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O chá de rato morto

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O CHÁ DE RATO MORTO

A casa contratou uma empregada nova.

 Sendo eu a responsável pelo funcionamento de todo corpo de serviço talvez essa iniciativa tivesse que ter sido minha, mas não.

A contratação partiu dos donos, os únicos a quem presto contas. 

Estranhei. De maneira geral as decisões da casa ficam todas a meu encargo, de tal maneira que os proprietários quase ali residem como meros hóspedes.

 O serviço é pesado, nada tenho contra mais auxiliares mas fiquei surpresa com a atitude dos donos, que me causou um vago mal estar, não sei se porque talvez deponha contra mim, ou talvez porque sendo tão dedicada à casa, às vezes me pego pensando como se ela fosse minha e custo a lembrar que não é.

Gostaria de considerar a questão com mais calma, mas não tenho tempo para isso.

Antes que os demais empregados se levantem devo descer até a despensa e providenciar de modo que todas as necessidades do dia possam ser atendidas satisfatoriamente, além de prever necessidades futuras que exijam providências desde já.

São providências que não acabam mais. Estou sempre atarefada e apressada, mas isso não me aborrece.

 A casa é para mim de tal forma que suas necessidades são também as minhas e servindo a casa de certa forma é como se servisse a mim mesma. 

Esses planejamentos matinais do qual depende todo o bom desempenho das funções do dia exigem toda minha concentração e nenhum empregado se atreveria a me importunar nesse momento. 

A não ser, claro, a tal criada nova que desavisada entra na despensa airosa e saltitante como entrasse no próprio quarto e espalhando a voz, assim como se falasse a uma colega dela, diz que gostaria de tomar um café antes de começar o serviço.

Me concedo uns segundos de distração para olhá-la de relance. É alta e muito jovem,com uma expressão viçosa e agradável mas que deixa claro que dela não se deve esperar grandes espertezas. 

Me pergunto por que diabos teria sido considerada de alguma utilidade para mim. Ela parecia de bem pouca utilidade no geral a não ser talvez para si mesma.

Mas pode ser que não tenha sido propriamente uma escolha calculada e sim falta de opção. Hoje em dia são todas assim. No ambiente exigente e selecionado da casa, criadas como essa podem destoar, mas fora daqui são o que há de mais comum. 

Outra noite mesmo, em minha folga esporádica, uma parecida esteve sentada próximo de mim no teatro e reparei que na lapela do casaco levava uma flor. Era uma flor viva, não poderia haver dúvidas a esse respeito, ela reluzia de puro frescor cada vez que a moça se agitava pra lá e pra cá em movimentos desnecessários, toda contente consigo mesma. 

Enquanto aguardava o início do espetáculo, não pude tirar os olhos dela. Via-se que, assim como eu, ela era também criada ,não poderia ser nada muito diferente, mas qual criada anda por aí florida desse jeito? 

Como é possível que ela, tão criada quanto eu, existisse de modo a permitir manter viva uma flor tão fresca, como se fosse algo natural, inevitável até? Fiquei pensando nisso até que a escuridão nos igualou.

Mas isso foi há bastante tempo, hoje nem mais essas folgas são possíveis e essa lembrança em nada me ajuda com aquela criada nova plantada ali no meio da despesa, me encarando numa inconveniente segurança de que suas expectativas seriam atendidas.

Gostaria de ignorá-la, mas um café antes do serviço é direito inquestionável de todos criados, mesmo os airosos e inconvenientes. Pois bem. Não há café feito no momento e não existe água disponível no momento para fazê-lo, justamente é uma das coisas que tenho que providenciar, o que não deveria ser um problema, já que no momento não deveria haver ninguém ali precisando de água para fazer café.

Sobre a bancada há apenas um tacho de metal, um panelão velho agora usado para armazenar louça suja, sem nada dentro a não ser uma água podre na qual bóia um rato morto.

A cozinha é extremamente asseada, assim como a despensa, mas numa casa dessas, campestre, com seus vastos ambientes caiados de branco de despesas, adegas e depósitos, não se podem evitar alguns ratos e ainda prefiro encontrá-los mortos do que vivos. 

Sem mais digo à criada:

"–Use a água desse tacho para fazer café."

E volto a me curvar sobre minha planilha de organizações do dia. 

Com o canto da vista sigo enquanto ela afunda o copo no tacho, observando numa contrariedade confusa o rato morto balançar na água, bem pouco à vontade com aquilo mas como foi instrução minha confia que não haja nada demais. 

Vou acompanhando em paralelo enquanto prossigo com meus afazeres. Só volto a pensar nisso quando, muito depois dela ter saído ,fico sabendo através de pessoas da casa que a empregada nova morreu de doença medonha e misteriosa, contraída por beber café de rato morto. 

O comentário era de que ela havia sido louca de usar aquela água, o rato estava morto há três dias.

Esse detalhe dos três dias, único pormenor do qual poderia alegar ignorância, me atinge como nada até então. Caio em mim, horrorizada. Que fui fazer? Por que fui dizer a ela que usasse aquela água? Achava que não tinha problema? Claro que sabia que tinha problema fazer café com água onde boiava um rato morto. Queria mal à moça? Não! Reconheço que a tratei de maneira meio displicente por ser ela uma reles empregadinha subalterna, jamais diria aos donos, por exemplo, que fizessem café com água de rato morto. Mas foi só um ligeiro descaso, jamais, jamais uma intenção maldosa e assassina, como seria necessário para recomendar uma coisa degenerada dessas.

Na verdade minha principal motivação foi me ver livre da incumbência  Estava ali me lascando para dar conta do recado. Houve tempo que achava que, por mais que me lascasse, jamais conseguiria. Houve tempo em que chorava no meu quarto longos minutos antes de finalmente criar coragem de descer e enfrentar atribuições que pareciam muito superiores às minhas forças. Mas esses tempos, graças a deus, ficaram para trás.

Se cheguei onde cheguei foi justamente por ter conseguido com meus esforços obter domínio das minhas funções, mas isso me custa toda minha capacidade e a cada dia que encerro me pergunto se darei conta do próximo. 

E quando na minha vida já tão sobrecarregada me aparece mais uma incumbência fora de hora ainda da parte de uma empregada que nem contratei, digo a única coisa que me ocorre para me desincumbir

A partir dali já não era da minha conta. Mas o fato é que a tola vai e faz mesmo um café com aquela água. 

E ainda por cima bebe? Quem esperaria tanta obediência? Então falam para ela tomar um café de rato morto e ela toma? Como é tonta! Que espécie de criatura entregue, crédula  e patética faz uma coisa dessas? Isso não me exime da culpa. Foi toda minha, claro. Vi que ela não era mesmo muito inteligente assim que bati os olhos nela. Começo a procurar um jeito de poder achar que talvez não tivesse dito para ela usar aquela água. É impossível, eu disse claramente para ela usar a água do tacho. Se ao menos não tivesse visto o rato. Vai ver não vi mesmo. Se mal olhei na direção da moça, muito menos do panelão e me debruçava toda sobre minha preciosa planilha das obrigações diárias, como poderia ter visto o rato? 

Talvez não tenha visto, 

Acho que não vi.

Com ansiedade repasso a cena na minha cabeça e quando a moça pergunta como pode tomar um café, digo para ela usar aquela água, mas não olho para o tacho. E ainda comento:

"– Não vejo nada de estranho nessa água."

Mas à minha frente, contra o papel quadriculado onde registro meticulosamente cada passo que deverei dar, já se delineia a silhueta de um rato morto. Ainda tento negar. Alterada, grito:

"– Eu estou no meu limite! Não tem nada na água! "

A moça, que em minha reconstituição mental se encontra atrás de mim a espera de que eu atenda sua solicitação, acompanha meu olhar fixo sobre a planilha e numa docilidade revoltante diz:

"– Dá prá ver o rato morto daqui."

Sim, até ela pode ver o rato morto, porque agora eu vejo em toda parte. Ele se desenha contra a planilha, flutua na minha frente, se multiplica pela despensa e me cerca enquanto eu grito, grito, porque não há como escapar dele, ele está dentro da moça, entranhou-se nela, como jamais essa pobre moça poderá escapar dele? Como poderei escapar dela que o carrega agora atrás de mim com uma súplica que não entendo e uma acusação que não suporto, que não posso suportar, porque a reconheço justa, desgraçadamente justa, por isso derrubo as planilhas, abandono o serviço que tanto prezo e desvairada corro pela casa, alcanço meu senhor, o senhor que julgava inútil, quase um nulo hóspede ali dentro mas que agora é meu único e desesperado recurso e aos seus pés me prostro e suplico, por favor, por favor, me afaste da moça que morreu por que tomou café de rato morto. Ela está lá fora querendo falar comigo, mas agora eu não consigo, não consigo, simplesmente não tenho forças, não tenho condições.

Não consigo lidar com isso,não consigo.

Estou fora de mim.

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