THE SOUL TELEVISION

A recusa

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A RECUSA


As perguntas são todas minhas.No mais elas não existem. 

Eu mesma questiono em termos.Emmomento algum contesto o dogma em si. 

Mesmo porque,para tanto,ele precisaria ser passível disso e o dogma está acima de contestações. 

Simplesmente é

 

 

Por aqui há um sacrifício ao qual todas as pessoas de bem se submetem: serem executadas.

Existe na cidade um grande mercado com barracas de comida,lojinhas e também um tablado onde acontecem execuções públicas

Não é nada que provoque horror.

Execuções são uma coisa desagradável para que está sendo executado mas que logo acaba e pronto.

É coisa difícil de explicar para quem não é daqui.

É consenso ser essa a única coisa digna a fazer com a própria vida.

Não como ato de expliação, mas de transcendência. 

Através do martírio, a única verdade, se chegaria a algo. O martírio é opção dos fortes

Esse dogma da superioridade do martírio nunca chega a ser contestada, mesmo por quem decide não escolher isso. Pois se trata de algo totalmente voluntário, ninguém é forçado a nada.

Eu mesma a certa altura conclui que o melhor para mim seria ser executada. Da mesma forma que seria fazer mais exercícios e comer mais verdure, um pequeno sacrifício por um bem maior.

Pensei bastante para chegar à essa conclusão baseada em diversas razões: é o certo, estarei corrigindo o que em mim precisa ser corrigido e dessa maneira me tornarei livre para ser finalmente feliz e acho que também amada. Não existe esse foco em ser amada mas isso está incluído. 

De qualquer forma estarei me libertando de tudo o que me prende e me condena nessa vida.

Ser executada é minha salvação. Sem isso continuarei arrastando infelicidades e amarguras eternidade afora.

Então tomo essa decisão. O próximo passo seria falar com o carrasco e marcar a execução.

Conheço o carrasco,é um rapaz bonito por quem sou meio apaixonada. Em parte a execução possibilita me aproximar dele. O fato de estar sendo executada me eleva à altura daquele rapaz tão belo que de outra forma jamais daria atenção à alguém como eu.

Ligo para ele e combino tudo para essa noite. Quase como combinar um encontro. Reparo que ele já me trata diferente por causa disso. Serei executada por enforcamento. 

Com tudo resolvido.aguardo a noite chegar.

E então começo a ficar com medo. Não tanto de morrer mas do ato em si, que deve doer.

Perco a coragem de ser executada mesmo com todas as vantagens que isso ia me  proporcionar.

Talvez pudesse protelar um pouco. Me vem uum súbito apego pelas coisas que estou fazendo. 

Então decido desmarcar. Talvez apenas adiar temporariamente até decidir .

Fico pensando que desculpa inventar. Poderia dizer que não posso ir porque estou doent mas não é uma desculpa muito boa. Me ocorre desmarcar sem dar explicações concretas, mas a essa hora o mais provável é que não consiga encontrá-lo e tenha que deixar recado. Ou talvez ele acabe indo à noite e não me encontrarndo no cadafalso fique sem entender nada.

Não enxergo solução e acabo deixando por isso mesmo.

Só volto a pensa no assunto muito tempo depois num banheiro público, outro local onde são realizados os martírios, que ali são feitos da seguinte maneira: o martirizado é colocado sentado em cima de um vaso sanitário fechado, vestindo apenas um camisolão branco e em seu corpo são presos vários fios de eletricidade com uma faixa de atadura. 

Ele receberá choques os mais violentos que um corpo humano consegue suportar. O objetivo é atingir a dor mais violenta da qual um corpo humano é capaz. 

Existe uma ínfima chance da pessoa escapar com vida mas isso é algo que nem se espera. O que se busca é transformação. Algo a ser alcançado através disso. 

Então aqui estou. Ajudo uma moça a se preparar para o sacrifício.Por um lado sinto pena dela por outro admiro sua coragem mas acima de tudo sei que aquele sacrifício não vai levar ao que ela imagina. 

Essa é a contradição. Sim, é uma coragem que não sei se eu teria e sim, não sei se sou covarde por não ter esse tipo de coragem, mas por outro lado sei que esse sacrifício, mesmo ato de coragem extrema não leva ao que se  imagina. Existe nisso tudo uma grande ilusão. 

O sacrifício é válido apenas no sentido de que levar um ato de coragem ao extremo não deixa de ser válido  mas não passa disso. Essa transmutação que se espera alcançar não existe. 

É isso que me diferencia dessas pessoas. Isso eu sei e elas não e mesmo assim, não sei se essas pessoas não serão mais corajosas que eu. Não sei quem está certo .É esse o mistério.

Os que abraçam o martírio não irão encontrar o que procuram mesmo assim serão redimidos por sua extrema coragem. 

Eu deveria fazer o mesmo?  Se me dispusesse a isso, nada conseguiria a não ser me provar para mim mesma. Por outro lado essas pessoas mesmo iludidas serão redimidas, porque mesmo iludidas mostraram coragem, enquanto eu, lúcida estou me recusando a isso. 

Existe uma pequena chance de que esteja sendo sábia, mas isso não chega a ficar esclarecido. 

Só sei que desfio um dogma poderoso ao me recusar a sequer considerar a possibilidade de me martirzar. Eu deveria me martirizar mesmo não levando a nada.

Nada do que se escolha pode satisfazer o nível de exigência desse dogma. Sem o martírio somos todos indignos.

Quem se dispõe a isso torna-se digno sendo inclusive liberado de se sacrificar. E eu, justamente por me recusar, não serei liberada. Todas essas coisas são verdade ao mesmo tempo. 

Ajudo a moça a se preparar, com pena e inveja dela  Digo a mim mesma que  não preciso me submeter a esse sacrifício todo  porque já sofro muito  Sofro o tempo todo e essas pessoas não sabem o que é sofrer. Mesmo convencida disso não posso garantir que seja verdade.

Ajudo a enrolar as ataduras, as mesmas que transmitirão os choques ao corpo dela.

Essas ataduras foram retiradas do corpo de um japonês que acabou de ser martirizar e estão com manchas de sangue e de queimado.  

Esse japonês,  um homem muito triste, apesar de bonito, com uns cabelos longos, passou a vida em solidão, buscando a redenção de sua alma e culminou essa procura com um martírio solitário, no qual sofreu as maiores dores possíveis e morreu.

Tem isso do martírio ser solitário, a pessoa deve passar por tudo sozinha, dentro de um box de banheiro público, completamente desprovida do conforto do amigo ou qualquer luxo ou vaidade. 

Deixo a moça seguir para seu calvário, nada mais posso fazer por ela. Me ponho a vagar pelo local não sei bem por quê, apesar que essa falta de saber o que estou fazendo não faz falta.

Ando para lá e para cá como se tivesse um objetivo e não pudesse perder um instante.

Me dirijo a um guichê central onde tento obter informações muito importantes para mim. 

Tentando conseguir que alguém me atenda, começo a reparar num outro sacrifício que está sendo preparado. Ali do lado de dentro do guichê mesmo, entre os atendentes, há um carro, um conversível e dentro dele está sentado o Vigo Mortessen 

Além dos tais choque no banheiro existe essa outra forma possível de martírio também muito adotada, que é morrer queimado. 

De forma geral os martirizados devem escolher o que for mais terrível, amedrontador ou doloroso para eles. Vigo Mortessen escolheu morrer queimado por ter medo de fogo. 

Ninguém sequer deixa de trabalhar por causa disso. Por aqui essa coisa de martírios é considerada tão normal quanto cortar o cabelo. 

Vigo se concentra. Ateiam fogo no carro. 

Quando tenho que me afastar para receber a informação importante. ainda vejo de relance o fogo atingir seu corpo, o martírio  chegando ao máximo. 

Aquilo balança minha convicção de que se maritirzar não é o certo a fazer. Se o Vigo Mortessen, que admiro tanto, escolheu isso, é porque deve ser a coisa certa, ele não estaria enganado sobre isso. 

Mesmo assim,eu me recuso.

Me recuso.

Me recuso.

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