THE SOUL TELEVISION

A história do molho

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A HISTÓRIA DO MOLHO

Desisti de querer homens que entrem no mar para recuperar algo perdido por mim. Homens que nadem tão longe, de tão longe se perdeu tal coisa, que nem sei come não se confundem e vão para o lado errado. Como podem saber onde fica a praia? Em pensamento os vejo lutando contra as ondas, mas dessa distância é impossível que me enxerguem direito. 

Abri mão desses homens. Os que  retornam  do mar desmaiados de cansaço para me devolver uma coisa perdida. Por mais que os espere na praia e os conduza até minha cabana e os deite ao meu lado, pela manhã sempre acordamos em camas separadas.      

Cansei de homens sempre  no meio de um mar. Mesmo no meio da noite, quando dizem alguma coisa, chamam por outra pessoa. Eu não me chamo assim.  

Me retirei desses homens. E dei sorte. Logo um ambulante bateu na minha porta, fez por entrar e uma vez dentro, não desejou mais se afastar.

Acordamos juntos. Deveria me dar por contente mas ao invés disso outras coisas começaram a me ocorrer.      Ele era um ninguém. Sem eira nem beira, nome nem sobrenome, passado nem futuro. 

Fosse apenas vaidade minha, menos mau, mas o ponto é que não consigo entender o que vejo nele.        Enquanto passa o tempo à toa pela casa, dei de observá-lo a cata de algo que se sobressaia ,um brilho, um lampejo de seja lá o que for. Mas ele em tudo se mostra comum.

De noite, misturados um no outro, esses dilemas nem me ocorrem. Mas de dia voltam a incomodar.      Apareceu por aqui gente filmando para um documentário. Soube que vão de casa em casa entrevistando os moradores. Isso me deu certa esperança. Qualquer um que seja filmado passa a ser alguém.      

Mas na hora em que  o repórter devidamente instalado em minha sala em meio a seus aparatos, com grandes ares lhe pergunta o que ele mais gostava na vida, sua maior paixão, o sujeito vai e responde: 

"-Molho."

Adora molho. Mas nada de muito sofisticado, veja bem, bom mesmo são molhos simples, tipo ketchup.

E pára por aí. Nem sobre molhos consegue dizer grande coisa.       

O repórter prossegue como se tivesse sido um grande depoimento,“acabamos de ouvir  a opinião do  fulano de tal sobre molhos”e ainda arremata que o ambulante demonstrava talento raro para o humor, um comediante nato.      

Mal  consigo acreditar no que escuto. Teria sido ironia? Um esforço para manter o profissionalismo depois de um episódio desastroso desses? Ou seria possível  que o repórter considerasse mesmo aquela declaração sobre molhos uma mostra de grande personalidade da parte do entrevistado?

Sou incapaz de ter qualquer pista a respeito nem em sua voz que ressoa pela sala com a mesma convicção nem em sua fisionomia,que ao sair ostenta o mesmo entusiasmo com que entrou.      

Mesmo muito depois que o repórter foi embora, essa dúvida me consome.

Olho para o ambulante que permanece por perto, bem perto, sempre perto, em suas lidas banais, simplórias, e me pergunto: 

"-Será ele um grande talento humorístico?"

Não achei a história do molho engraçada.Mas que sei eu? Será que mentalidades mais acuradas que a minha não irão, num futuro próximo, concordar com o repórter sobre esse homem ,no qual por mais que tente, não consigo enxergarnada,nada,nada.       

Nada que justifique um pouco que seja a estranha persistência dessa densa satisfação, desse obscuro estado de graça em que a simples presença dele      

Me mantém.

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