da mesma forma, um homem tem um sonho perturbador. No meio da noite nele experimenta emoção quase insuportável. Ao despertar, não se recorda do que foi sonhado. 

Para onde vai o sonho? Permanecerá no limbo dos eventos sem o suporte de uma consciência que o permita existir? Pode ele existir dessa maneira?

Sei o que fazer.

Devo banir o ocorrido da minha mente. Jamais me permitir qualquer pensamento sobre o assunto.

 Se ele não existir dentro de mim não poderá cruzar a fronteira para a realidade.

Assim faço e isso se revela tão eficiente que  tenho então o que me parece a solução definitiva: ir para o extrangeiro. 

Ali, afastada de tudo, sem contato nenhum com os demais participantes conscientes ou inconsciente do drama, o acontecido recuará ainda mais para o plano das coisas que  houveram mas nunca pensadas, nunca confirmadas, nunca admitidas.

Um fato que circula entre os viventes com um fantasma que não consegue se fazer notar, quase inexistente.

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