THE SOUL TELEVISION

A casa das pessoas amáveis

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A CASA DAS PESSOAS AMÁVEIS


Tenho que ir a uma casa que não é minha. Por sorte são só alguns quarteirões indo reto.

O motivo nunca chegou a ficar claro. Com certeza deve haver um. 

Minha irmã, quando me pediu esse favor, se estendeu em recomendações cansativas que apenas fingi escutar, e que imagino deveriam ser justamente a explicação. 

E agora, nessa rua vazia.dando quase meia noite, a falta de uma boa razão para isso bem que me faz falta.

Sigo o mais depressa que posso por passagens espremidas entre tufos de mato, lugar bem adequado para um assalto.

Nada do tipo sucede, por sorte, mas mais adiante avisto duas prostitutas sinal definitivo de que me perdi. 

Apesar de não conhecer o lugar direito, tenho certeza de que o caminho certo não passa por nada desse tipo, aliás estivesse indo pelo caminho certo, já deveria estar chegando, ao invés de estar nessa rua desconhecida,sem nenhum ponto de referência a vista. 

Por outro lado devo estar perto, afinal, a pé, não tem como  se desviar tanto assim.

Só me resta chamar um táxi.

Não deve ficar mais que dez reais, mesmo assim é bem chato isso.

Um favor deveria se manter dentro de limites razoáveis, no máximo alguns quarteirões indo reto, mas esse agora  já envolve  pegar um táxi, o que não vai ser nada fácil a essa hora.

Passa um que não me vê,depois outro cheio. 

Até que  vejo um mais adiante estacionado na calcada.Tem as portas abertas,dentro, dois motoristas de prosa, um no banco da frente outro no de trás. Parecem ter encerrado o expediente, fato que procuro ignorar, logo pedindo para me levarem na rua tal, sei mais ou menos o nome, mas de qualquer forma é só dar algumas  voltas pelo quarteirão que se acaba dando nela.

O motorista não parece nada contrariado, pelo contrário, dando partida ainda com a porta aberta, fala:

"-Vai ficar em 100 reais."

Apesar da luz baixa da rua enxergo bem sua fisionomia malandra travada num sorriso desagradável. Respondo:

"-É aqui do lado. Por 100 reais volto para minha casa."

Sim, porque tenho que ir para a casa da minha irmã para começo de conversa?

 É isso que está causando todo o problema. Porque não volto para minha casa? 

Não sei o motivo de estar aqui, lamento não prestar atenção no que me dizem, é uma falha de caráter que me causa muitos aborrecimentos, admito, mas esse favor não parecia ser nada de tão importante assim, o tipo de coisa da qual  se poderia desistir tranquilamente caso algo começasse a dar errado, como de fato estava.

O motorista no banco de trás, aproveitando minha hesitação, segura minha mão com malícia, trocando risadinhas com o colega. Os dois tem má intenção, é evidente.Desvencilho deles  e me afasto. 

Agora estou bem assustada.

E não é que convenientemente, bem na esquina seguinte, em meio ao adormecimento das ruas, encontro uma grande casa, toda acesa em luzes?

Está havendo uma festa. Pessoas chegam em bandos. Uma senhora as recepciona.

Está longe de ser uma senhora qualquer. É de uma postura perfeita, finamente trajada, mantém uma atitude cordial mas reservada, envolta numa serenidade distante de quem pensa em alguma outra coisa.  

Um momento bem pouco adequado para um pedido de ajuda. Mesmo assim quando a maior parte dos convidados já entrou,a abordo.

"-Posso falar com a senhora?"

Que péssimo começo, penso comigo. É a frase clássica dos pedintes.

"-Eu estava indo para uma casa aqui perto, mas me perdi e estou dando voltas em círculos já faz muito tempo. Será que poderia usar seu telefone?"

A senhora me escuta, ainda parecendo em parte absorta por aquela alguma outra coisa mais importante e nem espero que diga o que me diz:

"- Claro, um instante."

E  me tranqüilizando com  o mesmo sorriso que ofereceu  aos convidados vai para dentro distribuindo instruções. 

Me vem certa dúvida se ela. em meio a aquela solicitação geral, teria sido capaz de escutar o que eu disse. Quem sabe não me  tomou por alguma convidada e por gentileza concordou com algo que nem chegou a escutar direito, como eu mesma fiz?

Mas logo vejo que não. Lá de dentro, a senhora fala com alguém e me aponta de longe.

Em seguida se vai para sempre. 

De uma porta lateral surge uma serviçal investida de uma autoridade que leva a crer que seja a governanta e pede que eu entre, passando a me conduzir por um anexo paralelo a casa, que  calculo ser as dependências dos empregados. Uma casa daquele porte não poderia deixar de ter muitos.

Pelas vidraças vazam sobre mim as luzes da festa.

Um fluxo contínuo de empregados transita portando flores, pratas, cristais. 

Estou fascinada. Mal reparo que a governanta troca palavras com o que parece ser um mordomo e em seguida vem falar comigo.daqui a pouco desocupam o telefone e eu poderei usar,ela vai me levar até lá.

Tem o mesma  nobreza da dona da casa o mesmo perfeito controle de si mesma, como se não a sobrecarregasse nada o encargo extra que eu represento.

Agradeço, me esforçando para me colocar no mesmo nível, por outro lado, há algo naquelas pessoas que torna isso muito mais fácil do que costuma se. 

Normalmente quanto mais me esforço, pior me saio, mas entre aquelas pessoas estranhamente me sinto a vontade.

Sentada com as  pernas perfeitamente cruzadas aguardo ser levada ao telefone se bem que não imagino que utilidade teria  ligar para alguém naquela situação. Minha irmã está fora e não sei de ninguém mais que possa me orientar ,ainda mais que nem o nome da rua sei direito, está se apagando da minha memória, agora só lembro metade e nem disso tenho certeza. 

O telefonema não passou de pretexto, tudo que queria era sair das ruas e me sentir em segurança por alguns instantes.

E nisso não poderia ter ido parar num lugar melhor. 

A casa em si é um reduto onde todas coisas boas são abundantes.

É ampla, rica, festiva, fartamente adornada e provida.

Todos  parecem satisfeitos por estarem ali, satisfeitos uns com os outros, com suas atribuições e o mais importante, comigo.

Fui aceita de imediato, não como um estorvo, como seria de se esperar, mas como uma desafortunada necessitada de ajuda.

A tal ida ao telefone se atrasa  cada vez mais, o que não deixa de ser razoável, afinal com uma festa em andamento, todos estão atarefados. Vou trocando uma palavra com um, com outro.

Minha presença se tornou normal a ponto de me parecer que eles gostariam que eu acabasse trabalhando lá. Não seria difícil, tenho a impressão de que é quase a tendência natural das coisas e se eu não fizesse nada, apenas permanecesse ali, mais cedo ou mais tarde receberia alguma incubência e tudo o que teria a fazer seria cumprir. 

Eu mesma me pego gostando da idéia apesar de não ter nada a ver com meus planos.

Mas seria tão bom viver naquela perfeita ordem, onde tudo tem seu lugar, sua função ,inclusive eu.

Um dos cozinheiros agora me pergunta sobre a rua onde eu ia,talvez conheça. 

Sou polida, mas o mais evasiva que posso. Agora quero adiar ao máximo a hora de partir. 

Se tornou difícil teria que juntar todas as minhas forças para isso.

Pois lá fora voltarei a ser quem sou, uma criatura desnorteada em permanente tormento, 

a se arrastar por quarteirões desolados sem ao menos saber o motivo.

Mas nessa casa não há infortúnios, não há dissabores. 

O cozinheiro, mesmo diante da falta de qualquer utilidade prática da minha pessoa, não desinteressou de mim. 

Agora fala de forma bem humorada das dificuldades de manter o peso cercado de tanta comida. 

Me conta sobre o regime que anda se impondo na base, pelo que entendi ,unicamente de melão. 

E já trazendo da geladeira uma grande travessa com pudim de melão, insiste que eu prove.

Como poderei partir? Aqui sou bem vinda, bem quista, bem alimentada.

Todas minhas necessidades são supridas nessa casa a não ser o fato de não ser aqui o meu lugar.

 

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