THE SOUL TELEVISION

O protocolo

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O PROTOCOLO

Nada sei do que se passou antes.

Pela primeira vez estou no lugar certo. Sou, sem que se explique, primeira dama.

Não preciso nada além disso. Aceito o cargo como justo e merecido, inevitável até, sem que nisso incorra um pingo de vaidade. Pelo contrário, a nobreza do meu posto me ergue acima de mesquinharias. 

Estou tomada apenas das mais puras intenções.

Sigo rumo ao meu gabinete sem nem saber onde fica, dando com ele como se viesse se colocar a minha frente. Isso em nada me surpreende. Assim tudo me parece, pronto a acatar meus comandos.

É uma sala considerável repleta de mesas, todo um departamento a serviço da primeira dama.

Num espaço central, protegidos por cubas quadradas de vidro encontro expostos os projetos em andamento.

Não se vê ninguém em parte alguma. É cedo, as pessoas ainda não se encontram em seus lugares. 

Eu mesma talvez devesse estar em outra parte,mas me antecipei. 

Talvez fosse caso de esperar que cheguem todos, cumprir formalidades, trocar cumprimentos, não posso. 

Estive por tanto tempo tão refreada, tão refreada, nada podia, nada fazia, apenas constatava, agora a ânsia por me exercer a tudo se impõe.

Depois de tanto aguardar, me guardar, ir aos poucos, para mim faz tempo que é tarde demais.

Os projetos sobre os quais me debruço agora são meus projetos, dos quais vou me apossando com pequenas observações, que deixo anotadas em papeizinhos pregados no vidro.

Breves comentários, por exemplo, uma das vitrines exibia a seleção feita para indicar um dos meus acessores principais, algo que com certeza me diz bastante respeito.

Escrevo uma rápida nota dizendo que ao invés do nome escolhido preferia que fosse fulano de tal.

Logo nada mais me resta a não sei esperar pela equipe.

Os corredores começam a dar sinais de movimento. De toda parte desembocam pessoas com objetivos.

E nisso sou procurada por uma figura pequena e pálida, toda de escuro.

Parece jovem demais para ocupar seu cargo: uma espécie de assistente direta minha, conforme ela diz, assistente direta das primeiras damas. 

Fala num tom impessoal,s em pausas nem hesitações. 

É de uma seriedade meio ostensiva, como se pretendesse dar o exemplo da perfeita postura profissional, a qual procuro romper com gentilezas, mas ela permanece inatingível, tem algo a dizer, não algo qualquer, algo de importância, suma importância sobre o efeito dos meus bilhetes. 

Custo a entender do que se trata. Nem esperava que aqueles bilhetes fossem notados.

Escrevi só porque estava meio a toa, e quis adiantar assuntos, quase anotações para mim mesma.

Mas pela assistente fico sabendo que não só foram levados a sério como causaram enorme comoção, começando pelo fato de que, como ela faz questão de deixar claro, mais através do tom de voz do que das palavras, escrever bilhetes para a própria equipe era considerado algo muito irregular, impensável até.

Havia todo um protocolo que deveria ser seguido para interagir com a equipe, não era chegar e ir falando, é o que a assistente me explica, numa delicadeza fria, olhando por sobre meu ombro, toda sua severa pessoinha de absoluta superioridade em competência e eficiência.

Sem perder tempo, me conduz a um departamento que existe apenas, explica de forma polida, sem porém deixar de sutilmente ressaltar minha necessidade de explicações, existe unicamente para receber as comunicações da primeira dama e transmiti-las a equipe. 

Não é minha intenção desrespeitar o protocolo, explico,mas esse departamento na minha opinião dificulta a troca de idéias, justamente por que deixa de ser uma troca, passa a ser um comunicado. Quase uma negociação mediada por advogados, na qual o que vem da outra parte é encarado como ameaça.

Não sou insincera no meu nteresse pelas idéias da equipe, mas minhas boas intenções nem chegam a ser notadas.

"–Existe um protocolo. É preciso seguir o protocolo ', ela repete como se a minha insistência em argumentar apenas confirmasse uma  deficência da minha parte em assimilar conceitos básicos. 

Longe dela qualquer intenção de me dar ordens ,apenas cumpria seu dever, mas o que se sentia por baixo de toda aquela gentileza calculada e condescendente, era que ficava subentendido que era assim que as coisas funcionavam por ali e eu teria que me adaptar.

Por exemplo, minha anotação sobre o nome indicado para a posição de meu acessor, uma posição de comando dentro da equipe, havia provocado, ela fazia questão de enfatizar, gravíssimos transtornos, porque havia sido recebida como definitiva e vários problemas já haviam sido levantados e as discussões nesse sentido no departamento tinham evoluído como se houvesse nisso uma imposição da minha parte, coisa que jamais tinha sido o caso, conforme procuro esclarecer, apenas quis sugerir uma alternativa.

Se essa era minha intenção, prossegue ela implacável, eu deveria encaminhar minha proposta de mudança de nome do selecionado para o departamento, que como ela havia acabado de explicar, servia exatamente para isso. 

Primeiro eu teria que falar com uma tal pessoa e explicar minhas razões,e se essa pessoa achasse procedente, eu preencheria um ficha que seria encaminhada a outra pessoa que iria avaliar a situação e posteriormente agendaria uma conversa comigo. 

Apresentava a coisa  como se tratasse de uma grande deferência a mim mas o que me ocorria é que para fazer qualquer bobagem se fazia necessário tantas etapas desgastantes e lentas que ou a pessoa desistia, ou se conformava em perder um tempo gigantesco para conseguir avanços mínimos.

Não conseguia ver qual a necessidade daquele sistema tão complicado de tomar decisões já que a única conseqüência concreta que parecia haver em falar diretamente com a equipe era o fato de que isso, como disse a assistente,“ deixava eles nervosos”. 

E só. Não havia, ou não parecia haver,nenhuma outra conseqüência de ordem prática, muito menos de ordem grave.

A equipe era tratada, coisa que ela colocava com muito tato, como sendo de natureza extremamente sensível e não deveria de forma alguma ser submetida a nenhum desgaste desnecessário, devido ao fato de haver estado a serviço de várias primeiras damas antes de mim, ao passo que eu era apenas uma depois da qual outras viriam.

E a equipe, por sua vez,era permanente, portanto eles é que deveriam ser poupados,não eu.

Nem sei mais o que pensar.

Em alguns momentos tudo me parece um absurdo sem tamanho, em outros, uma tática para neutralizar minha atuação ali dentro, mas ultimamente  já aceito a possibilidade de algo estar me escapando por falta de experiência, e provavelmente com o tempo venha a perceber sérias e abalizadas razões para as coisas serem daquele jeito.

Enquanto isso acato os protocolos. Que como previa, tornam extremamente custoso realizar qualquer coisa. Mas não impossível. 

Aí reside a esperança,aí reside o perigo: sempre se está prestes, sempre se está a um passo.

 E assim se vai prosseguindo, submergindo em corredores que se sucedem compridos, inconclusivos, 

decepcionantes, mas  já nem os enxergo direito, pois me disperso, me disperso, parte de mim se afastou, me acompanha de longe, se pondo a divagar sobre meu marido, como se somente agora lhe conferisse existência. 

Quem será? Como será? Terá um corpo quente, vigoroso, acolhedor? Um peito amplo que me receba, me conforte, me console, quem sabe até me compense, quem sabe até me redima, quem sabe até se revele, no final das contas, meu insuspeitado, definitivo destino?

 

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