THE SOUL TELEVISION

A explicação que ia mudar tudo

The Soul Television


A EXPLICAÇÃO QUE IA MUDAR TUDO

Não é certeza que fossem visitantes. Não  pareciam pessoas com objetivos e sim estar ali de passagem. 

Meus colegas de trabalho também pareciam confusos sobre esse ponto mas com o escritório sobrecarregado daquele jeito, ninguém se deu ao trabalho de tentar esclarecer o que de fato aquelas pessoas estavam fazendo ali.

Eram um homem, uma mulher e uma terceira figura indistinta. 

Muito alegres e simpáticos, um deles em especial falava bastante comigo. 

Os tratei com certa má vontade. Estava ainda mais ocupada que de costume, minha única preocupação era cumprir meus deveres, o que nunca dava certo, sempre faltava algo e com visitantes ainda por cima, isso se tornava mais difícultoso.

Me sentia mal por eles, a todo instante me surpreendia de ainda não terem ido embora, não entendia porque haveriam de querer ficar ali mais tempo mas eles não pareciam nada incomodados.

Em determinado momento foram até a copa do escritório beber água.

Pela porta aberta pude ver sobre a pia a pilha de documentos que havia separado para examinar mais tarde.

Fui até a copa unicamente com esse propósito e já me perdia nos documentos quando me pareceu que falavam sobre mim.

Fiquei em dúvida. Mesmo estando ao lado deles não me incluíam na conversa como se estivesse numa reunião a meu respeito para a qual eu não houvesse sido convidada. 

Mas era fato, falavam sobre minha pessoa.

Acompanhei a conversa de forma meio entrecortada, sempre indo para outros lugares arrumar outras coisas mas pelo que pude captar era como se eles estivessem ao par de algo da minha vida que eu não . 

Fizeram vários comentários que não entendi direito mas que revelam participação deles em muitas coisas que me aconteceram, participação que teria sido crucial para a decisão dos fatos. 

A certa altura cheguei a interrompê-los para dizer bruscamente que eles nem estiveram presentes nesses acontecimentos. Sem se abalar  com minha interferência nem com minha rudeza a mulher me respondeu que estiveram conectados por internet e MSN com as pessoas que estavam.

Isso se revelou muito maior do que eu inaginava. 

Parei de arrumar os documentos, os encarei e disse com firmeza mas procurando não soar agressiva, inclusive porque eles se mantinham muito cordiais:

"-Não sei do que você está falando, mas se tem algo a dizer diga com clareza olhando na minha cara, se não vou achar que você está de brincadeira e esses assuntos são muito importantes para mim."

A mulher se apressa em me tranquilizar. Não tem intenção de me perturbar, garante.

Percebo que foram a minha procura no escritório justamente para me por a par dessas explicações que iram fazer com que tudo fizesse sentido.

Talvez achassem que eu estivesse um pouquinho só mais informada do que estava e agora só aos poucos se davam conta do quanto não sei de nada que era mais importante saber. 

Disse a eles que iria terminar minhas tarefas e então poderíamos conversar direito.

Me apresso, me apresso, mas parece que nunca consigo concluir nada.

Os deveres são muito pesados, não só para mim, para todo mundo.

Meus colegas de vez em quando tiram cochilos na minha sala,o que me atrasa mais ainda.

Vou fazendo o que posso de maneira insatisfatória. Penso comigo que os visitantes devem estar me achando uma obcecada por trabalho, não sou, quero só dar uma última encaminhada no serviço e escutar o que tem a dizer. 

Não sei porque não largo tudo imediatamente, talvez esteja nervosa. 

Penso em trazer a última pasta de documentos que está na outra sala e deixá-la sobre minha mesa para encerrar tudo mas tenho medo de que se fizer isso em seguida arrume mais alguma outra coisa qualquer para fazer e isso nunca tenha fim.

As horas avançam e os visitantes permanecem a minha espera. Estou tão fatigada, tão fatigada, não sei se a melhor idéia não seria pedir que fossem embora,mas nem para isso me restam forças.

Apenas de vez em quando passo pela copa para escutar o que dizem.

Continuam com comentários indecifráveis sobre mim.

Digo,rindo: 

"-Não faço idéia do que vocês estão falando. Eu não sei de nada."

A mulher abre um sorriso solidário.

Diz que compreende a situação e calcula o que eu passei por não saber nada, calcula como me sinto ao escutar comentários que não entendo sobre algo que não sei, algo que iria explicar tudo e pelo jeito me redimir perante mim mesma, porque talvez no fundo e é isso que vai ficando cada vez mais delineado, talvez no fundo as coisas não tenham dado tão errado quanto eu achava que deram, talvez até eu tenha, mesmo sem saber,sido amada.

The Soul Television
The Soul Television