PICARETA PRODUCTIONS

O sobrevivente | The survivor

O Sobrevivente

Um estado alterado de consciência

 

por Christiane Teixeira Curioni

 

Leni é uma perita judicial perdida em uma cidade do interior. Ao ser acolhida por um casal para atravessar em segurança a noite iminente, ela presencia fatos sobrenaturais que a fazem questionar se os vivos podem, na verdade, estar mortos. Essa é a premissa do curta-metragem O Sobreviventeque, a cada passo de Leni sob a neblina e a escuridão, conduz o telespectador a um mergulho em um mundo onde prevalecem estados alterados de consciência.

O ponto de partida da obra foi uma experiência real da autora: “A ideia do roteiro surgiu a partir de um momento na minha vida em que por um longo período de tempo, superior a dez anos até, eu me senti como o personagem do filme, um ‘morto que continua vivendo’. Dizer que me sentia anestesiada, como a ideia de morte pode induzir, não seria correto. Ao contrário. Sentia uma dor muito funda e intermitente, como um luto, acompanhada de uma sensação bizarra de cisão interna. Não uma cisão entre duas partes distintas de mim que estariam ali, mas entre uma parte que havia morrido, que não estaria mais presente, e outra parte, a que ‘sobreviveu’. A sensação física era de que eu tinha morrido e quem estava ali fazendo as coisas e prosseguindo com minha rotina era um fantasma meu. Ou o meu cadáver, que estaria de luto pela memória de mim mesma. Eu sentia como se houvesse me tornado uma espécie de arremedo de mim mesma. Nas antigas fotos vitorianas post mortem, muitas vezes os mortos eram posicionados de forma a simular que estavam vivos, inclusive realizando atividades das quais gostavam. Eu me identifiquei muito com isso, pois me sentia como se estivesse simulando para mim mesma que estava viva. Como se simulação fosse o único modo de existência a meu alcance. Uma simulação para mim apenas, visto que, por fora, ninguém notava nada.”

Apesar de todo o roteiro ter sido desenvolvido a partir de uma experiência pessoal, aos poucos foi se revelando parte de uma experiência coletiva, visto que os estados alterados descritos simbolicamente no filme são os encontrados na Síndrome de Cotard e no Transtorno de Despersonalização. 

Nesse contexto, parece necessária uma reflexão não só sobre como esses estados alterados de consciência têm se revelado na atualidade, mas também sobre o papel da arte como um caminho criativo para o “voltar à vida”.

 Por fim, Leni consegue voltar para casa, mas seu olhar para a realidade nunca mais será o mesmo. É normal a reação fria do namorado frente a revelações tão caóticas? O adolescente de olhos vidrados e alheio a tudo numa quadra esportiva está mesmo vivo? Nossa heroína está transformada, pois completou, pelo menos até o próximo chamado, a sua jornada, a sua caminhada. Ela desceu ao "inferno", mas voltou capaz de enxergar melhor. 

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